´TUPUXUARA DELIRADAMUS´

Estudiosos alertam para contrabando de fósseis

00:56 · 15.10.2009
( )
A nova espécie de réptil voador do Ceará traz à tona, novamente, o problema da saída ilegal de fósseis do Cariri

Juazeiro do Norte. Os pterossauros do Cariri continuam sendo manchetes de descobertas científicas da Europa para o mundo. A tristeza maior para os pesquisadores brasileiros é a saída ilegal dos fósseis da região, que continua existindo, por rotas específicas e para atender um mercado interessado em grandes descobertas, como é o caso do Tupuxuara deliradamus, um pterossauro cujas asas podem ter medido 4,5 m de ponta a ponta e que sobrevoava a região de Santana do Cariri, há mais de 100 milhões de anos. O tráfico diminuiu, mas continua o contrabando para abastecer o mercado científico internacional e servir de isca para públicos dos maiores museus de história natural do mundo.

E esse é o grande problema, segundo o responsável pelo escritório regional, o geólogo do Departamento Nacional de Proteção Mineral (DNPM), Arthur Andrade, já que as pessoas que continuam levando os fósseis da região sabem o que estão fazendo para quem repassam. Essa é uma realidade comum na Chapada do Araripe.

A rede internacional deve ser abastecida por três rotas no Cariri: Porteiras, Nova Olinda e Juazeiro do Norte. E é pela terra do Padre Cícero que deve ter saído o Tupuxuara descrito por Mark Witton, um doutorando orientado por David Martill, um pesquisador famoso por publicar material da região sem autorização de ninguém, e que recentemente editou livro sobre a formação dos pterossauros.

Segundo uma fonte que não quis se identificar, a rede funciona de alguém, provavelmente um estrangeiro alemão que se encontra na região, muito bem influenciado entre os moradores das áreas de minas de calcário, que oferece um bom dinheiro por peças "diferentes". Os leigos não se apercebem do incalculável valor científico do material que sai da região, pelas próprias rodoviárias ou estradas carroçáveis, até chegar a São Paulo. Há suspeita de um paleontólogo cearense, que não reside no Estado, que esteja envolvido com a rede internacional. Mas Arthur alerta para o tráfico no País, principalmente dos fósseis que vão para o Rio de Janeiro e São Paulo. "É ruim, mas dos males o menor. Pelo menos está no Brasil".

Há cerca de três anos, os pesquisadores da região tiveram notícia da saída de uma ave fossilizada, por Nova Olinda. O material raríssimo, que inclui ossos e penas, deveria ser a fonte de uma das grandes estudiosas da Paleontologia, Juliana Sayão, para descobrir a origem do pássaro, numa dimensão maior. Por enquanto, ela fica só com as penas. O fóssil se encontra no Museu de História Natural da Universidade de Tóquio. O atravessador recebeu US$ 10 mil pelo material, de valor incalculável e que, mais tarde, com a descrição para o mundo científico, o museu cobrará entradas para quem quiser contemplar a ave do Cariri.

O pterossauro, o terceiro descrito, é uma das várias espécies que mais cedo ou mais tarde será de conhecimento da mídia. Para Arthur, não se tem ideia do que já saiu da região e, afirma ele, deve ter material fora do País, nas diversas instituições de pesquisa, para se estudar por mais de dez anos. Esse tipo de publicação, infelizmente, acaba sendo comum por conta das saídas ilegais. Segundo Arthur, há uma esperança para pôr fim a essa "dilapidação" do patrimônio fossilífero no Cariri, que é a união das entidades, como a Universidade Regional do Cariri (Urca), a Polícia Federal, o DNPM, a sociedade, com um trabalho de conscientização, e o próprio Geopark. "Se não houver um trabalho efetivo dessas instituições, não só uma fiscalização, mas a conscientização, vai continuar saindo material da região", lamenta.

E tem desculpa de sobra para quem obtém de algum modo os fósseis na região. A legislação acaba sendo, em muitos momentos, um artifício a favor, como foi o caso de crânio de pterossauro, à venda na internet. O espécime foi extraído da formação Santana, um conjunto de rochas sedimentares na Chapada do Araripe. Foi anunciado pelo site americano PaleoDirect, de Altamonte Springs (Flórida), no valor de R$ 1,2 milhão.

O considerado fóssil espetacular, à venda em 2008, saiu para os Estados Unidos por vias misteriosas. O pedido de averiguação do caso para uma provável repatriação, por meio do Ministério das Relações Exteriores, até hoje está parado. O decreto lei que proíbe o contrabando de fósseis no Brasil é de 1942 e o ´proprietário´ do crânio afirma que adquiriu antes da década de quarenta.

Na recente Paleo 2009, no Cariri, a maioria dos estudiosos lamentou a reincidência dos casos de contrabando, segundo a Ph.D. em Paleontologia e Geologia Histórica, Maria Helena Hessel, há quatro anos estudando dos fósseis da região e há seis instalada no Cariri. Ela coordenou o evento. Helena está iniciando uma campanha de fortalecimento do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri.

CONSCIENTIZAÇÃO

"Se não houver trabalho efetivo, com conscientização, vai continuar saindo material da região"
Arthur Andrade
Geólogo do DNPM

"Se o fóssil bonito e raro ficar no Araripe, o turista vem e a renda fica na região do Cariri"
Maria Helena Hessel
Paleontóloga

Mais informações
Escritório do DNPM
Praça da Sé, 105, Centro
Crato
(88) 3521.1619

ELIZÂNGELA SANTOS
REPÓRTER

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.