Rios e riachos do sul do Estado

De onde vêm as águas que recarregam os grandes açudes

A maior parte da água que chega ao Castanhão vem das chuvas que banham a região do Cariri, o Vale do Salgado

O Rio Salgado, em Aurora, e a Barragem do Rosário, no Riacho dos Porcos, em Milagres, no Cariri cearense, são alguns dos pontos por onde as águas passam antes de atingir o Açude Castanhão ( Fotos: Antonio Rodrigues )
00:00 · 30.04.2018 por Honório Barbosa / Antonio Rodrigues - Colaboradores
O Rio Salgado passa por Icó (na foto, a Ponte Piquet Carneiro), no Centro-Sul do Estado, antes de alcançar o Castanhão, no Vale do Jaguaribe ( Foto: Honório Barbosa )
O Rio Jaguaribe, na localidade de Mapuá, zona rural do município de Jaguaribe, é um outro caminho das águas para o abastecimento do Açude Castanhão ( Foto: Honório Barbosa )

Juazeiro do Norte/ Iguatu. O Açude Castanhão, o maior do Ceará, é estratégico para abastecer cerca de 4,5 milhões de moradores da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) e da Bacia do Baixo Jaguaribe. Neste ano, a barragem estava secando, acumulava, em 1º de fevereiro, início da quadra chuvosa, apenas 2,25%. Ontem, estava com 8,44%. Obteve uma recarga superior a 6%. Mas de onde vem a tão esperada água que reabastece o Castanhão?

A maior parte, cerca de 60%, vem do alto sertão cearense, das chuvas que banham a maior parte da região do Cariri, ou seja, do Vale do Salgado. Distante mais de 300Km. O recurso hídrico percorre riachos e rios. Daí a importância de que ocorram intensas chuvas no Sul do Ceará.

Neste ano foi o que se verificou durante a primeira quinzena de abril. Choveu bem nos 23 municípios que integram a Bacia Hidrográfica do Rio Salgado, que tem 308Km de extensão. Nasce no município do Crato e deságua no Rio Jaguaribe, um pouco após a cidade de Icó, abaixo do Açude Orós.

Quando chega ao Rio Jaguaribe, a água desce em direção ao município de mesmo nome até chegar à Bacia Hidrográfica do Castanhão, na antiga Jaguaribara. Já as águas que descem pelo Rio Jaguaribe (Tauá, Aiuaba, Saboeiro, Jucás, Iguatu) e pelo Rio Cariús (Nova Olinda, Assaré, Farias Brito, Cariús, Jucás e Iguatu) são barradas pelo Orós e só chegam ao Castanhão quando este reservatório transborda.

"Muita gente pensa que é o Rio Jaguaribe que abastece o Castanhão, mas, na verdade, é o Rio Salgado a sua principal fonte", pontua o gerente regional da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), no Crato, Alberto Medeiros de Brito. "Cerca de 60% das águas do Castanhão têm origem na Bacia do Salgado".

O barqueiro José Oliveira, da localidade de Mapuá, zona rural de Jaguaribe, onde há uma passagem molhada, que fica interditada quando volume da água aumenta nessa época do ano, apressa-se em explicar: "Aqui é o Jaguaribe, mas essa água está vindo do Salgado e vai direto para o Castanhão. Ela veio pelo Icó e lá entrou no Rio Jaguaribe".

As chuvas no Cariri são mais intensas do que no Alto Jaguaribe (Inhamuns) e, por isso, o Salgado beneficia com maior volume o Castanhão. Essa é a razão de as recargas anuais do Orós estarem reduzidas. A água que escorre na cidade de Iguatu, no Rio Jaguaribe, vem, em sua maior parte, do afluente, Rio Cariús, que é favorecido pelas chuvas no Cariri Oeste.

Nascentes

No Crato, dois importantes rios formam o caminho das águas até o Rio Salgado. O Rio Granjeiro, que nasce no distrito de Belmonte, no sopé da Chapada do Araripe, em seu médio-curso corta o Centro da cidade. No entanto, está canalizado e recebendo o esgoto do Município (Canal do Granjeiro). O trajeto natural do rio foi alterado e hoje dá lugar às ruas e prédios. Chuvas fortes já fizeram seu canal transbordar, arrastando carros e invadindo lojas, causando diversos prejuízos. Já no baixo-curso, ele reencontra a zona rural e o cimento desaparece, mas as áreas adjacentes se encontram sem mata ciliar e, por vezes, ocupadas pela monocultura.

