Para defensores

'Faz parte da cultura do Nordeste'

Além do componente cultural, a modalidade também movimentaria a economia da região, inclusive na seca

00:00 · 15.07.2017 por Renato Sousa - Repórter

Fortaleza. Tradição secular do Nordeste. Entre os defensores da vaquejada ouvidos pelo Diário do Nordeste, esse é um dos argumentos mais recorrentes em defesa do esporte. "Temos vaquejadas acontecendo no Estado há mais de cem anos", declara Marcus Lima, criador de cavalos, competidor e vice-presidente da Associação Brasileira de Vaquejadas (Abvaq).

Ele afirma que o primeiro regulamento conhecido de uma vaquejada foi escrito ainda na década de 1950, pelo folclorista potiguar Câmara Cascudo, vencedor do prêmio Machado de Assis, oferecido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1956, e do prêmio Juca Pato, oferecido pela União Brasileira de Escritores (Ube), em 1977. Segundo o dirigente, a maioria das críticas ao esporte vem de pessoas que não têm a familiaridade com a modalidade. Para ele, a vaquejada é fruto das próprias peculiaridades sertanejas. "Ela faz parte do manejo do gado no sertão. Não existe como usar um laço no meio da Caatinga", diz.

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O argumento cultural também é abraçado pelo deputado estadual Danniel Oliveira (PMDB), um dos defensores da modalidade na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (AL-CE). "Não podemos deixar que a nossa cultura vire folclore. Temos que preservá-la", diz. Ele, assim como Lima, alega que a vaquejada possui uma longa história no Nordeste. "A vaquejada de Morada Nova tem mais de 70 anos. E há outras por aí com mais de cem", diz o peemedebista.

O parlamentar afirma que também não se pode deixar de lado o aspecto econômico. Segundo ele, mais de 720 mil empregos, diretos e indiretos, são gerados no Brasil pelo esporte, a maioria no Nordeste. "Estamos falando de um País com quase 14 milhões de desempregados. E essas pessoas vivem e sobrevivem da vaquejada", diz.

Lima concorda. Segundo ele, anualmente, o Nordeste movimenta mais de R$ 700 mi em razão do esporte. E tudo isso acontece enquanto a região passa pela pior seca do século. "Nós estamos atravessando quase cinco anos de seca, e a renda gerada pelo aluguel do boi para as vaquejadas, muitas vezes, é o que viabiliza o confinamento e a criação do animal", alega.

A cifra apresentada pelo dirigente é bem maior do que a apresentada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, relator da Ação Direta e Inconstitucionalidade (Adin) da regulamentação cearense da atividade. Segundo o voto do magistrado, a cifra seria de R$ 14 mi.

O cuidado com o boi que participa do esporte garantiria que, ao contrário do que pensam os adversários da modalidade, o animal de vaquejada tenha um tratamento melhor do que o comum. "Se você pegar um boi da vaquejada e o do sertão, você vai ver a diferença", diz o deputado.

O parlamentar admite que os maus-tratos aos animais que participavam dos eventos já foi prática comum. Entretanto, isso teria ficado no passado. "Hoje, é muito raro uma vaquejada em que os animais lesionem-se", diz. Na modalidade defendida por ele e pela Abvaq, precauções seriam tomadas para evitar que os animais saíssem feridos, como o uso de proteção para as caudas do boi e cobertura de esporas com esparadrapo, além de colchão de areia fofa e sem pedras com mais de 30cm para a derrubada do animal. "É o mesmo colchão onde cai o competidor", explica.

Marcus Lima afirma que o regulamento da Abvaq determina a presença de uma série de profissionais para garantir o bem-estar de bois e cavalos. Entre eles, o Juiz de Bem-Estar Animal, bem como o veterinário responsável técnico pelo evento. Ele anunciou, inclusive, que Fortaleza deve receber em agosto o primeiro curso de formação de responsável técnico de vaquejada, nos regulamentos da Abvaq.

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