Índice aponta pobreza hídrica - Regional - Diário do Nordeste

SEMI-ÁRIDO

Índice aponta pobreza hídrica

19.11.2007

A dificuldade de água no sertão cearense obriga as famílias a ficarem na dependência do abastecimento de emergência feito por carros-pipas
A dificuldade de água no sertão cearense obriga as famílias a ficarem na dependência do abastecimento de emergência feito por carros-pipas
Alex Pimentel

Tese de doutorado aplica, pela primeira vez no Brasil, o Índice de Pobreza Hídrica, com base na Bacia do Salgado

Fortaleza. A fim de ajudar na luta contra a escassez de água, particularmente quando se relaciona às pessoas pobres, ferramentas são necessárias para permitir aos governos e às agências de desenvolvimento monitorar o progresso, buscando-se verificar o que está sendo conseguido e alertá-los sobre onde estão os problemas. Esse foi o principal objetivo do estudo que deu origem à tese de doutorado da pesquisadora Renata Mendes Luna, doutora em Recursos Hídricos pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Intitulada “Desenvolvimento do Índice de Pobreza Hídrica (IPH) para o Semi-árido Brasileiro”, a tese aponta as principais dificuldades que causam a pobreza de água no semi-árido e impedem o sucesso das políticas atuais no setor.

“O monitoramento do progresso das ações no setor hídrico necessita uma metodologia interdisciplinar, que envolva tanto avaliações quantitativas como qualitativas”, explica Renata, “por isso trabalho com o IPH, o Índice de Pobreza Hídrica, que integra tanto as ciências sociais, quanto as ciências biofísicas, no estudo sobre a água”, afirma.

O coordenador do Programa de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca na América do Sul, do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), professor Gertjan Beekman, que participou da banca examinadora da tese de Renata, explica que a importância do estudo se dá pelo fato de o IPH abordar diferentes indicadores, como o meio ambiente, o social e o econômico, aspecto encontrado em poucos índices.

“Já que o índice aborda e analisa todas essas questões, ele é um forte instrumento para a criação de políticas públicas e de projetos de combate às conseqüências devastadores da seca e de melhorias da qualidade de vida da população”, garante. “Além disso é interessante que os resultados da aplicação do índice a regiões ou municípios podem ser mostrados em gráficos, tabelas e até mapas, o que faz com que as autoridades, responsáveis pela tomada de decisões relevantes às questões da água, tenham uma visão bem clara de onde o problema é mais crítico, o que facilita o planejamento e a orientação das políticas públicas”, complementa Beekman.

Há três anos, a pesquisadora teve contato com o IICA, durante um encontro sobre a desertificação, no Estado. Após esse contato, surgiu a idéia de fazer a pesquisa.

O orientador do estudo, professor José Nilson Campos, explica que o IPH é a tradução do termo original, em inglês, “Water Poverty Index”. Criada pela pesquisadora inglesa Caroline A. Sullivan, o índice permite a comparação e ajuda na criação de políticas públicas relacionadas aos recursos hídricos, detectando pontos vulneráveis da questão do manejo da água na sociedade e acompanhando as políticas implantadas.

O estudo realizado por Renata consiste na segunda aplicação do índice no continente latino-americano — um estudo anterior já foi realizado na Argentina, pela pesquisadora Elena Maria Abraham. Contudo, trata-se da primeira aplicação do IPH no Brasil. “O ponto de referência da pesquisa foi a região do Cariri, ou a Bacia Hidrográfica do Salgado, por abrigar diversas realidades e biomas: há o sertão, com água de açudes, e a chapada, com águas subterrâneas”, salienta a pesquisadora Renata.

SAIBA MAIS

Origem

Índice de Pobreza Hídrica (IPH) é a tradução do termo original, em inglês, ´Water Poverty Index´. O índice procura integrar dados das ciências sociais e biofísicas, com o uso de indicadores sobre a disponibilidade e o acesso à água. Foi criado pela pesquisadora inglesa Caroline A. Sullivan.

Indicadores

Há água disponível quando existe o recurso no local ou nas proximidades, ou seja, quando há oferta de água. Há acesso de água quando o recurso realmente chega às pessoas e quando se trata de água de boa qualidade, ou seja, próprio para consumo humano.

AN COPPENS
Colaboradora

FALTA D´ÁGUA - Pesquisa analisa implicações sociais

Fortaleza. Ao analisar a relação entre acesso à água e a qualidade de vida, a pesquisadora Renata Mendes identificou várias “dimensões da pobreza” ou conseqüências da falta de água e saneamento para a população. “Quando não há água, surgem problemas de saúde como desnutrição, em decorrência de diarréia, doenças relacionadas à água e saneamento, o que leva a uma menor expectativa de vida”, frisa. “O impacto sobre a assistência escolar, especialmente nas meninas, é forte também, por doenças, falta de salubridade e higiene ou, simplesmente, por ter de transportar água”, continua.

