Atividade artesanal

Família Victor mantém viva a antiga tradição de forjar ferro

Os produtos ganharam reconhecimento, e a marca tornou-se sinônimo de qualidade e de preferência regional

A atividade é repassada aos mais jovens e várias gerações da família tornaram-se ferreiros ( Fotos: Honório Barbosa )
00:00 · 06.01.2018 por Honório Barbosa - Colaborador

Cedro. A arte de forjar o ferro para a produção de ferramentas agrícolas e de outras peças metálicas é mantida por um núcleo familiar há mais de cem anos em oficinas rústicas instaladas na localidade de Lajedo, zona rural deste Município, na região Centro-Sul do Ceará, às margens da CE-153, trecho da Rodovia Padre Cícero.

A tradição dos ferreiros artesãos é preservada pela família Victor Correia Lima, que ganhou reconhecimento cearense. A marca de seus produtos é sinônimo de qualidade e de preferência regional.

Um dos ferreiros mais antigos, Francisco Victor de Lima (Netinho), 76, recebeu o reconhecimento do governo do Estado e o título de Mestre da Cultura, em 2010, por produzir, preservar e transmitir a cultura popular da arte de transformar de forma artesanal o aço em ferramentas de uso agrícola, na construção civil e em outras atividades produtivas.

"Eu fabrico foice, roçadeira, chibanca, machado, marretas, martelo, picareta, armador, peças para máquinas, forrageira, debulhador de milho e lâminas de corte de terra", fez questão de detalhar. "Faço um monte de coisas e eu adoro essa profissão de ferreiro com a qual criei minha família e nunca faltou trabalho".

Netinho é reconhecido entre os parentes como "o mestre dos mestres ferreiros" por sua capacidade de produzir peças e equipamentos diversos. "Aprendi com meu pai, que já aprendeu com o pai dele e isso vem dos nossos avós", contou. "A primeira peça que fiz foi 'prego' de moinho. Antigamente as pessoas moíam café, milho para fazer o pão, mas hoje tudo mudou".

O mais difícil, segundo Netinho, é fazer peças de máquina de debulhar milho, forrageira, mas o artífice enfrentou com paciência e inteligência o desafio e ganhou fama na região. "Já ensinei a arte a mais de 50 ferreiros", revelou. Aposentado, o Mestre da Cultura vê, diariamente, os sobrinhos e primos trabalhando duro na arte de transformar vergalhões de aço em ferramentas, mantendo a tradição familiar. "Diminuí o ritmo de trabalho, mas continuo fazendo minhas peças", revelou.

Origem

Os ferreiros do Lajedo tem origem com Victor Correia Lima, que chegou à localidade por volta de 1890, vindo de Juazeiro do Norte. No fim do século XIX, teria instalado a primeira oficina com forno a carvão, fole e bigorna (peça de aço onde a ferramenta aquecida é moldada sob pancadas intensas de marretas).

A história oral registra que o pioneiro teria aprendido a arte com ferreiros artesãos que já moravam e trabalhavam na terra que teria como maior liderança religiosa e política na primeira metade do século XX o Padre Cícero Romão Batista.

Os filhos de Victor Correia Lima deram continuidade à profissão do pai, em particular Gustavo, que permaneceu nas mãos dos netos e agora perpetua entre os bisnetos. Com o passar do tempo, houve redução no número de oficinas e de artífices, mas outros chegaram, aprenderam a arte e abriram oficinas.

Quem caminha pelas ruas de terra na localidade de Lajedo, ouve constantemente o batido dos ferros na bigorna. É o sinal de que as oficinas estão ativas, apesar das dificuldades. "Com esses anos todos de seca, as encomendas diminuíram", disse Francisco Victor de Lima, 66, o Chiquinho. "Estou esperando que chova logo para a gente começar a vender roçadeira e outras ferramentas".

Em média, cada ferreiro fabrica 15 peças por dia. Os mais idosos reclamam de dificuldades com a vista e foram obrigados a diminuir o ritmo de trabalho. Um deles, José Victor Sobrinho, 71, praticamente não enxerga mais por causa do avançado glaucoma. Os três filhos, Francisco Denys, 48; Júnior; e Paulo deram continuidade à profissão do pai. "Estou feliz, venci a vida com muitas dificuldades, passamos muitas precisões, trabalhei muito, mas deu tudo certo", contou Sobrinho.

A esposa de Sobrinho, servidora municipal aposentada Vicência de Oliveira Victor, não cansa de enaltecer a tradição da família na arte de ferreiro. "Tenho orgulho, no bom sentido, de ver todos trabalhando, fazendo as ferramentas, que são reconhecidas como as melhores do Nordeste", disse. "Nunca neguei as dificuldades que passamos, quando a seca deixava a casa da gente sem ter o que comer".

Curiosidades

O nome do patriarca, Vitor, transformou-se em sobrenome familiar e, com o passar do tempo, teve adicionada a consoante 'C' - Victor. Outra curiosidade é que, fora do âmbito familiar, só se pronuncia "Vitor", com tonicidade na última sílaba. Assim, são conhecidos popularmente na região como "Chico Vitor", "Zé Vitor".

Outro aspecto que chama a atenção é o costume de ocorrência de casamentos entre primos legítimos. Na geração anterior, três irmãos casaram com três irmãs, que eram parentes em primeiro grau. Mesmo com o passar do tempo, os jovens mantém essa tradição familiar. "Aqui tudo é uma família só", resume Vicência Victor.

Oficinas

No passado, as oficinas se limitavam a ter o forno a carvão, fole e a bigorna, além das marretas para moldar as peças de ferro e um esmeril rudimentar e manual. Os ferreiros trabalhavam com muita dificuldade. Para soldar uma peça, era preciso conhecer a arte de caldear, usar fogo, areia e aditivo para emendar partes da peça, como em um machado, e ter a habilidade de não ficar marcas da junção.

Hoje, as oficinas estão mais modernas, com energia elétrica e outras máquinas de solda, corte, furadeiras e esmeril. O que não mudou é que cada oficina continua basicamente com dois operários: o ajudante e o mestre ferreiro.

O serviço na bigorna é feito por dupla, que se reveza no bater da chapa maciça de aço superaquecida até ser moldada. O horário de trabalho segue o ritmo antigo: começa pela manhã bem cedo a partir das 5h e se estende até as 15h.

A família Victor mantém a tradição do uso do fole manual para ativar o forno a carvão e aumentar a chama, cujo fogo vai aquecer a chapa de ferro. Mas, aos poucos, já se começa a substituí-lo por ventoinha.

Há 20 anos havia cerca de 20 oficinas na localidade, mas hoje, em atividade, são apenas oito. "Surgiram outros ferreiros e as dificuldades de trabalho no campo, a agricultura praticamente parada com a seca, tudo isso, contribui para a queda das encomendas", observa Denys Marques Oliveira Victor.

O preço varia segundo tamanho e a peça entre R$ 15 e R$ 30. Cada ferramenta recebe a marca da família "Vitor" - referência e sinônimo de qualidade.

Existem os produtos industriais oriundos do Sudeste do País, mas a preferência dos trabalhadores e agricultores é por ferramentas artesanais. "O segredo está no tempo certo de aquecimento, no acabamento, no tempero do ferro, em ficar bem afiada e esmerilada", ensinou o mestre Netinho. "O trabalho precisa ser feito com gosto, por quem sabe de verdade".

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