Empreendedorismo

Fábrica de alumínio se mantém ativa na zona rural

Apesar dos sucessivos arrochos econômicos, a empresa, de pequeno porte, segue em pleno funcionamento

A empresa não mantém estoque. Todos os utensílios são feitos sob encomenda ( Fotos: Marcelino Júnior )
00:00 · 20.01.2018 por Marcelino Júnior - Colaborador

Sobral. É do distrito de São José do Torto, a cerca de 37km da sede deste Município do Norte do Estado, que saem, semanalmente, diversas peças de alumínio expostas nas prateleiras de muitos supermercados cearenses, em especial, da capital, Fortaleza, e de alguns outros pontos do Brasil, como Piauí e Pará, por exemplo.

A pequena economia de São José do Torto, que se mantém ativa por meio da agricultura familiar, do contracheque vindo do funcionalismo público e do emprego na indústria calçadista, instalada em Sobral, também conta com a participação ativa de uma empresa familiar, fundada há 15 anos, que fez do ramo de alumínio fundido um meio de vida e empregabilidade para o pequeno distrito com pouco mais de 3 mil habitantes.

Início

A ideia original surgiu quando o casal proprietário da fábrica morava em Fortaleza e resolveu adquirir um torno para fabricar peças de cozinha utilizando o alumínio como matéria-prima. Inspirado pela indústria instalada na capital, o casal Joaquim Neto e Francisca Ribeiro Azevedo Aguiar, mais conhecida na região como Fransquinha do Torto, resolveu apostar num ramo diferente, já que tinha conhecimento adquirido no comércio.

Porém, ao voltarem para o distrito onde nasceram, os dois, que são primos de primeiro grau, mantiveram a máquina, por alguns anos, sem atividade, até que foi vendida para um amigo, como explica Fransquinha, bastante ativa à frente dos negócios.

"A pessoa que adquiriu a máquina foi instruída pelo meu marido a como utilizá-la, mas, com o tempo, ele nos chamou para sermos sócios. Depois, veio mais uma pessoa. Após alguns anos, compradas a parte dos dois, assumimos a empresa", relata a empresária, com aquela fagulha no olhar, de quem parece ter nascido para empreender.

Variedade

Com o apoio de familiares, nasceu a empresa Alumínio Sobral, tendo como atividade econômica a fabricação de artigos de metal para uso doméstico. Na lista, com 370 itens de modelos variados, constam conjuntos de panelas, cuscuzeiras, leiteiras, travessas, cafeteiras, formas de bolos e uma infinidade de outras peças que compõem os utilitários de um dos espaços de maior movimentação de uma casa: a cozinha, de onde pode sair um café quentinho, acompanhado de um bom papo, ou os mais simples e talvez elaborados pratos para receber uma visita.

A empresa, que hoje atua com 13 empregados, além de seis vendedores comissionados, em seus tempos áureos, já manteve uma folha de pagamento com 25 pessoas. Com as incertezas da economia brasileira, que tem oscilado ao longo dos últimos anos, essa realidade mudou, trazendo cortes. De acordo com Fransquinha, uma mulher de corpo franzino e de baixa estatura, dona de uma energia vibrante, que prende a atenção do interlocutor, os tempos ainda estão difíceis, mas o esforço de se manter no mercado tem persistido, indo além dos prejuízos causados com a demora na entrega do alumínio a ser transformado e da luta para se manter no mercado.

Crise

"Tivemos nosso auge em 2013. De lá para cá, tudo mudou. Eu não fechei as portas para não ver esse povo desempregado. Aqui, as pessoas chegam sem experiência nenhuma, muitas vezes em busca do primeiro emprego, e vão aprendendo aos poucos. Um vai ensinando o outro, com muita paciência", elogia e complementa, "como o mercado oscila muito, a empregabilidade também muda, com períodos de contratações e dispensas, infelizmente", lamenta a empresária, que circula com desenvoltura, por entre seus funcionários e um amontoado de peças embaladas e prontas para seguir viagem. A empresa não estoca utensílios, tudo é feito sob encomenda.

Fabricação

As peças, que chegam em forma de disco, com espessuras variadas, vêm de São Paulo. A empresa desenvolve três linhas de fabricação, que, dependendo da consistência da matéria-prima, no caso, o alumínio, resultarão em modelos simples, intermediários ou aqueles mais sofisticados. Após serem separadas, as unidades, já enumeradas, são levadas ao torno. O equipamento é centrado sobre um bloco, um molde de metal com a forma do utensílio a ser torneado.

A empresa trabalha com cinco dessas máquinas, onde o alumínio é transformado manualmente em peça para uso doméstico. Todo o processo consiste na formação do utilitário, seu lixamento interno e externo, a colocação de arrebites, aqueles pinos que dão sustentação às alças e cabos, e depois a etiquetagem. Só depois o novo utensílio é embalado e separado para ser entregue.

Emprego

Um dos responsáveis pela parte de polimento das peças é Francisco Aílton Portela, empregado há quatro anos, que, dependendo do tamanho do material, leva cerca de três segundos para deixá-lo brilhando. Antes de estar aqui, Aílton foi porteiro de uma empresa. "Eu gosto do que faço e não me vejo em outra função. É bom quando vejo cada peça saindo pronta para ser finalizada com os arrebites. Mas o melhor é ter um emprego garantido", comemora o empregado, ao lado do companheiro Fábio Aguiar, o mais novo do grupo, com 22 anos de idade e três meses de trabalho.

"Eu já perdi as contas de quantas peças já passaram pelas minhas mãos. Eu coloco os assessórios nos utensílios. Esse é o último passo para a embalagem, então, a atenção tem que ser constante", ensina o jovem, que se empenha em manter esse, que é seu primeiro emprego.

Enquete

O que é a empresa para você?

"Eu vim trabalhar aqui quatro anos depois que a fábrica começou. Naquela época, as coisas eram bem mais difíceis. Foram 11 anos dedicados a esse mesmo serviço de torneiro. Saí, mas voltei há cinco meses para a mesma função. Trabalho está difícil"

Francisco de Assis Lima. Torneiro

"Eu respeito muito a fábrica onde trabalho. Este foi meu primeiro emprego. Estou aqui há nove anos, fazendo todo tipo de peças de alumínio, panela, frigideira, forma de bolo. O trabalho é rápido e não requer força, mas um jeito que se pega com a prática"

José de Jesus Aguiar. Torneiro

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