Mercado público

Comércio informal de lanches vara a madrugada no Pirajá

Hoje, o Mercado do Pirajá é o maior fornecedor de hortifrutigranjeiros da região Cariri

Os comerciantes do mercado afirmam que o movimento já foi bem melhor, mas, mesmo assim, não abrem mão dos pontos, já que o aluguel é mais barato e a clientela é garantida, por menor que seja
00:00 · 07.10.2017 por Antonio Rodrigues - Colaborador
Os clientes são fiéis aos lanches do Mercado do Pirajá, tanto de dia quanto durante a noite, entre os trabalhadores das madrugadas e aqueles que voltam das farras ( Fotos: Antonio Rodrigues )

Juazeiro do Norte. Sete horas da manhã e o Bar do Jota já está de portas abertas. O movimento ali começa meia-noite, mas um casal continua lá, dançando reggae no meio da rua ao som de "Satisfy My Soul", do jamaicano Bob Marley, enquanto bebe cerveja. Eles começaram a beber uma da madrugada. O barraco é pequeno, mede pouco mais de um metro, e fica entre o canteiro central da Avenida Ailton Gomes, em frente ao Mercado Governador Gonzaga Mota, o popular "Mercado do Pirajá". O lugar que nunca dorme na terra do Padre Cícero.

Hoje, o Mercado do Pirajá é o maior fornecedor de hortifrutigranjeiros da região Cariri. Criado há 28 anos, na gestão do Prefeito Carlos Cruz, o local impulsionou a urbanização de Juazeiro do Norte para outro ponto da cidade além do Centro. Lá, funcionam barracas de frutas, legumes e verduras, lojas de roupas, artigos infantis, joias e até mesmo uma farmácia. Em 2013, o mercado municipal passou por um reordenamento para garantir a desobstrução do entorno e diminuiu muito o comércio externo. Atualmente, cerca de 1.200 permissionários trabalham ali.

É no Mercado do Pirajá que se encontra, desde a fundação, o ponto de Maria Lúcia de Souza, para os clientes, apenas Tia Lúcia. Quando começou, ela comprou dois boxes para oferecer comida aos visitantes e trabalhadores do mercado. Agora, ela possui quatro. Ou seja, boa parte da comida oferecida na parte interna do mercado passa pelas mãos da empresária.

Natural de Juazeiro do Norte, Tia Lúcia viajou, aos 18 anos, para trabalhar em São Paulo. Retornou dez anos depois, com dois filhos, e iniciou o trabalho no Mercado do Pirajá. Lá, vende caldo, buchada, sarapatel, panelada, entre outras coisas. Ela também tem contrato para fornecer marmita às pessoas idosas, além de oferecer almoço e a merenda, que é um prato com arroz, cuscuz, verduras e a mistura, muitas vezes, carne de costela.

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Com a busca por alimentos durante a madrugada, foi surgindo um comércio informal no canteiro central e nas calçadas da Avenida Ailton Gomes, que atrai tantos clientes quanto os do Mercado formal 

De 1989, ano em que desembarcou no Cariri, até hoje, Tia Lúcia sente uma diferença no número de clientes. Apesar de o Mercado do Pirajá ser o mais movimentado - fora dos períodos de romaria -, ela acredita que houve uma diminuição de clientes. "Quando comecei a trabalhar aqui, eu levava dinheiro na sacola, guardava numa caixa, que nos bolsos não cabia", lembra. A barraca de Tia Lúcia abre todos os dias, mas na madrugada de sábado para domingo ela chega mais cedo, por volta de 3h30, porque muitos clientes voltam das festas e vão se alimentar por lá. No restante dos dias da semana ela abre 4h30. Após deixar o mercado de tarde, ela ainda faz o jantar da família, assiste televisão e vai dormir às 23 horas. "Já sou acostumada", diz.

Diariamente, os pratos mais pedidos são a panelada e sarapatel. Mas, no fim de semana, os clientes que voltam das festas, muitas vezes embriagados, preferem o caldo de costela ou mocotó. Para atender os mais famintos, ela criou um arrumadinho de carne moída, cuscuz e ovo.

"Aqui também ninguém fazia buchada, panelada e sarapatel. Aí, depois que viram o movimento grande comigo, começarem a fazer. Só que ninguém tem o meu tempero. Só come uma vez e volta", gaba-se a empresária, que oferece também sucos de caju, maracujá, acerola, goiaba, além de cerveja e refrigerante.

Com a diminuição dos clientes no Mercado, Tia Lúcia conta que o que a sustenta, hoje, são as marmitas que ela faz de almoço para aposentados. Antes, ela teve até cinco funcionários, hoje são três. A despesas com a compra dos ingredientes é retirada do que ela vende durante o dia. O lucro é pouco. O que a mantém no Pirajá é o amor pelo lugar. "Só não durmo aqui no Mercado porque não tem aonde. Eu gosto do ambiente. Aqui é minha casa, é minha vida, é tudo. Meus fregueses são um amor. São minha família", exalta a comerciante.

Se depender do pedreiro Francisco Erinaldo Mendes que, diariamente, às 6 horas, toma o café da manhã no Mercado do Pirajá, antes de ir trabalhar, a barraca de Tia Lúcia irá durar por muitos anos. "É o melhor caldo que tem na cidade e eu já rodei em tudo lugar, aqui no Cariri. O almoço é ainda mais especial", garante.

