Motociclistas vivem o sonho de liberdade - Regional - Diário do Nordeste

CARIRI

Motociclistas vivem o sonho de liberdade

16.08.2008

Crato. O sonho de liberdade perseguido pelo homem não é à toa. A vida é um cotidiano tomado por compromissos que se atropelam. Ou, como diz o poeta Paulo Mendes Campos, um desencontro de frustrações em combate. Horários marcados, trabalho estressante, cada um lutando do jeito que pode para garantir a sobrevivência. Na porta do banco, o mendigo suplica uma esmola.

Meninos, em idade escolar, com flanelas na mão, enchem as ruas de miséria. As imagens vão, aos poucos, poluindo a imaginação, consumindo a paciência, desequilibrando o emocional, deixando todos fatigados, mal humorados e infelizes. “Diante dessa realidade, a moto é a única saída”, diz o motociclista Romualdo Moreira Camargo, um militar reformado que fez da moto a sua companheira inseparável.

Camargo dá a receita para o fim de semana: “Encarar a estrada, abrir o ferrolho da liberdade e sair por aí em cima de uma moto. Sozinho ou em grupo, não importa. O que importa é fugir do hospício urbano em que vivemos, nos mantendo em uma camisa de força”.

“Em cima da moto, ouvindo o ronco da máquina em busca do infinito, nós nos sentimos livres para voar. As imagens de concreto poluídas pela fumaça, são substituídas por uma paisagem verde natural das matas, rios e cachoeiras”. O comentário é do comerciante Antônio de Pádua Feitosa.

Para ele, “ser motociclista é, sobretudo, um estado de espírito. Ninguém define a emoção única de deslizar no asfalto, num vôo rasante, com o vento batendo na cara, sentido o cheiro de terra molhada e o calor do Sol causticante”.

Colecionador

Aos 77 anos, o empresário cratense Geraldo Emídio de Lima tem uma história de vida ligada a motocicletas. Tudo começou em 1953, quando ele comprou a primeira moto, uma Saroléia 350, que pertenceu a Manelito Parente. No decorrer dos 55 anos de motociclismo, inúmeras motocicletas foram adquiridas, como, BMW, BSA, Douglas, Honda, Indian, James, Jawa, Kawasaki, MZ, Norton, Royal Enfield, Suzuki, Triumph, Vespa, Velosolex, Victoria, Yamaha e Zundapp.

No entanto, Geraldo nunca revelou de qual delas gostou mais. Quando alguém insiste, ele afirma calmamente: “Pra mim, tendo motor e duas rodas, é motocicleta. Gosto de todas elas, indistintamente”.

Ele já participou de todos os grupos de motociclistas do Cariri. Andou o Nordeste todo em duas rodas. A maioria dos amigos morreu. Outros abandonaram as motos no meio da estrada da vida. Os motoclubes se acabaram, mas Geraldo se manteve como “cavaleiro da esperança” empunhando, ao lado do companheiro Camargo, a bandeira do motociclismo.

Pilotar uma moto é um eterno renovar . “No meio dos jovens motociclistas, sinto-me como um adolescente. É uma forma de esquecer que sou velho, tenho 77 anos”. Junto com os velhos, a conversa é a mesma. “Eu já fui isso, fui aquilo. A moto me faz aproximar da juventude que tem outra visão de vida”, analisa.

O envolvimento entre homem e máquina parece trazer a impressão de uma relação fria, sem sentimentos. Mas isso foge da impressão habitual quando a emoção do ser humano prevalece sobre a máquina, fazendo com que a motocicleta se torne aliada de aventuras inesquecíveis e emoções marcantes para os integrantes.

Mais informações:
Geraldo Emídio de Lima
Rua Leandro Bezerra, 310, localizada no município do Crato, região do Cariri
(88) 3521.0995

ANTÔNIO VICELMO
Repórter

VALE DO JAGUARIBE
Amigos são movidos pela fé

Limoeiro do Norte. É tudo uma questão do homem que se adapta ao seu meio. Os terrenos acidentados, com grandes declives, secos e pedregosos das estradas carroçáveis, a mais comum no Interior do Estado, são um convite ao galope. Já fazia o vaqueiro para guiar a boiada, agora fazem os aventureiros em “cavalos motorizados” sertão a dentro. Depois da carroça, a moto é o principal transporte usado por muitos sertanejos rurais para trabalhar, arrancar adrenalina.

