Sertão Central

Comunidade do Estevão busca origens das lendas da Serra

A curiosa história da centenária comunidade da Serra do Estevão está sendo resgatada pelos próprios moradores

O Mosteiro de Santa Cruz abriga a hospedaria de São José, ideal para quem busca tranquilidade ( Foto: Alex Pimentel )
00:00 · 07.07.2018 por Alex Pimentel - Colaborador
Os pesquisadores são alunos da Escola de Ensino Integral Fundamental Antônio Martins de Almeida, no distrito Dom Maurício ( Foto: Alex Pimentel )

Quixadá. Índios, missionários, colonizadores, escravos e assombrações. A curiosa história da centenária comunidade da Serra do Estevão está sendo resgatada pelos próprios moradores. Os pesquisadores são alunos da Escola de Ensino Integral Fundamental Antônio Martins de Almeida, no distrito de Dom Maurício, a 22Km do Centro de Quixadá. Nesse caminho, com aspecto de roteiro cinematográfico, há um sítio mal assombrado, uma mulher que chora pelas ruas do lugarejo, na calada da noite, um homem que vira bicho, um carro que nunca chega e um mosteiro misterioso.

O sítio macabro recebe o nome de Bom Princípio. Fica ao norte da vila do Estevão. Os estudantes constataram que, nas noites de escuridão, quando os namorados iam deixar suas amadas em casa, recebiam uma chuva de areia sobre as suas cabeças. Outros transeuntes, por diversas vezes, se depararam com um caixão preto na margem da estrada, próximo a uma mangueira. Jamais alguém voltou para ver o que ou quem estava dentro daquela urna fúnebre. Em outra árvore, muitos viram velas acesas, provocando vigorosas carreiras. Esses assombros são atribuídos aos escravos que ali foram torturados e morreram.

Sobre o homem que virava bicho, apuraram os alunos que ele possuía o poder dessa maldição. Quando queria, se transformava em qualquer animal. Certa feita, rolou no chão por sete vezes e se tornou um cachorro. Pretendia ir a uma festa, um banquete, de um casamento, na Serra, mas não havia sido convidado. O jeito foi entrar disfarçado, e enquanto comia os ossos debaixo da mesa, foi judiado. Para se vingar, esperou o agressor na estrada, dessa vez no corpo de uma enorme cobra.

Tão assustadora quanto é a história do carro fantasma. Entrevistando os mais velhos, os estudantes descobriram o motivo de ainda se ouvir na estrada de acesso à Serra o barulho do motor de um veículo, apesar de não haver nenhum circulando. O motorista de um caminhão morreu em um acidente, quando o acesso ao lugarejo estava sendo pavimentado. Era uma noite chuvosa. Uma enorme pedra rolou ladeira abaixo atingido o carro, matando o seu condutor. Desde então, ainda se ouve o veículo se aproximando, mas nunca chega.

Essas histórias foram levadas às comunidades da Serra na XII Caravana da Cultura, realizada pela Escola local, na vila Dom Maurício. A diretora da unidade educacional, Davilene Patrício, nascida e criada ali, informou que, transformados em encenações, os contos foram apresentados no Sítio Veiga e na Vila Santo Antônio. O objetivo pedagógico, de pesquisa e de difusão, foi alcançado. Essas histórias estavam se perdendo na memória do lugar e não serão esquecidas.

Acostumada com esses relatos na infância e até vivenciando alguns deles, a funcionária municipal da Educação, Veneranda Lemos, foi quem articulou as crianças e adolescentes na busca dessas histórias. Ela sempre se preocupou em ouvir e registrar as curiosidades contadas costumeiramente pelos moradores mais velhos. Ela garante não ter medo. Gosta delas, principalmente quando são muito misteriosas e assustadoras.

O lugar

O cenário onde essas lendas estão sendo revividas é formado por uma pequena cadeia montanhosa de cerca de 24Km de extensão e 10Km de largura, numa altitude de 755m acima do nível do mar, tendo como ponto culminante a nascente do Rio Sitiá. Sua formação geográfica funciona como um divisor de águas entre as bacias hidrográficas do Sitiá e do Rio Choró.

A origem exata do nome, segundo os moradores, é desconhecida, no entanto, de acordo com a tradição local, Estevão é o nome do primeiro ocupante das terras da serra. Essa garantia histórica está baseada no fato de que é bastante comum a transmissão ao lugar do nome de seu primeiro proprietário. A primeira referência documental da localidade é o "Auto de Assinação de Patrimônio da Câmara de Quixeramobim", de 15 de junho de 1789, que determinava as formas de uso e distribuição de terras, bem como a cobrança de taxas municipais.

Mosteiro

Um século depois o Mosteiro, o de Santa Cruz, foi erguido nas terras de Estevão. Dando continuidade ao curioso roteiro histórico, o abrigo religioso surgiu graças a uma queda de cavalo. Em meados de 1889, o Abade do Mosteiro de Olinda, dom Geraldo Van Caleon, seguia ao Crato, acompanhado do jovem clérigo, Maurício Prichzi, para fundar um novo convento, quando sofreu o acidente, na localidade de Cachoeira, hoje cidade de Solonópole. Com a queda, foi obrigado a hospedar-se em Quixadá.

No período de enfermidade, o vigário Antônio Lúcio Ferreira sugeriu ao abade conhecer a Serra do Estevão, que, por seu clima ameno, em plena caatinga, era um lugar ideal para a permanência segura e tranquila dos monges beneditinos. Esses relatos históricos foram colhidos pelas irmãs da ordem religiosa das Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, hoje, responsáveis pelo Mosteiro.

O lugar reúne cinco irmãs da ordem religiosa das Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Segundo a atual administradora do mosteiro, irmã Maria de Jesus, muita coisa mudou desde a chegada das missionárias da sua Congregação à Serra do Estevão. O abrigo religioso destinado às religiosas, erguido no início da década de 1900, possui 16 cômodos.

Até bem pouco tempo, o Mosteiro mantinha as portas fechadas a qualquer visitante. O público tinha acesso apenas ao outro vão, transformado em pousada, e a capela, nas horas das celebrações das missas. Ao lado funciona uma hospedaria, de São José, mantendo seus traços originais, rústicos. É ideal para quem busca tranquilidade e repouso.

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"Muitas histórias se perdem com o passar do tempo. Assombradas ou não, essas memórias contam um pouco do nosso passado. Merecem ser preservadas"

Davilene Patrício

Diretora escolar

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"Moro aqui há alguns anos e para mim foi uma surpresa ver crianças procurando o passado do seu povo. Mesmo tão excêntrica, é uma boa forma de relembrá-lo"

Maria de Jesus

Irmã missionária

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