Degradação ambiental compromete Rio Jaguaribe - Regional - Diário do Nordeste

CENTRO-SUL

Degradação ambiental compromete Rio Jaguaribe

17.08.2009

A ação predatória das sociedades humanas está prejudicando a sobrevivência dos rios no Interior do Estado

Iguatu Esta é a maior cidade da região Centro-Sul, com quase 100 mil habitantes. Imaginem a produção diária de águas fétidas provenientes de esgotos domésticos, comerciais e de fossas, com gorduras, detergentes, fezes, urinas e restos de alimentos. Tudo isso escorre por canaletas ou por infiltração no subsolo e são despejados diretamente no leito do Rio Jaguaribe, na área urbana. A degradação de um dos mais importantes cursos de água do Ceará é uma evidente falta de políticas públicas voltadas para a preservação do meio ambiente.

A situação vem se agravando a cada ano e faltam ações concretas para reverter o quadro de devastação. A poluição é crescente e constante. Além de Iguatu, o Rio Jaguaribe recebe esgoto de dezenas de cidades, e a destruição de suas matas ciliares avançam em ritmo contínuo. Perenizado por águas de açudes na bacia do Alto Jaguaribe, há milhares de pessoas que vivem da produção agrícola e pecuária cuja fonte é o rio, daí a sua importância e a necessidade de preservação.

Nesta cidade, há dois grandes esgotos que despejam lama diretamente no leito do rio. É uma forte agressão. No fim da década de 1950, em defesa da construção do Açude Orós, o poeta e jornalista Demócrito Rocha comparou o Rio Jaguaribe a "uma artéria aberta, por onde escorre o sangue do Ceará". Certamente, não imaginava o escritor que quatro décadas depois esse curso de água estaria sofrendo forte degradação.

O cantor e compositor Luiz Gonzaga, na música "Xote ecológico", deixou um alerta para todos nós: "Não posso mais respirar, não posso mais nadar/ A terra está morrendo, não dá mais pra plantar". Pode-se acrescentar: "o rio está morrendo e o peixe a poluição comeu/ o verde das matas desapareceu e em vez de água, a lama escorreu".

O chefe do escritório regional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de Iguatu, Fábio Bandeira, observa que "infelizmente, as áreas de preservação são afetadas e a situação se agrava a cada ano". Bandeira mostra que "os caçambeiros insistem em extrair areia das barreiras do rio, das áreas de preservação permanente, e os donos de terra destroem a mata ciliar para ampliar a área de plantio".

Quem percorre as margens do Jaguaribe, no município de Iguatu, observa com facilidade o avanço da destruição das barreiras. A cada ano, ocorre alargamento do leito e a destruição de áreas agrícolas. Até a década de 1970, o Rio Jaguaribe ainda guardava vegetação nativa, as barreiras eram protegidas pelas matas ciliares e o índice de poluição era reduzido.

"Hoje, o leito do rio está muito largo, as barreiras caíram e a destruição é crescente", diz o agricultor, Francisco Oliveira, da localidade de Cardoso. "É preciso que se faça alguma coisa". A observação de Oliveira reflete a necessidade de ações concretas. Entretanto, faltam trabalho e projetos visando à revitalização do rio.

Além da destruição de suas matas ciliares, o Rio Jaguaribe recebe diariamente despejos de esgotos de dezenas de cidades e centenas de vilas e distritos rurais. Os dejetos seguem para o Açude Orós, o segundo maior do Ceará. "É preciso construir sistemas de saneamento, tratamento de esgoto nos municípios", observa o agrônomo e ambientalista, Paulo Maciel.

Algumas escolas, instituições públicas e Organizações Não-Governamentais (ONGs) realizam campanhas educativas em datas relacionadas ao meio ambiente. A maioria das ações é voltada para os estudantes, mas os verdadeiros e atuais agressores não são conscientizados sobre o problema. Além disso, os projetos são limitados e ficam apenas no plano das discussões sobre a degradação ambiental, sem ação concreta.

Iguatu, pólo regional do Centro-Sul, é uma das grandes poluidoras do Jaguaribe. Os esgotos das residências e do setor comercial são despejados diretamente no leito do rio. O chefe do Ibama também chama a atenção para o Açude Trussu, que é responsável pelo abastecimento da cidade. "As pessoas precisam se conscientizar sobre a gravidade da destruição dos recursos naturais", observa Fábio Bandeira. "É preciso ações concretas para preservar rios, açudes e lagoas".

O secretário de Agricultura de Iguatu, Valdeci Ferreira, lembra que já participou de várias reuniões promovidas pela Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) e por outras instituições públicas, nas quais o problema da poluição e destruição de matas ciliares e de barreiras naturais do Rio Jaguaribe foram debatidas. "Infelizmente as idéias não saíram do papel, as metas não foram cumpridas. Essa questão demanda grandes projetos e recursos públicos, além de decisão e vontade política em realizar".

