História de amor marca fabricação de licores - Regional - Diario do Nordeste

SERRA DA IBIAPABA

História de amor marca fabricação de licores

31.01.2009

A Casa dos Licores, mantida há mais de 50 anos por Alfredo Carneiro e Teresinha Mapurunga, é destaque em Viçosa

Viçosa do Ceará. “Lá no alto da serra/ Um anjo tirava do pife/ Belos trinados sonoros/ Que a passarada calava/ Até que uma princesa/ Veio com o anjo casar/ Foi tanto amor de verdade/ Que a serra virou/ Um templo de paz”. Os versos da valsa “A Lenda do Anjo do Pife” contam a história de amor entre um príncipe, Alfredo Carneiro de Miranda, hoje com 93 anos, e uma princesa, Teresinha Mapurunga, 75. O principado é o município de Viçosa do Ceará, na Região da Ibiapaba, a 348km de Fortaleza. O castelo onde eles fundaram toda essa história de amor é a Casa dos Licores, onde, há mais de 50 anos, são recebidos patrícios e plebeus de outras paragens para degustações de licores, doces, biscoitos e geléias. Mais do que isso, para minutos de prosa que fazem qualquer visitante querer se acostar para sempre por ali.

Não é a riqueza nem a pertença a qualquer família real, mas o amor que sentem um pelo outro e pelos sete filhos que justifica os títulos de “príncipe” e “princesa” concedidos a seu Alfredo e dona Teresinha, retribuição de uma das filhas, a música Inês Mapurunga, quando das bodas de ouro do casal, seis anos atrás. Por isso, a primogênita desta união, a professora Tereza Cristina, 54, continua, junto com a mãe, a tradição de receber os visitantes na Casa dos Licores, visto que, da prole, é a única que mora em Viçosa.

Mas, como nem sempre a filha pode estar presente, dona Teresinha recebe a todos com o maior carinho, como se fossem netos. Foi o que aconteceu quando a equipe de reportagem chegou ao local, numa tarde chuvosa do janeiro serrano. Mesmo sofrendo de um Mal de Parkisson, que lhe dificulta o andar há oito anos, a dona da casa explicou a origem de doces e licores, contou histórias, mostrou álbuns, fotos e a bodega nos fundos da casa, onde a história começou pelas mãos de seu Alfredo, dois anos antes de eles casarem.

Qualquer visitante pode gozar da mesma receptividade, no horário de visitação das 8 às 17 horas, mas, com equipes menores, é mais fácil manter a tradição. Dona Teresinha lembra da vez que chegou um ônibus com 55 turistas, às 7 horas. Apesar de manter a tradição de acordar às 5 horas para fazer os doces e dormir por volta das 23 horas, decorando embalagens, a senhora Mapurunga passou a tarefa para a filha. “É porque perde a característica de contar a história”, explica Teresa Cristina. “Aqui não é um simples ponto comercial”, completa.

Os grupos de curiosos seguem chegando e são sempre muito bem-vindos. Lá, eles podem degustar (e comprar) 58 tipos de licores, nove tipos de cachaças — incluindo a de 1955, feita pelo próprio Alfredo Miranda —, 20 variedades de geléias, 28 tipos de doces, que podem vir cremosos, em massa ou em compotas, além de petas, sequilhos, bolinhos de goma, roscas e bulins. Os preços podem variar de R$ 1,00 a R$ 50,00, de acordo com o produto e o tamanho. “Não dá para juntar dinheiro, mas dá para viver”, diz a professora.

Aumento das vendas

Os períodos de alta estação, como as férias, favorecem as vendas, que aumentam em cerca de 60%, segundo Teresa Cristina, graças ao maior fluxo turístico na região. Uma breve pausa neste começo de fevereiro, e as vendas chegam a dobrar durante o Carnaval, a Semana Santa e os tradicionais festivais de Viçosa, como o Mel, Chorinho e Cachaça, programado para abril próximo.

Para manter tudo isso funcionando, há uma equipe de, pelo menos, oito ajudantes fixos na Casa dos Licores — que também ajudam a cuidar de seu Alfredo e de dona Julita Nogueira Mapuranga, 100 anos, mãe de Teresinha. Na chácara de Teresa Cristina, as iguarias são cozinhadas em forno de barro por cerca de oito a dez pessoas.

Enquanto a residência segue como ponto turístico da cidade, Teresa Cristina revela um desejo que, se tornado realidade, deve atrair ainda mais visitantes. Em outro imóvel da família, 32 tonéis servem de depósito para 3.500 litros de cachaça. O objetivo é criar a “Adega Alfredo Miranda”. “A gente pretende um dia abrir esse lugar ao público”, revela.

Acordes do pife

Além de iguarias sólidas e líquidas, na Casa dos Licores, é possível comprar os pífanos, ou pifes, fabricados por seu Alfredo. As seqüelas de três Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e do Mal de Alzheimer o impedem, há três anos, de acompanhar os visitantes e fazer os doces e licores. Mas não são obstáculo para que ele continue tocando seu pife com extrema perfeição, de forma a conquistar os ouvidos de qualquer um. Vez por outra, ele esquece algum acorde, mas basta dona Teresinha ou a filha cantarolarem um trecho para que ele sopre a melodia perfeita.

Quando está mais “enxerido”, Alfredo chega até a puxar Teresinha para uma valsa, ao que é logo rebatido por uma exclamação da esposa: “Que é isso, Alfredo?”. Nada que ela não tenha se acostumado a vida toda. À noite, o príncipe cansa de chamar a mulher para dormir. “Essa cama só tem graça com você, Teresinha”, declara-se. Tanto amor faz com que ela não tenha dúvidas de “um casamento feliz”. “Pelo modo de tratar, pelo carinho, tive uma vida de princesa”, confirma. Uma história registrada em prosas, lembranças e versos.

Mais informações:
Casa dos Licores
Rua Francisco Caldas da Silveira, 155 - Viçosa do Ceará
(88) 3632.1157
Visitas das 8h às 17h

ÍCARO JOATHAN
Repórter

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