escassez

Moradores precisam comprar 'três águas'

00:00 · 25.08.2018

Feiticeiro. A escassez e a perda da qualidade da água no Açude Feiticeiro obrigam os moradores a comprarem o recurso hídrico para finalidades distintas. "Aqui pagamos por três águas - uma mineral, para consumo, outra de carro-pipa para banho, cozinhar os alimentos, e a da rede de água, do SAAE, que só serve para limpeza da casa", esclarece o líder comunitário José Miranda. Essa é a explicação que mais se ouve entre a população: a história das três águas.

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A maioria dos moradores é de baixa renda e tem dificuldades de comprar água mineral para o consumo. A queixa é geral. "Para beber, estou comprando de um carro-pipa que traz de Icó e de Jaguaribe", explicou a dona de casa Francisca Souza. "O sacrifício é grande, mas a gente não pode ficar com sede", complementa a dona de casa.

Queda na renda

Sem água no Açude Feiticeiro, não há produção de pescado e nem irrigação das plantações. O resultado direto é a queda na receita da localidade. Falta trabalho e renda para muitas famílias. O dinheiro que circula no distrito é oriundo de salário de servidores do Município, aposentados e pensionistas.

A lojista, Elivamar Vieira, proprietária de uma loja de eletrodomésticos, lamenta a queda nas vendas. "Caiu mais de 50%", pontuou. "Não há produção e renda porque o açude secou. Daí não circula dinheiro".

A mesma reclamação tem a dona de restaurante Vicença Pereira. "As pessoas estão sem dinheiro, meu marido é pescador, mas acabou o peixe no açude", contou. "Ele tentou pescar em um açude particular, mas o preço que comprava não compensa para revenda".

Desolação

Às margens do Açude Feiticeiro, encontramos, desolado, o pescador, Manoel Alves Felipe, 68. "Desde criança que trabalho aqui. Comecei com meu pai. Agente pescava e vendia no mercado local e em Orós, mas agora acabou tudo", contou.

As canoas estão paradas na beira d'água. A presença de urubus é uma demonstração de que o peixe está morrendo. "Aqui, tinha muitos pescadores, mas foram embora ou estão em casa, parados", disse Felipe. "Dá uma tristeza enorme ver uma situação dessas pela qual estamos passando", lamentou.

Variação de volume

Da segunda metade da década de 1990 até 2003, o açude secou e o distrito foi abastecido por carro-pipa que levava água de Jaguaribe. Em 2004, o reservatório encheu e ficou próximo da cota de sangria. Após 2011 vieram os anos de escassez, dificuldades de abastecimento e impossibilidade de irrigação.

Na zona rural, o problema de escassez de água para abastecimento das famílias vem se agravando. A suspensão da distribuição do recurso hídrico por meio da Operação Pipa deixou os moradores em situação mais crítica.

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"A renda maior do distrito vinha do açude, do pescado, que acabou totalmente. Essa falta de produção reflete diretamente no comércio, com as quedas nas vendas"

Elivamar Vieira
Lojista

"O açude está secando, não tem mais peixe e o nosso trabalho acabou. Aqui, só se Deus tiver piedade de nós. No passado, era bom com muita fartura"

Manoel Felipe
Pescador

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