Segundo observou, já que a tarefa de buscar água quase sempre é executada por crianças e mulheres, as crianças perdem aula na escola e as mulheres são impedidas de ajudar no rendimento econômico das famílias. “Além disso, os gastos com a água são elevados, em proporção ao orçamento total da família e o tempo gasto na procura pelo recurso hídrico. Os problemas de saúde causados pela má qualidade ou falta de água fazem com que haja menor potencial de geração de renda. Tendo em vista o calor e o clima seco, as pessoas acabam precisando mais ainda da preciosa água”, conclui.

Um estudo realizado na África, pelo pesquisador português Naim Haie, ligado à Universidade do Minho, analisou o comportamento das mulheres na busca por água. De acordo com a pesquisa, depois de o governo ter implantado cisternas perto das comunidades, as mulheres continuavam a ir buscar água no lugar mais distante, como se fosse uma tradição, um costume. Naim Haie detectou o porquê desse comportamento. A busca do recurso significa, para essas mulheres, “uma troca de novidades, uma conversa agradável, uma companhia boa, uma diversão que elas não queriam perder”.

De acordo com Renata Mendes, há comunidades no Ceará onde o mesmo aspecto social continua forte, como em alguns distritos do município de Jardim. Porém, o aspecto não é tão forte quanto na África. “Aqui, as pessoas têm suas televisões com parabólicas, mesmo na casinha mais pobre, e há os forrós onde as pessoas se encontram e conversam. A busca de água não é necessariamente um momento de encontro”, explica ela.

Soluções

A solução para todas essas dificuldades, segundo avalia a pesquisadora, seria transformar toda a água disponível em recurso acessível. Algumas soluções, apontadas por Renata, são a educação ambiental e criação da própria consciência da preservação da qualidade do solo e da água. A responsabilidade do Estado na manutenção dos poços e cisternas ajudaria na distribuição da água de forma gratuita.

Está sendo articulado um encontro entre a pesquisadora argentina, Elena Maria Abraham, que aplicou pela primeira vez o Índice de Pobreza Hídrica (IPH) na América Latina, Renata Mendes e a criadora do IPH, Caroline Sullivan.

Ampliação do projeto

Professor Gertjan Beekman, do IICA, conta que Sullivan está analisando a possibilidade de articular, junto à União Européia, recursos para financiar a ampliação do projeto de aplicação do índice IPH em outros países e regiões. Além disso, Renata Mendes levará os resultados e a metodologia do seu estudo para a Cogerh e autoridades do Estado, para contribuir com a inclusão de políticas públicas relacionadas ao manejo de água no Ceará.

A banca examinadora da pesquisa, composta por Antônio Rocha Magalhães, do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), e professor Beekman, do IICA, sugeriu à universidade que ampliasse o estudo para todas as bacias hidrográficas do Estado e do Nordeste, como forma de contribuir para a construção de uma visão mais ampla sobre a questão da água.

CONSUMO HUMANO - Disponibilidade e acesso ao recurso

Fortaleza. “Para se entender a análise feita, é importante conhecer a diferença entre disponibilidade e acesso de água”, ressalta a pesquisadora Renata Mendes. “Há disponibilidade de água quando existe uma oferta do recurso hídrico no local ou nas proximidades. Consideramos que há o acesso ao recurso quando a água realmente chega às pessoas e quando se trata do líquido de boa qualidade, ou seja, próprio para consumo”, complementa.

“Quer dizer que o fato de ter água disponível em algum lugar não quer dizer que ela é própria para consumo. Há diversas situações que fazem com que a água se torne imprópria para o consumo humano. Vi casos, em vários municípios cearenses, de lixões, esgoto de hospital e até cemitérios, ao lado ou acima de açudes, o que deve comprometer a qualidade da água”, garante Renata.

“Também observei casos, como um no município de Jardim, no Cariri, mas há vários outros, em que pessoas gerenciam obras do Estado, como cisternas e poços, cobrando dinheiro à população para o uso da água, que deveria ser pública”, conta ela.

“Na ausência do poder do Estado para a manutenção da cisterna, alguém assume essa responsabilidade, mas cobra dinheiro à população para isso. O certo seria o Estado contratar alguém para fazer esse trabalho, assim a água se tornaria, realmente, pública. Porque esse custo, muitas vezes, sai alto para as pessoas pobres”.

Mais críticos

Esses casos comprometem o acesso à água no Estado, na avaliação de Renata. Segundo ela, o gerente da Bacia Hidrográfico do Salgado, José Yarley de Brito, da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), está fazendo um estudo desses casos.

De acordo com a pesquisadora, os municípios com a situação mais crítica de falta de acesso à água, na região do Cariri, são Jardim, Umari, Abaiara e Caririaçu. Os melhores indicadores de IPH são encontradas nas cidades grandes da área pesquisada, como Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, onde há maior acesso à água encanada e saneamento.

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