Aventura, desde sempre. Mas a fé foi uma feliz e peculiar novidade para as trilhas de moto dos amigos Albecir, Leodércio, Alber, Serrano, Toinho, Leudo, Renan, Israel, Messias e Diego. Todos motoqueiros do município de Jaguaruana. Desbravando trilhas de moto no alto de uma serra, encontraram uma imagem de Jesus Cristo numa cruz de madeira de mais de cinco metros, fincada no chão do lugar desde 1942.

Como era de difícil acesso, o local caiu no esquecimento da população. A imagem tem 1,20 metros de comprimento e foi achada sem um dos braços, devidamente reposto em restauração por iniciativa dos próprios motoqueiros.

Quando soube do achado, no dia 16 de setembro de 2007, uma multidão apareceu para ver de perto a cruz histórica. Em novembro, mais de 1.500 motoqueiros subiram os 235 metros da Serra Danta para devolver a estátua ao local de origem na primeira moto-romaria do Vale do Jaguaribe. E a trilha de motos pelo sertão agora é o caminho de peregrinação e novo roteiro da fé.

Se o faroeste norte-americano criou “Os indomáveis”, o leste caboclo do Vale do Jaguaribe criou os “Imbatíveis da Areia”, grupo de motoqueiros do município de Russas que, apesar das adversidades de cada qual com seus ofícios, reúnem-se todos os fins de semana para fazer trilhas na Caatinga. Nada mal para quem tem um quintal que “pede” para ser constantemente desbravado. Para fazer rally é logo ali.

“Sempre que pode, a gente se encontra. Claro que uns saem, outros entram, todos trabalham e é difícil conciliar os afazeres com os momentos de lazer. Eu mesmo estou no momento sem minha moto, pois decidi investir no meu próprio negócio (Adesiva – marketing e comunicação visual)”, afirma Hudson, que não pretende parar com o motociclismo. Ele quer repassar o gosto para o filho Yuri, de um ano e meio.

Conforme Hudson Pascoal, um dos integrantes dos “Imbatíveis”, o grupo sempre participa de campeonatos estaduais, rallys. Inclusive, no ano passado, o grupo formado em Russas apresentou o maior número de inscritos no Enduro de Motovelocidade, no ano passado, com 97 motoqueiros. Também, apaixonados por moto e aventura em Tabuleiro do Norte, onde foi fundado o Motoclube Trilhas do Vale, com 25 sócios de carteirinha. Oficializaram a paixão pelo motociclismo.

O clube é dirigido pelo aventureiro Uiberlan Guerreiro. Juntos, eles participam de campeonatos nacionais, estaduais, e todo ano fazem trilhas para o Rio Grande do Norte, até a cidade de Pau-dos-Ferros, na fronteira com o Estado do Ceará. A trilha acontece religiosamente em março.

Mais informações:
Trilhas do Vale - (88) 8832.7554
Moto-Romaria, de Jaguaruana (88) 9964.9705
´Imbatíveis da Areia´ - Russas (88) 9211.0111

MELQUÍADES JÚNIOR
Colaborador

ANÁLISE
Integrantes são cidadãos responsáveis

Antônio Vicelmo
avicelmo@ig.com.br

Embalados no eterno sonho de liberdade, motociclistas de todas as idades ganham a estrada. A imagem, às vezes agressivas e distorcida, não representa a realidade. Por trás daquela roupa de couro, casaco com símbolos agressivos e adornos de metais, está o homem, um pai de família, dando o seu grito de liberdade contra as amarras da sociedade.

Engana-se quem pensa que esses “libertos sociais”, praticantes do motociclismo, sejam transgressores da ordem social. Muito pelo contrário, os grupos de motociclistas seguem estatuto e código de ética. Na paixão pela moto apregoam a filosofia do respeito à raça humana e às normas de segurança no trânsito.

Os Carcarás do Cariri, por exemplo, tinham como código de honra o respeito às normas de segurança, o cuidado com a manutenção e zelo da máquina e, sobretudo, o respeito às pessoas, seus credos, sua história, sua cultura.

Os integrantes dos motos clubes são profissionais e senhores responsáveis, compromissados com família e profissão. São executivos, profissionais liberais, juízes, advogados, jornalistas, comerciantes... que, mesmo podendo comprar verdadeiras máquinas de quatro rodas, não abrem mão da emoção de sair por aí, sem destino, no comando de uma máquina.




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