PADRE CÍCERO

O papel do Cearense do Século na história de Juazeiro

20:54 · 07.08.2010
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Juazeiro do Norte Uma vida dedicada à igreja. Padre Cícero morreu fiel ao seu juramento, mesmo sem saber que tinha sido suspenso de ordens. A sua importância vem sendo reconhecida aos poucos pela instituição que o afastou e hoje a luta é para reabilitá-lo. O homem que se tornou o santo popular do Brasil, principalmente da nação nordestina, foi eleito, em 2001, por meio de campanha da Rede Globo e TV Verdes Mares, o "Cearense do Século", tendo em vista a sua representatividade para o Estado do Ceará.

O nome Padre Cícero é apregoado por todos os cantos de Juazeiro e do Nordeste. No comércio, nas residências, a imagem do sacerdote é a marca da fé do povo neste líder religioso, que foi um grande conselheiro e orientador das massas.

Trouxe para o povo da cidade, que exerceu o sacerdócio e permaneceu por praticamente toda a sua vida, a visão da fé e do trabalho. E há esse reconhecimento em relação a isso. As oficinas se multiplicaram, as artes foram recebidas de braços abertos e o incentivo à geração de renda fez em menos de 100 anos a cidade prosperar e se tornar uma das mais importantes e desenvolvidas do Estado.

Desenvolvimento

A distância da Capital do Estado, 560 quilômetros, não tem impedido o desenvolvimento e a transformação atual. O número de fiéis, como afirma o prefeito da cidade, Manoel Santana, é crescente. A cada ano vê-se a necessidade de adequação dos espaços para receber os visitantes e devotos do Padre Cícero.

Vários projetos estruturantes são estudados para atender à demanda do turismo religioso e da peregrinação. A cidade tem atualmente cerca de 250 mil habitantes, no entanto, o crescimento da população flutuante, nas épocas de romarias, chega a triplicar.

O professor Daniel Walker, pesquisador da história de Juazeiro do Norte e do Padre Cícero, afirma que, com a chegada do Padre Cícero (em 11 de abril de1872), como capelão e graças a sua dinâmica atuação, já tão difundida nos livros que tratam de sua vida, o pequeno lugarejo sofreu profundas transformações até chegar ao estado em que se encontra hoje.

O pequeno povoado de casas simples, de taipa e palha, hoje tem ares de metrópole. As mudanças, em torno desse crescimento, tem feito com que a cidade assuma novo perfil de desenvolvimento, principalmente no setor imobiliário.

O professor Daniel descreve que, em 1909, um documento apresentado à Assembleia Legislativa do Ceará, em apoio ao pedido de autonomia municipal para Juazeiro, encontrado por Ralph della Cava nos arquivos do Colégio Salesiano, informa que antes de se tornar independente do Crato, o povoado de Juazeiro já se encontrava em acelerado ritmo de desenvolvimento. Ele destaca a ação do Padre Cícero como o principal impulsionador desse processo.

Desenvolvimento

Nessa época, Juazeiro já possuía uma farmácia, um médico residente, um jornal, várias instituições religiosas, como o Apostolado da Oração, fundado pelo Padre Cícero, um escritório de intercâmbio comercial com a Capital e uma instituição civil para cuidar do engrandecimento do lugar. "A zona rural de Juazeiro possuía 22 engenhos de açúcar empenhados na produção de rapadura e subprodutos alcoólicos e cerca de 60 locais equipados para preparar farinha de mandioca. Além do cultivo de arroz, feijão e milho, Juazeiro já se destacava na produção de borracha de maniçoba e algodão", afirma o professor.

Mas ele também destaca a importância do Padre Cícero no contexto econômico regional. Segundo Walker, foi o sacerdote quem introduziu a borracha no Cariri, na primeira década do Século XX. E graças ao seu empenho, o algodão, cuja cultura havia sido quase totalmente abandonada, reapareceu entre 1908 e 1911. Essas ações fortaleceram a imagem de Padre Cícero diante da comunidade, passando a respeitá-lo como uma das personalidades mais importantes na época.

Ele chegou a comprar uma máquina de beneficiamento de algodão, movida a vapor. A borracha e o algodão foram os principais responsáveis pelo intercâmbio econômico de Juazeiro com o comércio exportador das grandes casas comerciais da Capital cearense, especialmente com a firma francesa Boris Frères e a companhia brasileira de Adolfo Barroso.

