Equinocultura

“Nordestino” conquista novos criadores no CE

01:30 · 29.11.2011
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No cariri, têm oito exemplares de animais que conseguiram registros genealógicos conferidos pela Associação Equestre de Preservação e Criação do Cavalo Nordestino
No cariri, têm oito exemplares de animais que conseguiram registros genealógicos conferidos pela Associação Equestre de Preservação e Criação do Cavalo Nordestino ( YAÇANÃ NEPONUCENA )

Conhecido também como “pé duro”, o “Nordestino” apresenta excelente resistência para região Semiárida

Crato. A criação do cavalo Nordestino está em expansão na região do Cariri. A raça foi introduzida no Brasil por Portugal, ainda durante as primeiras importações de equinos que chegaram ao País. Há registros do ano de 1534, na Vila de São Vicente; 1535 em Pernambuco; e em 1540 na Bahia, por incentivo de Ana Pimentel, esposa de Martins Afonso de Sousa, comandante da primeira expedição colonizadora de Portugal ao Brasil. Atendeu pedido de Duarte Coelho, primeiro donatário da capitania de Pernambuco.

Há mais de 400 anos presente em solo do Nordeste brasileiro, o animal auxiliou no processo de interiorização da região, servindo de montaria e principal meio de transporte. Seu lombo foi ferramenta fundamental no desenvolvimento dos Estados na região.

O cavalo Nordestino é originário, principalmente, da raça Bérbere ou Barbo, da localidade de Marrocos, no Norte da África, e também das raças Garrano e Someia, de Portugal, e Marismenhõ, na Espanha. Todas raças consideradas tronco, uma vez que delas descendem as demais raças. O “Nordestino”, mais conhecido como “pé duro”, tem em suas características a extrema rusticidade e pouca exigência de água e de alimentação, devido serem adaptados a regiões semidesérticas.

Os animais conseguem trabalhar com excelência e sem a necessidade de ferraduras ou qualquer outra proteção na Caatinga brasileira, onde nenhum outro equino se sobressai.

Lampião

Historicamente, o animal desta raça foi utilizado para montaria de vaqueiros e coronéis, bem como de personalidades importantes da história nacional, como é o caso de Lampião, famoso cangaceiro que aterrorizou o Sertão Nordestino. A raça é a única que se presta à árdua missão de pega de boi no mato, atividade muito frequente nesta região, e que deu origem ao esporte da vaquejada.

As características do casco dos exemplares da raça são de uma dureza sem procedentes. Na região do Cariri, após aproximadamente 30 anos dos últimos registros de animais da raça, há oito indivíduos que conseguiram os registros genealógicos, conferidos pela Associação Equestre de Preservação e Criação do Cavalo Nordestino. Os criadores da região já estão pleiteando a criação de uma associação estadual de criadores do Cavalo

Nordestino. A instituição, quando instalada, irá agrupar pessoas que pretendem preservar e selecionar os melhores atributos da raça. A previsão é que, em 2012, a Associação já esteja em plena atuação. Com a iniciativa, os criadores irão valorizar a raça, que é tipicamente brasileira, e conservar os padrões de pureza racial da mesma.

A intenção dos criadores, na região do Cariri, é retirar os animais do risco de extinção e, consequentemente, desenvolver novas criações, e estimular atividades equestres, tipo baliza, tambor e prado com os indivíduos da progênie, além de aumentar ainda mais o gosto pelas tradicionais cavalgadas e vaquejadas e também a pega de boi, esportes que resgatam a história do vaqueiro nordestino.

A criação dos animais da raça torna-se extremamente atraente devido ao baixo custo de aquisição e manutenção. Os animais consomem pouca forragem, não são exigentes com relação à quantidade da mesma e se adequam a qualquer tipo de pastagem. Em caso de suplementação alimentar, o criador gasta, em média, apenas R$ 30 por semana.

Os concentrados podem ser à base de milho e um pouco de soja, o que, para o animal, significam um luxo. Em comparação com outras raças, que geralmente são muito dependentes de rações comerciais, a criação do cavalo Nordestino é muito mais vantajosa.

O criador Nertan Nicodemos acredita que, apesar dos atributos, a raça ainda não está recebendo a valorização adequada. “Como o homem brasileiro gosta muito de modismos e do que é exótico, a raça do cavalo Nordestino não tem a real valorização que deveria ter por todo o trabalho que prestou ao desenvolvimento do nosso País”, reclama o criador.

