Compadrio firmado na fogueira junina - Regional - Diário do Nordeste

Noite de São João

Compadrio firmado na fogueira junina

21.06.2008

A Festa de São João é a mais sertaneja de todas. Nela, há a prática do compadrio e do apadrinhamento

Crato. “São João dormiu/ São Pedro acordou/ Vamos ser compadres/ Que São João mandou”. O compromisso repetido três vezes no pé da fogueira sela um laço de amizade eterno entre os sertanejos. O compadrio assumido espontaneamente no calor da fogueira de São João é uma das formas pela qual os moradores das comunidades rurais do Nordeste demonstram sua solidariedade e fortalecem a amizade.

É uma instituição, paralela à da família, chegando às vezes a entrelaçar um número bem maior de membros muito mais pelo coração do que pelo do sangue. Há provas na comunidade de que os liames afetivos que prendem um compadre ao outro são por vezes, em certo aspecto, tão fortes como aqueles que unem a irmãos. O aposentado Damião Pereira de Lima, por exemplo, tornou-se compadre do tocador de violão Benedito Torres da Silva na beira de uma fogueira. Ainda hoje, ambos mantêm um relacionamento de irmãos.

Filhos de Patativa

Há também casos em que os irmãos são entrelaçados pelos liames do compadrio. É tão importante este tipo de relações que o próprio tratamento entre eles se modifica. Deixam de se tratar apenas pelo nome, mas antepõe sempre o de compadrio. Um exemplo clássico dessa amizade são os filhos de Patativa de Assaré, residentes na Serra de Santana. Todos eles são compadres entre si. “É uma forma de unir ainda mais a família”, justifica o filho mais velho do poeta Patativa, Geraldo Gonçalves.

Além do compadrio, há também os afilhados de fogueira. O ritual é o mesmo. No calor da fogueira, de mãos dadas, padrinho e afilhados repetem, por três vezes, a frase: “São João disse/ São Pedro confirmou/ Eu sou seu padrinho/ Que São João mandou”.

A mestre do folclore Zulene Galdino garante que tem mais de 50 afilhados no bairro onde mora, Vila Novo Horizonte. Ela diz que “este apadrinhamento de fogueira é uma tradição que vem de longe, quando as pessoas eram mais amigas e solidárias”. A dona-de-casa Vicência Gomes diz que a Festa de São João é a mais sertaneja de todas as festas porque vem acompanhada de danças populares e comidas típicas da região, além de uma gama de crendices que vagueiam pelo sertão, como as simpatias.

O mês de junho, para o nordestino, é um período de muita alegria e festança, vivenciadas no ciclo junino, entre fogueiras, fogos e muito forró. Esse ciclo que, juntamente com o Carnaval e o Natal, constituem as três principais temáticas das manifestações de festejos populares do Brasil, cada qual com suas peculiaridades e também características.

É em junho que a religiosidade popular, herdada pelo branco europeu colonizador, extrapola os muros das igrejas católicas e atinge a comunidade em toda a sua plenitude, atestando a popularidade dos santos entre os brasileiros. É também no calor da fogueira que nascem sonhos e juras de amor eterno entre os enamorados.

Comércio

“Vendem-se fogueiras, 15 reais.”. O cartaz colocado ao lado de uma fogueira, na margem da estrada de acesso ao Clube Recreativo Granjeiro, rompe com os hábitos e costumes da região. Tradicionalmente, a retirada da fogueira de dentro da mata faz parte do ritual místico do sertanejo.

Para ele, a fogueira tem origem sagrada. Conta à lenda que João Batista, aquele que batizou o primo Jesus Cristo, teve uma fogueira acesa em seu louvor. Existe outra versão de que, quando João Batista nasceu, sua mãe, Santa Isabel, mandou acender uma fogueira em frente da casa, com a finalidade de avisar para sua prima, Maria, o nascimento do Filho Divino.

Para o caseiro Expedito Pereira Isidoro, a fogueira é uma forma de aumentar a renda familiar. Depois que ele colocou o anúncio ao lado do monte de lenha já vendeu várias fogueiras. Os compradores pagam R$ 15,00 com a obrigação de transportar o monte de lenha para casa.

Isidoro espera acabar com o resto de duas árvores cortadas no terreiro de sua casa até a noite de São João. Além de limpar o terreiro, ele espera ganhar cerca de R$ 100,00.