Numa faixa de 20km no curso do Rio Jaguaribe, é visível a destruição de suas barreiras naturais, da mata ciliar, do avanço do leito do rio com seus bancos de areia sobre áreas antes agricultáveis. O agricultor José Alves de Macedo, conhecido por Zé da Barra, relembra da época em que o Jaguaribe era cheio de mata, o leito era profundo e mais estreito. "A cada enchente desde 1974 que o rio avança e destrói antigas roças que se transformam em bancos de areia", observa. "Do Barro Alto às Cajazeiras isso está acontecendo a cada ano". A destruição da mata ciliar favorece o alargamento do rio e a invasão de terras agricultáveis.

RIO SALGADO
Moradores são afetados por poluição responsabilidade

Icó. A cada cheia do Rio Salgado fica a evidência de que a ação do homem destruindo a natureza traz conseqüências drásticas para os moradores de cidades e vilas ribeirinhas. Neste ano, não foi diferente.

No município de Icó, as águas das fortes chuvas que banharam o sertão cearense invadiram mais áreas agricultáveis, destruíram barreiras naturais e penetraram com força nas ruas da cidade. Esse quadro é resultado direto da falta das matas ciliares, derrubadas ao longo das duas últimas décadas.

O Rio Salgado sofre e pede socorro ante a destruição sistemática das matas ciliares, do depósito de entulho e de lixo, nas margens e no leito. Para agravar a situação, a falta de sistemas de saneamento básico nas vilas rurais e nas cidades faz com que, diariamente, sejam despejadas águas fétidas de esgotos residenciais e comerciais. Na margem esquerda do Salgado, essa situação é mais evidente. Esse é um problema antigo, mas que se repete com freqüência, pois não há fiscalização por parte dos órgãos competentes. A julgar pela falta de um projeto de proteção ao meio ambiente, essa situação que se agrava com o crescimento das cidades.

Após a cheia do ano passado, o nível das águas voltou ao leito normal e, com as margens livres, novas agressões ao Rio Salgado voltaram a ser registradas. "A gente sempre vê o pessoal jogando entulho e alguns trazem lixo", contou a lavadeira Socorro Rodrigues. "O rio está cada vez mais aterrado", disse uma outra lavadeira, Francisca Custódio, que há 15 anos lava roupa na margem do Salgado, três vezes por semana.

"Na enchente, muita coisa foi espalhada e o lixo desceu até o Rio Jaguaribe", diz o agricultor Antônio Lima. Em alguns pontos, a situação se agrava em face da presença de embalagens de agrotóxicos, da retirada de areia e do corte da mata ciliar.

Em áreas como José Barreto e a prainha do Rio Salgado, já recomeçaram a colocação de entulho, quase dentro da água. "Falta fiscalização dos órgãos competentes. Dessa forma, a prática delituosa contra o rio continua", observa o empresário Getúlio Oliveira.

As agressões atingem com maior incidência a margem direita a partir da Ponte Piquet Carneiro, na área urbana, até o encontro do Salgado com o Jaguaribe, na zona rural. O agricultor Manoel Pereira diz que há três décadas, o rio era mais estreito. "A cada enchente fica mais largo, invadindo as roças. Quando eu era jovem, o rio era diferente. A gente podia tomar banho porque a água era limpa e não tinha esse negócio de poluição, esgoto, mas agora não dá mais".

Donos de caçambas que prestam serviço aos moradores recolhendo entulhos e lojistas que jogam lixo são agressores diretos e permanentes do Rio Salgado, pois depositam nas margens material impróprio. As sucessivas administrações municipais não enfrentam o problema e nem buscam parcerias com outras instituições. Na prática, o que se observa é a falta de projeto de combate à poluição, de recuperação de áreas degradadas e de preservação das margens e do leito do Salgado.

O agrônomo e ambientalista Paulo Ferreira Maciel vê com preocupação a degradação que atinge os rios no Interior cearense. "Esse é um quadro generalizado", disse. "Infelizmente o agricultor e o morador da cidade agridem a natureza, destroem os seus recursos naturais, poluem rios e lagoas". Triste, mas consciente sobre as conseqüências da poluição e morte lenta dos rios, Maciel defende a aplicação de políticas públicas, com urgência, para a recuperação das matas ciliares, implantação de saneamento básico e construção de unidades de tratamento de esgoto, evitando o despejo de águas fétidas e de esgoto nos rios.

Mais informações
Secretaria de Agricultura de Iguatu
(88) 3581.6527

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HONÓRIO BARBOSA
REPÓRTER




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