Crescimento urbano

Mas o crescimento urbano do povoado foi ainda maior do que sua expansão agrícola. A população do povoado era de 15.050 habitantes. A zona urbana compreendia 22 ruas e duas praças públicas iluminadas a querosene. No setor de serviços havia duas padarias, três barbearias, duas farmácias, 15 alfaiatarias, 18 escolas particulares e duas públicas, uma tipografia, uma estação de telégrafo, uma agência de correios, um tabelião e uma repartição da Coletoria de Impostos do Estado.

Para o professor e pesquisador Daniel Walker, os reflexos do desenvolvimento do povoado estavam bem evidentes nos impostos arrecadados, principalmente, para o Crato. Por isso, o desejo de se tornar independente nasceu. Esta análise ele incluiu em um dos seus livros, sobre a "História da independência de Juazeiro". (ES)

SANTIDADE
Processo de reabilitação está pendente

Antônio Vicelmo
Repórter

Crato A mesma Igreja Católica que suspendeu as ordens sacerdotais do Padre Cícero, proibindo-o de ministrar os sacramentos e o ameaçou de excomunhão, reivindica agora a sua reabilitação. O bispo da Diocese do Crato, dom Fernando Pânico, aguarda uma resposta do Vaticano sobre o pedido de reabilitação eclesial do Padre Cícero. A documentação foi entregue na Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 31 de maio de 2006, a apedido do então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI.

São nove volumes de documentos, cartas e relatos preparados por uma comissão de mestres e doutores em Teologia, Sociologia, Filosofia e Estudiosos do tema. A solicitação, subscrita por 254 bispos, foi reiterada, no dia 17 de setembro, por ocasião da visita "ad límina" dos bispos do Nordeste ao Vaticano.

Processo

Os 22 bispos do Regional Nordeste 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), tendo à frente o arcebispo de Maceió, dom Antônio Muniz Fernandes, solicitaram celeridade no processo de reabilitação do Padre Cícero e canonização do Padre Ibiapina, outro sacerdote nordestino de Sobral, que está na relação dos eventuais santos. O Vaticano, no entanto, mantém-se em silêncio. A demora no julgamento reacende a polêmica em torno do nomeado "Cearense do Século". No último mês de junho, dom Fernando esteve no Vaticano. A única informação que ele trouxe sobre o julgamento do dossiê foi de que os devotos do Padre Cícero tivessem paciência com o processo.

A paciência já dura quatro anos. "Roma é eterna. Aqui tudo é demorado". Com esta frase, o bispo da Diocese do Crato, dom Fernando Pânico, colocou uma ducha de água fria no entusiasmo do grupo de romeiros, entre os quais o então prefeito de Juazeiro, Raimundo Macedo; o presidente da Câmara Municipal, José de Amélia Junior; e alguns vigários da Diocese do Crato, , que acompanharam o bispo na entrega da documentação, solicitando, ao cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Josef William Levada, a reabilitação de Padre Cícero. Quatro anos depois da entrega do processo de reabilitação do Padre Cícero na Congregação para a Doutrina da Fé, o Vaticano mantém-se totalmente em silêncio.

A advertência de dom Fernando aconteceu no dia 31 de maio de 2006, no interior do ônibus que conduzia a comitiva de 52 romeiros do Cariri do hotel para o Vaticano.

Os mais entusiasmados como o prefeito Raimundo Macedo, que atravessou a Praça de São Pedro com uma caixa de documentos na cabeça em direção ao antigo Santo Oficio, esperavam voltar ao Brasil com uma resposta positiva sobre a reabilitação do Padre Cícero.

Fique por dentro
Biografia

Cícero Romão Batista nasceu em 1844 na antiga Vila Real do Crato e chegou a Juazeiro em 1872, dando início ao sacerdócio junto à população pobre de sertanejos. Teve importante atuação tanto no sentido de aconselhamento espiritual. O messianismo passou a fazer parte de sua vida em 1891, quando a hóstia ficou vermelha na boca da beata Maria Madalena, fazendo com que o povo considerasse o fato como um milagre. A partir de então desenvolveu-se grande campanha contra o padre movida pela Igreja católica. Em 1898 foi chamado à Roma para dar explicações sobre o milagre do sangramento da hóstia na boa da beata Maria Araújo. Mesmo com a rejeição do milagre, a imagem de Padre Cícero é mantida viva.


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