Atualmente, existe uma Associação Nacional de Criadores do Cavalo Nordestino instalada em Recife, sendo a primeira instituição do gênero no Brasil, e outra com sede em Juazeiro, no Estado da Bahia.

Para manter a pureza racial e identificar possíveis miscigenações com outras raças, hoje existem pesquisadores fazendo o mapeamento genético do cavalo Nordestino. Exemplos de sucesso na preservação de raças ocorreram no Rio Grande do Sul com a raça Crioulo, na região do Pantanal Mato-grossense, com a raça Pantaneira, e em Minas Gerais, com a raça Manga Larga, agora exportada para diversos países do mundo.

Registro

8 Animais de criadores da região do Cariri conseguiram registros genealógicos conferidos pela Associação Equestre de Preservação e Criação do Cavalo Nordestino

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Preservação genealógica
Registros feitos no Cariri são iniciativa pioneira

Número de indivíduos da raça deverá crescer com a instalação do Instituto dos Criadores Preservacionistas

A iniciativa pioneira dos criadores da região do Cariri em registrar os animais está concretizando o início dos trabalhos de conservação do cavalo Nordestino. Após a instauração do Instituto dos Criadores Preservacionistas do Cariri, que será uma instituição de agregação de valores aos animais da raça - onde os criadores poderão participar de intercâmbios com outros Estados, para a transferência e troca de experiências e tecnologias relacionadas à genética animal - o número de indivíduos da raça deverá crescer.

Alguns órgãos como o Instituto Nacional do Semiárido (Insa), sediado no Estado da Paraíba, e Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Humanos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen) já demonstraram interesse em preservar a raça, congelando sêmen dos reprodutores.

Em cooperação com outras instituições, a exemplo da Universidade Federal Rural de Pernambuco, estão sendo realizados trabalhos na área dos marcadores moleculares para o estudo das diversidades genéticas da espécie. O Insa, atualmente, está realizando um trabalho de aproximação com os criadores da raça, no intuito de desenvolver uma melhor preservação.

Conservação

De acordo com a pesquisadora bolsista do Insa, Patricy de Andrade Salles, a permanência da existência da raça depende da ação dos criadores. Ela reconhece a importância do trabalho que está sendo realizado na luta contra a extinção do cavalo Nordestino, principalmente na região do Cariri.
“Eu falo que a conservação dos nossos animais não seria possível sem a iniciativa dos criadores. A conservação da raça parte deles”, disse.

Apesar de haver uma população equina impossível de ser contabilizada e relativamente grande, existe apenas a recente Associação Equestre e de Preservação do Cavalo Nordestino (AEPCN), que atualmente está conferindo o registro genealógico. Em um ano, a instituição registrou que existem apenas 16 exemplares de cavalos nordestinos que atendem aos padrões genealógicos da raça. Mas o dado não é oficial, pois, o controle zootécnico dos animais é feito junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária. Outra instituição que atuou desde 1974 a 1990 no amparo à raça foi a Associação Nacional de Criadores do Cavalo Nordestino, em Recife, porém, o órgão está sendo reformado.

Segundo o técnico em agropecuária, Luiz Kleber Soares Machado, a luta pela preservação, valorização e resgate desta raça se arrasta há 10 anos. Tudo o que as associações e instituições ligadas a estudos e criação da raça querem é salvar o cavalo Nordestino da extinção e conservar o patrimônio genético deste tipo nativo. Para o técnico, será um desafio encontrar os padrões perfeitos dos animais da raça. “São muitas décadas de seleção animal para encontrar a homozigose. Estamos começando um trabalho com base nas características fenotípicas.
Será um desafio selecionar animais com uma raça que se encontra em completo e extremo abandono”, afirma.
Os animais desta raça são multifuncionais e têm facilidade de habitar terrenos espinhosos e pedregosos sem sequer apresentar cansaço, os cavalos da raça são capazes de percorrer até 70 quilômetros diários. Além da docilidade nata, os cavalos Nordestinos detêm uma inteligência que cativa os seus criadores. Suas
características comportamentais são a sobriedade, rigidez de músculos, rusticidade, que fazem do animal um herói adequado às intempéries. Já as físicas são definidas pelo porte médio, com 1,30 metros de altura bem proporcionado, leve, musculatura definida e forte, cabeça pequena larga na frente, ganachas afastadas, perfil retilíneo a subconvexo, pescoço de comprimento médio, piramidal e bem implantado.

Yaçanã Neponucena
Repórter

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