Museu resgata cangaço - Regional - Diário do Nordeste

Virgulino Lampião

Museu resgata cangaço

05.06.2008

Serra Talhada. Localizada no sertão do Pajeú, o município ainda não conseguiu assimilar a imagem histórica de Lampião. A idéia de erguer uma estátua do filho famoso da antiga Vila Bela, na entrada da cidade, não resistiu aos preconceitos que ainda hoje são alimentados por famílias que foram vítimas do cangaço. Nem mesmo a morte do tenente Davi Jurubeba, que fez parte das volantes que combateram Lampião, reanimou as autoridades a construir a estátua do lendário cangaceiro, comandante das caatingas na década de 30, que foi considerado herói popular durante plebiscito realizado em 1991 em sua terra natal.

A única referência sobre Lampião é o Museu do Cangaço, administrado pela Fundação Cabras de Lampião, uma Organização Não Governamental (ONG) que luta praticamente sozinha para preservar a memória do “rei do cangaço”. “Falta apoio do poder público”, reclama o presidente da Fundação, Anildomá Willams. Ele diz que a ONG está “empunhando a bandeira lampiônica” praticamente sozinha. “Buscamos tentar convencer as autoridades de que a história é mais importante do que os preconceitos que ainda perduram em determinados setores da comunidade”, afirma.

O bancário aposentado e professor universitário de Administração, Manoel Ivan Pedroza, adverte que Serra Talhada e os municípios do Vale do Pajeú estão deixando de explorar o potencial turístico da região. Segundo explica, é o chamado Turismo Sertanejo, uma forma de lazer fundamentada na paisagem natural, no patrimônio cultural e no desenvolvimento social das regiões interioranas do Brasil.

Este turismo, conforme Manoel, tem como principal objetivo promover a compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo os aspectos naturais, socioeconômicos, culturais e éticos.

“Imagine o sistema de vida da família Ferreira neste fim de mundo, onde falta tudo, até água para beber”, raciocina o professor universitário, lembrando que a exploração da imagem de Lampião resultará na valorização da identidade cultural regional e na melhoria das condições de vida da comunidade local.

O Museu funciona na casa paroquial, cedida pelo vigário, que mora na parte de cima. Ali estão arquivadas mais de 200 fotos sobre o cangaço, armas e livros. No palco-auditório são exibidos filmes e encenações.

A Fundação Cultural Cabras de Lampião mantém também oficinas de artesanatos com o objetivo de oferecer emprego e renda para a juventude da cidade e divulgar a história de Virgulino Ferreira.

Primeiro chefe

Este ano, será inaugurado o Espaço Sinhô Pereira, que foi primeiro chefe de Lampião. Trata-se de um espaço dentro do Museu do Cangaço destinado exclusivamente à história do homem que comandou Lampião. Fotografias, matérias de jornais, entrevistas, livros, documentos pessoais, certidão de nascimento e óbito, além de roupas e objetos que foram doados pela família do velho cangaceiro nordestino.

Sebastião Pereira, mais conhecido como Sinhô Pereira, descendia do coronel Andrelino Pereira da Silva, o Barão de Pajeú. Era alfabetizado e trabalhava no campo. Motivos familiares levaram-no a ingressar no cangaço, tendo recebido a insígnia de comandante de tropa. Pressionado politicamente e perseguido por forças policiais, viajou para Goiás e Minas Gerais, onde obteve o título de cidadão mineiro.

Ao deixar o cangaço, no ano de 1922, Sinhô Pereira entregou sua tropa para o comando de Virgulino Ferreira da Silva, que mais tarde recebeu a alcunha de Lampião.

Passagem das Pedras

A solidariedade veio de fora para o resgate dessa memória sertaneja. Fascinado com a história de Lampião, o empresário carioca Carlos Eduardo Gomes visitou o sertão de Pernambuco e comprou o Sítio Passagem das Pedras, a 42km de Serra Talhada, onde nasceu Lampião.

A administração do Sítio Passagem das Pedras ficou sob a responsabilidade da Fundação Cultural Cabras de Lampião, coordenada por Anildomá, que se define como o mais apaixonado dos lampiônicos. O acordo foi fechado quando o empresário carioca passou um contrato de comodato, por mais 10 anos, à fundação. De acordo com Anildomá Souza, esta é a oportunidade para projetar Serra Talhada como o “Berço de Lampião” e a “Capital do Xaxado”. (AV)

O que eles pensam

História deve superar o preconceito

"Falta apoio do poder público nos eventos. Estamos empunhando a bandeira lampiônica praticamente sozinhos, tentando convencer as autoridades de que a história é mais importante do que os preconceitos que ainda perduram em determinados setores da comunidade."

Anildomá Willans de Souza
Presidente da Fundação Cultural Cabras de Lampião

"A cidade de Serra Talhada está deixando de explorar um grande potencial turístico se não reconhecer a figura emblemática de Lampião. É o Turismo Sertanejo uma forma de lazer fundamentada na paisagem natural, no patrimônio cultural e no desenvolvimento social das regiões interioranas do Brasil."

Manoel Ivan Pedrosa
Bancário aposentado

BANDITISMO

Padre Cícero intimou Virgulino

Serra Talhada. Em 1922, Sinhô Pereira, o primeiro chefe de Lampião, deixou o cangaço. Virgulino Ferreira assumiu a liderança do bando, passando a praticar ações de banditismo nos quatro anos seguintes, atuando nos Estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Em 1926, refugiou-se no Ceará e recebeu uma intimação do Padre Cícero. Compareceu a sua presença, recebeu um sermão por seus crimes e ainda a proposta de combater a Coluna Prestes que, naquela época, se encontrava pelo Nordeste.

Em troca, Lampião receberia anistia e a patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, como se chamavam as tropas recrutadas para combater os revolucionários. O capitão Virgulino e seu bando partiram à caça de Prestes, mas ao chegar em Pernambuco, foi perseguido pela Polícia e descobriu que nem a anistia nem a patente tinham valor oficial. Voltou, então, ao banditismo.

Em 1927, encorajado pela própria fama, tentou invadir uma cidade maior do que as habituais: Mossoró, no Rio Grande do Norte. A população, porém, se uniu e rechaçou os cangaceiros. No ano seguinte, Lampião incluiu a Bahia no roteiro do cangaço.

Em fins de 1930 ou começo de 1931, escondido na fazenda de um coiteiro — nome dado a quem acolhia os cangaceiros — conheceu Maria Déia Nenén, a mulher de um sapateiro, que se apaixonou por ele e com ele fugiu, ingressando no bando. A mulher de Lampião ficou conhecida como Maria Bonita e, a partir daí, várias outras mulheres se integraram ao bando.

Um pouco pela ambigüidade da vida dos cangaceiros — que às vezes atuavam como justiceiros, auxiliando os pobres — um pouco por contarem com o auxílio de coronéis a quem prestavam serviços, um pouco pela incompetência das autoridades locais, bem como pelo descaso do governo federal, a vida de crimes do bando de Lampião prosseguiu por mais seis anos.

Ao final, o bando foi cercado na fazenda de Angicos, em Sergipe, onde estavam acampados. Foram pegos de surpresa e muitos não conseguiram escapar. Entre eles Lampião e Maria Bonita. Os cangaceiros foram decapitados e suas cabeças ficaram expostas no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, até o ano de 1968.

A morte do cangaceiro foi às 4 horas da madrugada de 28 de julho de 1938, quando foi efetuada uma emboscada, que não durou mais de 20 minutos. Do ataque, 40 cangaceiros conseguiram fugir, escapando da morte que não poupou as principais lideranças. (AV)


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