ABATE DE ANIMAIS

Falta inspeção sanitária em carne de 90% do interior

13:19 · 21.10.2010
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Conselho Regional de Medicina Veterinária considera a situação degradante para animais e um risco para a saúde

Crateús.
Depois que o Caderno Regional publicou matéria mostrando a situação do consumo da chamada "carne de moita" pela população de Crateús, admitido pelas autoridades deste Município no dia 18 de setembro, o jornal recebeu diversas manifestações e opiniões de leitores relatando situações similares em outros municípios.

Os depoimentos comprovam as condições precárias da maioria dos matadouros públicos cearenses e, em muitos casos, a inexistência destes locais adequados para o abate de animais, vigilância e inspeção da carne. Em Crateús, nada mudou em relação às condições sanitárias. Com o matadouro público interditado há mais de dez anos, a população continua consumindo carne sem nenhuma inspeção sanitária. Após a divulgação da matéria, a gestão municipal buscou a instituição financeira para acelerar a liberação dos recursos para a construção do novo equipamento.

Generalizado

Se considerar a situação de todo o Estado, a realidade assusta, posto que a insegurança sanitária não é privilégio de Crateús. É real em praticamente todos os Municípios do Estado. "Com raríssimas exceções, a situação é similar em todo o Ceará", declarou o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-CE), José Maria dos Santos Filho.

De acordo com ele, o percentual de municípios que carece de condições adequadas com respeito ao abatedouro de animais e consumo de carne sem inspeção é muito alto e as condições de abate, degradantes. "Em 90% dos municípios do Estado, as condições são precárias, em muitos os animais são abatidos no chão, com urubus ao redor dos matadouros, entre outras cenas terríveis, as piores possíveis".

De acordo com o CRMV-CE, dos 184 municípios cearenses, 154 tem matadouros públicos. Destes, 149 encontram-se em funcionamento e cinco (Cedro, Limoeiro do Norte, Missão Velha, Pacujá e Santana do Cariri) foram interditados pelo Ministério Público Estadual, após vistoria do órgão.

Poucos, porém, funcionam em condições sanitárias adequadas e com profissionais técnicos treinados para realizar exames clínicos nos animais e inspecionar a carne abatida. "Não temos em quase todo o Estado matadouros com funcionamento adequado e nem com profissionais veterinários", revela José Filho.

Brejo Santo, Cruz, Juazeiro do Norte, Pedra Branca e Tianguá possuem equipamentos em boas condições, "embora ainda não atendam às condições do Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal", diz relatório do CRMV-CE. O presidente diz que o Conselho cobra das prefeituras a estrutura adequada e muitas vezes implementa multas. "Alguns estão tentando resolver a situação". E cita o abatedouro do Município de Pedra Branca como o melhor do Estado do Ceará. "Lá as autoridades se sensibilizaram e resolveram a situação".

O problema revela um grave problema de saúde pública, que merece atenção urgente por parte das autoridades. Com a maioria dos abatedouros em condições inadequadas de higiene e funcionamento, grande parte da população corre risco iminente de saúde, podendo ser acometida de doenças ao consumir carne não inspecionada.

Risco para saúde

Várias são as doenças veiculadas por alimentos de origem animal, tanto de origem parasitária (como cisticercose e toxoplasmose), como as de origem bacteriana (salmonelose e brucelose) e, ainda, as de origem viral (febre aftosa). Todas estas enfermidades podem advir das deficiências no controle sanitário dos animais destinados ao abate e na ausência dos sistemas de controle de qualidade.

E ainda há o sofrimento dos animais abatidos em condições degradantes, desumanas e as danosas consequências ao meio ambiente. São terríveis situações com as quais convive boa parte da população do interior do Estado.

De acordo com a médica veterinária Patrícia, Facó, soluções deveriam ser prioridade das autoridades municipais. Em uma época em que a humanidade discute alternativas de preservação e conservação do ambiente, realidades como essas são, no mínimo, controversas, para não dizer inadmissíveis.

"A questão de matadouros públicos é fundamental para a saúde da população, para evitar o sofrimento dos animais e prejuízos para o meio ambiente e a solução do problema é a prevenção. Então as autoridades devem ser sensibilizadas para agir e possibilitar condições adequadas nestes locais. O investimento nesta estrutura é alto para os municípios, mas o retorno em saúde é incalculável", disse a veterinária.

Degradação

"Em muitos locais os animais são abatidos no chão, com urubus ao redor, entre outras cenas terríveis"

José Maria dos Santos Filho
Presidente do CRMV-CE

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CRMV-CE
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Fortaleza-CE
(85) 3272.4886/2330

TRABALHO SUSPENSO

Juiz interdita matadouro de Cedro por falta de higiene

Cedro/ Sobral.
O juiz de Direito, Ricardo Alexandre da Silva Costa, titular da Vara Única da comarca desta cidade, distante 420km de Fortaleza, localizada na região Centro-Sul, determinou a interdição judicial do matadouro público municipal até que sejam sanadas irregularidades sanitárias. O magistrado julgou procedente o pedido de ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Estadual contra o Município de Cedro, em dezembro de 2008.

Os abates no matadouro foram suspensos em dezembro de 2008, por causa de um embargo administrativo realizado pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace). Quase dois anos depois, a questão se arrasta e a população continua consumindo carne de moita. O abate dos animais é feito de forma clandestina nos sítios e em fazendas próximas à cidade.

Caso já foi noticiado

O Diário do Nordeste acompanha o caso e já publicou várias reportagens sobre a precariedade do matadouro local e o consumo de carne de moita por parte da população. Em dezembro de 2008, a Semace constatou, a pedido do Ministério Público e após fiscalização, a falta de condições sanitárias mínimas de funcionamento da unidade. A ação civil pública foi proposta pelo promotor Leydomar Nunes Pereira, há quase dois anos, mas só agora foi julgada.

O magistrado assumiu a comarca em março passado e chegou a visitar o matadouro com técnicos da Prefeitura e da Semace. No mesmo dia, presidiu uma audiência na qual o Município chegou a se comprometer a adotar as soluções necessárias para o fim do embargo administrativo. Na sentença, o juiz Ricardo Costa foi enfático: "A mim, está clara uma má vontade imensa em resolver a questão, pois até o presente momento somente reformas mínimas e paliativas foram realizadas pela Prefeitura, sem a resolução completa do problema".

Em Massapê, o prédio com característica antiga e estilo de abandono, já denuncia o que se encontrará ao adentrar no Matadouro Público da cidade, uma instalação parcialmente deteriorada. Diariamente, os animais enfileirados chegados em caminhões, que param em frente do prédio, seguem direto para o corredor da morte. Lá dentro pessoas trabalhando sem nenhum equipamento de segurança ou higiene. Sem uniforme, luvas, toucas ou botas.

SILVANIA CLAUDINO
REPÓRTER

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