À noite

No canteiro central da Avenida Ailton Gomes, além do comércio de roupas, que predomina pela manhã, há várias lanchonetes que atendem a partir da noite e varrem a madrugada. Isso acontece também na calçada com os ambulantes. O movimento começa, principalmente, a partir das 3 horas, quando carros de várias cidades descarregam legumes, frutas e verduras para abastecer os feirantes. Depois do trabalho, a primeira refeição.

Há 19 anos, Cicera Leão, a Silvani, trabalha sozinha na calçada do Mercado do Pirajá servindo churrasco grego a quem passa por ali. O sanduíche é preparado no pão francês e é servido junto com suco de maracujá. Apesar do horário, ela acredita que não é perigoso. No entanto, quando as outras lanchonetes estão fechadas, ela evita pôr seu comércio. Chega às 17h30 e só sai 5 horas. Quase 12 horas trabalhando. "Durmo muito pouco. A gente não se acostuma, mas precisa, né?", confessa Silvani.

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Quem frequenta o Mercado do Pirajá e arredores em busca dos lanches garante que não há lanche igual em outro lugar da Cidade

Ela também acredita que o movimento diminuiu e isso afetou também sua compra de carnes. Mas, quando tem festas em Juazeiro do Norte ou nas cidades vizinhas, Silvani comemora. "A gente fica porque não tem outra coisa. Já pensei em sair daqui, mas não tem outro serviço. Tem dias que saio com 50 pães e volto com 100, mas a gente tem que sobreviver", brinca a comerciante.

Mas ela vê com bom olhos o Mercado do Pirajá ser um local de referência em alimentação na noite de Juazeiro do Norte, mesmo tendo aumentando os concorrentes. Lá, só no canteiro central, funcionam cinco barracas que vendem comida. Segundo a comerciante, quando bate a fome de noite ou de madrugada, sempre lembram do Pirajá. "Deus dá a um e dá a tudim", conta Silvani.

"Gostosa é a espera"

Há poucos passos do Mercado do Pirajá, no canteiro central da Avenida Ailton Gomes, está localizado o "Ligeirinho Lanches", um dos quiosques mais populares de Juazeiro do Norte, que lota nos fins de semana. O proprietário é Francisco Lima de França, o Ligeirinho, que se notabilizou pelo apelido que, muitas vezes, é confundido com a velocidade do atendimento. No entanto, a alcunha surgiu no emprego anterior, numa distribuidora de alimentos.

Durante quatro anos trabalhando na distribuidora, Ligeirinho tentava atender os clientes com o máximo de agilidade e, assim, garantir seu emprego. "Eu queria fazer minhas coisas tudo direitinho, com honestidade e rápido. Aí, os clientes chegavam, notavam e sempre pediam pra eu atender. As gerentes de lá gostaram, o apelido pegou e até eu gostei, porque o cliente começou a dar valor", explica.

Em 2004, Ligeirinho investiu no atual ponto e criou a "CB Lanches". Sem saber ler ou escrever, ele se inspirou numa antiga lanchonete que funcionava na Praça do Mateu com este nome. "Quando me perguntavam o que era CB lanches eu não sabia explicar", lembra. Com a confusão, surgiu o Ligeirinho Lanches, há seis anos, no mesmo local. "O pessoal começou a cobrar atendimento mais rápido por causa do nome", conta. Aí ele decidiu criar o slogan "Gostoso não é o lanche, é a espera".

"Eu acho o que atrai é o lanche e o preço. Mas meu atendimento é assim: tanto faz chegar uma pessoa descalça ou bem vestida, a pé ou de carrão. O atendimento é igual. Quem chegou primeiro, é atendido primeiro. Nem que seja amigo, irmão. É quem chegar primeiro", garante.

O comerciante acredita que a crise não o afetou seu movimento. O problema é que muitos clientes encontram a lanchonete lotada e desistem de comer por lá. Atualmente, só trabalham ele e a esposa. "É melhor só eu e ela, trabalhamos o dia queremos, quatro dias da semana. Se tivesse funcionário, trabalharia todos os dias. Teria que acompanhar", completa. Hoje, Ligeirinho produz cerca de 350 sanduíches por dia, com preços variando de R$ 2 à R$ 4.

No passado, ele largou a vida de agricultor e camelô. Morou no Paraná por quatro anos, comprando eletrônicos do Paraguai e revendendo no Brasil. "Mesmo analfabeto, eu fui. Vendia de tudo, som, televisão, cigarro. Naquela época, era fácil de trazer. Compensava", recorda. Mas a saudade da família o trouxe de volta. Hoje, diferente da fronteira paraguaia, Ligeirinho fica no cruzamento das avenidas Castelo Branco e Ailton Gomes, duas das principais da cidade, das 17h às 6 horas.

Reorganização

A Secretaria de Meio Ambiente e Serviços Públicos anunciou, neste ano, que o Mercado do Pirajá irá passar por reforma. O comércio no canteiro central da Avenida Ailton Gomes será alocado no prédio do antigo Posto de Saúde Mauro Malzoni, no mesmo bairro, ao lado do mercado. Ainda não há previsão para iniciar os trabalhos.

Apesar de ter diminuído o movimento desde a reorganização, em 2013, muitos comerciantes acreditam que a crise econômica afetou o Mercado do Pirajá. No entanto, alguns já largaram o Mercado Central Adauto Bezerra para abrir seu ponto por lá. No Centro, o aluguel custa, em média, 10 mil reais, já no Pirajá, 3 mil. Hoje, o bairro possui duas agências de banco, supermercados e farmácias. O Triângulo e Planalto também fazem parte desse processo de descentralização mercantil.

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