PORTOS NO CEARÁ

Navios traziam artigos de luxo e novidades da Europa

23:05 · 26.06.2010
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Com os lucros obtidos dos produtos da terra, a elite do Interior dotou o sertão de arquitetura e artigos europeus

Fortaleza
O intenso movimento comercial nas cidades portuárias e que faziam parte da rota comercial do Ceará fez com que elas ganhassem feições singulares no sertão. O livro "Caravelas, Jangadas e Navios" fala que muitas dessas cidades do Interior contavam com estrutura muitas vezes comparada a de cidades europeias, segundo a descrição de viajantes estrangeiros. Em 1925, mesmo já não sendo tão economicamente importante como outrora, Aracati já possuía luxos como luz elétrica. Seu casario era dotado de elegantes palacetes e imponentes edifícios públicos, tudo por conta do comércio intensivo que se dava por ali. Cidades como Icó e Sobral se configuravam como polos culturais, com a presença de teatros muito antes da construção do Theatro José de Alencar, na Capital.

Em Sobral, parte dos artigos de luxo que chegavam pelo Porto de Camocim estão preservados no Museu Dom José, considerado o quinto mais importante do País em arte sacra e decorativa. O acervo, de mais de 30 mil peças, é composto por objetos raros e opulentos. São porcelanas e cristais da Boêmia, Baccarat e Limoges, além de louças da Companhia das Índias Ocidentais, mobiliário francês, pianos, prataria e outros objetos que marcam um tempo em que a cidade chegava a rivalizar com Fortaleza em termos de importância econômica.

Tradições importadas

Diretora do Museu Dom José, a historiadora Giovana Mont´Alverne explica que, já no século XVIII, Sobral era um ponto importante e estratégico para a economia cearense. A proximidade do Rio Acaraú e das serras da Meruoca e da Ibiapaba permitiram o estabelecimento de fazendas de gado, além de ser uma rota de rebanhos vindos do Piauí e do Maranhão. "Em 1750 há o registro de 105 fazendas na região, que mandavam a carne seca e as couramas de carroça, inicialmente para um pequeno porto que havia no Acaraú. De lá, recebia-se principalmente tecidos e louças mais simples, até pelo risco de quebra no traslado por estradas carroçáveis".

No século XIX, este trânsito de mercadorias passa a acontecer por meio do Porto do Camocim, favorecida principalmente pela estrada de ferro que passaria a ligar as duas cidades. "A partir da ligação com o porto, que permitia uma independência comercial em relação a Fortaleza, Sobral começa a despontar como polo econômico e também cultural. As famílias tradicionais da cidade passam a consumir produtos e adotar modos e valores europeus, principalmente da França".

A historiadora registra, por exemplo, um anúncio do jornal "O Sobralense", de 24 de setembro de 1880, onde se anuncia que a loja nº 1 de Ernesto Deocleciano e Cialdini, localizada na Praça do Comércio (hoje Praça Dr. José Sabóia), traz para os consumidores artigos como gravatas de seda pura, luvas de pelica e cortes de cambraia bordada, tudo de acordo com a última moda europeia. "Descobri o registro de uma noiva, Mafisa Mont´Alverne, que em 1906 mandou vir de Paris todo o seu enxoval, o vestido, os sapatos, até mesmo os grampos para prender a grinalda na cabeça".

A arte sacra atualmente em exposição no Museu Dom José também é destaque, com peças coletadas das igrejas e de oratórios particulares, como imagens de santos, paramentos litúrgicos de ouro e prata.

Francês e inglês

A presença de revistas e livros estrangeiros também é significativa nas bibliotecas e gabinetes de leitura particulares. Nas festas, as elites se banqueteavam com salmão, lagosta, azeite doce, vinho do Porto e até caviar russo. Segundo Giovana Mont´Alverne, os mais abastados mandavam os filhos estudarem na Europa, e na volta eles continuavam a mandar trazer os produtos estrangeiros. "Saber francês era obrigatório entre as famílias ricas na virada do século XIX. Com a Segunda Guerra, a língua inglesa passou a ser valorizada na cidade", ressalta.

A arquitetura da cidade também guarda os vestígios dessa época de fausto. No Teatro São João, o segundo mais antigo do Ceará, óperas italianas e companhias estrangeiras subiam ao palco, inaugurado em 1880. Construções em "art déco" dos anos 1920 reforçam a influência francesa junto à elite.

Na segunda metade do século XX, o declínio foi inevitável. "A estrada de ferro foi desativada em 1977, o que fez com que Camocim praticamente parasse no tempo. Sobraram estes artigos, que foram coletados por dom José Tupinambá da Frota, bispo de Sobral, para compor o acervo do Museu". (KV)

LUTA DE CLASSES
Trabalhadores do porto e da estrada de ferro, uni-vos!

Camocim foi a primeira cidade do Interior a ter um comitê do PCB, por conta da forte militância proletária na cidade

Fortaleza Na primeira metade do século XX, Camocim era conhecida pela alcunha de Cidade Vermelha. A formação de uma forte e organizada força proletária para trabalhar tanto no Porto de Camocim quanto na linha férrea que ligava a cidade à Sobral fez com que Camocim fosse o primeiro município do Interior cearense a possuir um comitê do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1927.

A militância comunista dos portuários e ferroviários de Camocim, além de seus movimentos de luta, festa e reivindicação, foram tema do livro "Cidade Vermelha: A Militância Comunista nos Espaços do Trabalho", do historiador camocinense Carlos Augusto Pereira dos Santos. "Os portos brasileiros eram importantes redutos de militância comunista e anarquista. Nessa época, os trabalhadores já contavam com vários sindicatos e associações em Camocim, além das organizações de caráter religioso, filantrópico e recreativo", aponta.

Um exemplo da força dessa militância foi o movimento contrário à retirada das oficinas de trens e transferência de funcionários de Camocim, em 1950.

Diante da pressão para desativar a Estrada de Ferro de Sobral, a população e os operários da ferrovia obstruíram cerca de 600 metros do leito da ferrovia, impedindo a entrada e saída dos trens. Em apoio aos ferroviários, os trabalhadores do Porto de Camocim cruzaram os braços durante 100 dias. Foi preciso a intervenção do então governador, Faustino de Albuquerque, e do Ministério da Viação para que o movimento cessasse. "Com o tempo, no entanto, a desativação foi inevitável".

A partir de entrevistas e pesquisas de documentação, o historiador descobriu, por exemplo, a forte militância de Pedro Teixeira de Oliveira, mais conhecido como Pedro Rufino, comunista e um dos principais líderes dos movimentos de reivindicação. Em 1947, ele chegou a ser eleito vereador pelo Partido Republicano, já que o PCB estava na clandestinidade.

"Junto com outros companheiros, Pedro Rufino fazia uma intensa mobilização na cidade. Chegaram mesmo a editar um jornal na cidade, chamado ´O Operário´", aponta o historiador, que hoje é professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). O movimento, é claro, era mal visto pelos patrões, que procuravam denegrir essas associações. "Havia também um forte apoio da Diocese de Sobral para combater o movimento operário na região, que por conta da ligação com a esquerda dizia-se que era coisa do Demônio". (KV)

MAIS INFORMAÇÕES
Museu Dom José
Avenida Dom José, 878, Centro
(85) 3611.3525
Sobral-CE

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