Mais à frente, o curso de água encontra o Rio Batateiras, que também nasce no sopé da Chapada do Araripe e tem em volta de sua nascente muitas lendas e mitos indígenas. Um dos principais pontos de visitação, a Cascata do Lameiro, é formada por suas águas. Hoje, com população aproximadamente 135 mil, o Município assiste ao crescimento de casas próximo ao seu leito. Apesar de formar o geossítio homônimo e no seu curso estar presente o Parque Estadual do Sítio Fundão, ele encontra-se poluído e com mata ciliar ameaçada.

No início deste mês, a Câmara Municipal, em sessão ordinária, aprovou um Projeto de Lei, de autoria do prefeito José Ailton Brasil, que desafeta uma Zona Especial Ambiental (ZEA) na área vizinha à Unidade de Conservação, no restante do curso do Rio Batateiras. São pouco mais de 70 hectares em seu corredor de área verde e atividades agrícolas, entre dois bairros populares, que devem se tornar um grande loteamento.

Já em Juazeiro do Norte, o Rio Salgadinho, que já foi sinônimo de subsistência, hoje está poluído, parte aterrado e ameaça a população com enchentes, principalmente em bairros periféricos e na zona rural.

Ao pé do horto, como contava Senhorzinho Ribeiro, as margens do rio eram compostas de roçados de arroz e cana-de-açúcar. O leito era bem mais largo e fundo e havia peixe em abundância. "As águas límpidas refletiam a beleza de uma natureza virgem e sem poluição. No inverno, o rio se agitava e suas águas rebeldes triplicavam seu volume", conta em seu livro, "Juazeiro no túnel do tempo".

Longe dali, outro importante afluente do Rio Salgado nasce no Cariri e faz as chuvas na região leste serem importantes para o aporte do Castanhão: o Riacho dos Porcos. Formado no sopé da Chapada, em Porteiras, seu principal afluente é o Riacho São Miguel, que nasce em Mauriti. Suas águas encontram com as do Riacho dos Porcos em Milagres, e depois vão desaguar no Rio Salgado, no distrito de Ingazeiras, em Aurora. Por isso, as fortes precipitações em Milagres, Mauriti, Jati, Brejo Santo, Porteiras e Barro, neste ano, foram importantes para o aporte do maior açude do Estado.

Além do Riacho dos Porcos, em Aurora, o Rio Salgado é abastecido, na margem direita, pelos riachos dos Cavalos, das Antas, os rios Cuncás, Pendência, Areia e Titi. Na Serra da Várzea Grande, os riachos do Pau Brando e Bordão de Velho descem até ele. Já pela margem esquerda, recebe águas do Rio Carás, Rio Jenipapeiro I e dos riachos do Meio, do Juiz, São João, dos Mocós, da Caiçara e Jenipapeiro II. Tudo isso, formando uma bacia no Município, que cobre uma área de 10.500 quilômetros quadrados. Lá, há uma forte atividade de pesca, o que contribui para a alimentação e a economia dos seus moradores.

Cinturão das Águas

Além das águas dos afluentes, o Rio Salgado, até o fim de 2018, deverá receber o reforço do Projeto de Integração do Rio São Francisco (Pisf). O Eixo Norte da obra, que tem avanço físico de aproximadamente 95%, deverá trazer água para o Ceará, pelo município de Jati. De lá, chegará até o Cinturão das Águas do Ceará (CAC), obra do Governo do Estado. Depois de percorrer 53 quilômetros, entre canais, túneis e sifões, no chamado "eixo emergencial", a água do Velho Chico chegará até o Riacho Seco, em Missão Velha. De lá, percorrerá mais 13 quilômetros, seguindo por gravidade, até alcançar o Rio Salgado.

Saiba mais

Bacia do Salgado

23 municípios

2 milhões de moradores

15 açudes - capacidade de 452 milhões de m³

Açudes mais importantes: Rosário, Cachoeira, Olho d'Água, Baldinho, São Domingos II

308 Km de extensão

Nascente - Crato

Foz - Icó (deságua no Jaguaribe)

12.865 km² de Área - 8,5% da área do Ceará

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.