ONG Oficarte celebra 20 anos de história - Regional - Diário do Nordeste

TEATRO

ONG Oficarte celebra 20 anos de história

10.02.2011

Em sua trajetória, o grupo de Russas apoia crianças e adolescentes para conquista de futuro melhor na vida adulta

Russas. Se o menino é afoito, diz-se que ele faz um "arte", uma estripulia arriscada que se for ver é um perigo aos olhos da mãe. Mas a inquietude pode ser também impulsionadora de uma arte, um comportamento que quando as mães veem um tal de teatro, dança e estripulia de circo vai se perguntar "meu filho é artista?". Em duas décadas de trabalho, a ONG Oficarte Teatro e Cia, de Russas, no Vale do Jaguaribe, ajuda a ampliar o conceito de arte aos olhos do Interior. E forma artistas.

Fazer teatro não é fácil. E se a cena é o Interior, carente de teatro, cinema, ou qualquer outro espaço difusor de ficção que não seja a caixa quadrada da televisão, mais difícil ainda. O que tem em comum a Márcia Oliveira e Frank Lourenço - ela uma professora, ele um policial militar - é o gosto por se fazer teatro. Não para a execução da peça que dará nota ao aluno na aula de educação artística na escola. É teatro mesmo, para um movimento além das paredes colegiais. De formar artistas para o teatro e para a vida a Oficarte é feita.

Em 20 anos de trabalho centenas de jovens, muitos já adultos, passaram pelas oficinas de canto, dança, interpretação, das meninices da também arte-educadora Márcia Oliveira. O potencial do grupo para as artes misturadas foi comprovado em 2005, no espetáculo Cantares e Folganças. O espetáculo foi apresentado no Theatro José de Alencar, em Fortaleza. Um musical com circo, teatro e dança. E ainda figurino, maquiagem, produção. De tudo se aprende na Oficarte. Hoje, tem quem um dia foi apenas "aluno" e ouvinte do ensinamento do ´tio´ Frank sendo produtor cultural. Realizam seus próprios projetos artísticos dentro da Oficarte - um dia criada para livrar os jovens da ociosidade.

A ONG surgiu numa das cidades que entre os anos 80 e 90 ficou tristemente conhecida como berço do trabalho infantil. Muitas crianças trabalhando nas dezenas de olarias do Município. "Tínhamos alunos que dividiam o dia entre escola, teatro e fábrica de telhas", admitiu Frank Lourenço. Até que o teatro virou a redenção.

Como eco de sua própria criação, no ano passado a Oficarte lançou a "Fábrica de Risos". Utilizando a linguagem do Circo, "Fábrica de Risos" tem como temática "o comportamento das crianças e adolescentes das comunidades periféricas de Russas e do Vale do Jaguaribe em meio ao contato com o trabalho infantil, a influencia negativa das mídias de massa no seu modo de agir e sem acesso aos meios de fruição artísticas", diz Flávio Gonçalves, um dos garotos que cresceu fazendo arte e hoje é ator, diretor e produtor do projeto. Contrapõem-se fábrica que automatiza o indivíduo com fábrica de fazer rir. E conseguiu pelos bairros na periferia de Russas.

Patrocínio

Grupo mais maduro, a Oficarte tem se apoiado no lançamento de editais de cultura, como patrocinadores dos espetáculos teatrais. Dessa forma, viabilizam a compra de material para cenário, luz e figurino. A ONG já produziu pelo menos oito espetáculos - com custos variando em R$ 20 mil - por meio de captação de recursos via editais de cultura. Hoje a ONG tem o ponto de cultura Brincantes de Teatro, apoiado pelo Ministério da Cultura. São 100 alunos divididos nas atividades de teatro, dança e música. Exemplo é o "Pastoril Dona Vilma", que em 2010 fez o circuito do Ceará Natal de Luz. Teve também a estreia do Reisado do Boi Brioso, apadrinhado por um dos maiores brincantes de reisado do Brasil: Mestre Aldenir, titulado Mestre da Cultura Popular Tradicional do Ceará.

O movimento artístico que se formou em Russas foi impulsionado para o Vale do Jaguaribe com o projeto Mergulho Teatral. Uma reunião itinerante dos fazedores e admiradores do teatro na região. Geralmente nos fins de semana, a moçada se reúne para oficinas, discussões e culminam com o que mais gostam de fazer: interpretar.

Outras grandes produções mais recentes são Qorpo Santo, Chá das Seis e Carrossel do Tempo. As novas ideias também saíram da cabeça dos mais novos e hoje produtores, como Otton Natashe, que dirige o "Expresso Experimental".

Numa das apresentações, ouviu-se de um espectador admirado: "Esse pessoal é de Fortaleza ou de outro Estado?". É de Russas, sim senhor! (MJ)

TALENTO
"Em tanto tempo, é orgulho, ideia que vamos lapidando a cada dia no fazer teatral"
Márcia Oliveira
Atriz e produtora

"O desafio é manter atores mesmo quando eles têm outras responsabilidades"
Frank Lourenço
Ator e produtor

"Nós estamos todo tempo buscando formas de desenvolver a nossa arte"
Otton Natashe
Ator e produtor

POUCO INCENTIVO
Manutenção de apoio é desafio
O maior prêmio para o grupo é vencer um edital de incentivo. Hoje é a principal forma de captação de recursos

Russas. Não é fácil fazer arte, e menos ainda continuar fazendo. Nem mesmo se configurando como um dos principais grupos de produção cultural tendo a arte também como objeto de redenção social para centenas de pessoas. Em duas décadas de trabalhos, a ONG Oficarte Teatro e Cia conta com apoios "aqui e ali", e num Estado que pouco aclama seus produtores culturais, o maior prêmio para eles é vencer um edital de incentivo. Hoje é a principal forma de captação de recursos.

O teatro virou uma forma de inclusão cultural e social. Tudo é indissociável. Em 1990 o policial militar Frank Lourenço e o ator Acleilton Vicente sabiam disso. Criou-se a Associação Oficina de Arte Teatro e Cia, Oficarte, que hoje é reconhecida nas rodas culturais do Ceará. Com a atriz e pedagoga Márcia Oliveira, a inclusão também foi educacional e de cidadania.

Cada projeto disputa um edital, cada produção peleja por apoio governamental. O Mergulho Teatral, movimento itinerante surgido com a ONG, geralmente tem apoio da Prefeitura do Município por onde passa. A importância do "Mergulho" é reconhecida. A iniciativa, em parceria com o Movimento Teatral do Vale do Jaguaribe, conquistou o terceiro lugar no prêmio Mais Cultura, do Ministério da Cultura.

"O que falta é uma manutenção desse apoio aos grupos locais", diz Frank Lourenço. É um apoio que vá para além do evento. No Interior do Estado, o que se paga a uma banda de forró para tocar em praça pública em inauguração de estrada financiaria até dois espetáculos teatrais que poderiam durar meses em apresentações.

As peças teatrais, quando não têm apresentação gratuita, cobra-se um preço simbólico. "É uma forma de o povo ir, mas também precisa saber que para estar ali no palco foi preciso ´ralar´ muito", conta Arialdo Saldanha, produtor cultural em Aracati e que diz ´admirar´ o trabalho da Oficarte.

O produtor reclama que quando corre aos gabinetes dos prefeitos e mesmo dos secretários municipais de Cultura, em busca de apoio para os movimentos culturais, "o governante pensa que estamos pedindo um favor".

MAIS INFORMAÇÕES
Oficarte Teatro e Cia
Município de Russas, localizado na região do Vale do Jaguaribe
Telefone: (88) 9927.4494

Melquíades Júnior
Colaborador


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