De origem européia, as fogueiras juninas fazem parte da antiga tradição pagã de celebrar o solstício de verão. A fogueira do dia de “Midsummer”, celebrado no 24 de junho, tornou-se, na Idade Média, um atributo da Festa de S. João.

Enquete
Como o Sr.(a) vive os festejos de São João?

Vicência Gomes
Dona-de-casa
'O São João é a mais sertaneja de todas as festas porque vem acompanhada de danças e comidas típicas.'

Damião Pereira da Silva
Agricultor aposentado
'Se compadre de fogueira é como escolher um irmão, a amizade é eterna com o compadrio no São João.'

Benedito Torres da Silva
Agricultor e violeiro
'No calor da fogueira nascem juras de amor eterno. Por isso gosto tanto de comemorar a noite de São João.'

HISTÓRIA BÍBLICA

Santo antecedeu Cristo nas pregações

Crato. São João Batista, santo católico, primo de Jesus Cristo, nasceu a 24 de junho e morreu a 29 de agosto do ano 31 d.C, na Palestina. Foi degolado por ordem de Herodes Antipas, a pedido da sua enteada Salomé, pois a pregação do filho de Santa Isabel e São Zacarias incomodava a moral constituída na sua época.

Antes mesmo de Jesus, Batista já pregava publicamente às margens do Rio Jordão. Destacando-se por seu jeito áspero e intolerante de ser, instituiu, a partir da prática de purificação através da imersão na água, o batismo, tendo inclusive batizado o próprio Cristo nas águas deste rio.

A importância de São João fica bastante clara, quando percebe-se que, dentre os santos do mês de junho, ele teve o poder de dar ao mês o seu nome (mês de São João) e qualificar de “joaninas” ou juninas as festas realizadas no decurso dos seus 30 dias.

Além da fogueira, as festas juninas trazem uma série de brincadeiras e folguedos para marcar as suas comemorações. O uso de balões e fogos de artifício durante São João no Brasil está diretamente relacionado com o tradicional uso da fogueira nas noites juninas.

Segundo o folclorista Cacá Araújo, “é ainda no braseiro das fogueiras que são assadas as espigas de milho, repetindo um hábito que desde os Tupinambás é registrado na bibliografia mais acreditada. Os fogos de queima e explosão – foguetes, chuvinhas, vulcões, rojões, pitus, espadas e busca-pés – contrastam com os fogos de artifício, que encantam as noites frias e estreladas do ciclo junino”, destaca ele.

O ritual da fogueira é mais do que uma tradição é uma devoção, que começa com a retirada dos paus da fogueira, geralmente madeira verde para o fogo durar mais.

A festa tem um peso tão grande que no dia 23 de junho, depois do meio dia, em algumas localidades ninguém mais trabalha. Sítios, fazendas, ruas, estão preparadas, com bandeirolas coloridas, para a grande festa da véspera de São João. À noite, o sertão se transforma num verdadeiro luzeiro.

As famílias se reúnem em torno das fogueiras para assar batata-doce, mandioca, milho verde e outras comidas típicas como a canjica, a pamonha e o pé-de-moleque.

Outra tradição que marca a noite junina são as práticas de simpatias. Uma delas recomenda pegar dois pedaços de carvão, de tamanhos diferentes, colocando-os em uma bacia (de preferência de ágata) com água. Deixar debaixo da cama. O primeiro pedaço colocado pode representar o ano de 2008 e o segundo pedaço, o ano de 2009.

No dia seguinte, a pessoa saberá se encontrará sua alma gêmea neste ano ou não, dependendo do carvão que boiar primeiro no dia seguinte.

Para saber se terá dinheiro, recomenda-se no dia 23 de junho pegar um ramo de louro, passando-o levemente pelo fogo. Depois, jogar sobre o telhado da casa. Se no dia seguinte o ramo ainda estiver verde, simboliza dinheiro para este e os próximos anos, mas se estiver retorcido, é um sinal de dificuldades financeiras.

Para saber a sorte do casamento, colocar duas agulhas de tamanhos iguais dentro de uma bacia com água contendo duas colheres de açúcar. Se no dia seguinte elas estiverem próximas, simboliza que o casamento também está próximo.

ANTÔNIO VICELMO
Repórter

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