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Casa São Francisco pode encerrar atividades

O lar temporário abriga crianças em vulnerabilidade social de até seis anos de idade na cidade de Sobral

A Casa São Francisco só passou a ser administrada pela Comunidade Shalom em 2002. Ao longo desses anos, cerca de 200 crianças foram atendidas ( Fotos: Marcelino Júnior )
00:00 · 09.11.2017 por Marcelino Júnior - Colaborador
Criado em 1994, por determinação judicial para atender a crescente demanda de crianças e adolescentes por um lar temporário, a estrutura passou a existir numa parceria com o Município e um hospital local
O casal Joseana e Ilberte diz que o filho Pedro foi o presente de 'Semana Santa' daquele ano (da adoção)

Sobral. Acostumados a visitar e ajudar casas de acolhimento de crianças em situação de vulnerabilidade social, o casal Joseana e Ilberte Gomes, que não tinha vontade de adotar filhos, até então, se viu surpreendido com o desejo de estar cada vez mais próximo do pequeno Pedro, há época, com pouco mais de um ano de idade. A Casa São Francisco, lar temporário, e de apoio a crianças de até 6 anos, serviu de canal para essa aproximação que mudou de vez a vida dos três. A partir do primeiro encontro, as visitas, que já tinham uma certa regularidade na agenda do casal, passaram a ser mais frequentes e cheias de diversão e carinho. Hoje, a entidade, administrada há 15 anos pela Comunidade Católica Shalom e que abriga atualmente 20 crianças, pode encerrar suas atividades por falta de apoio financeiro

Enquanto os encontros se sucediam, Joseana e Ilberte decidiram partir para a adoção. Com a abertura do Processo de Habilitação para Adoção, na 2ª Vara Cível da Infância e Juventude da Comarca da Cidade, o casal foi orientado a se inscrever no Cadastro Nacional de Adoção, mais uma etapa para que o sonho de serem pais fosse concretizado. De acordo com Jeseana, que é cirurgiã dentista, "o Pedro, que hoje tem quatro anos, nos tocou muito, desde o primeiro contato. Saímos do abrigo com a certeza que ele era nosso filho e que faríamos tudo por ele, que estivesse ao nosso alcance", reforçou Joseana, ao lado do marido, Ilberte, que se emociona ao lembrar o dia em que pôs os olhos sobre o filho.

Mudança

Antes de serem os pais de Pedro, o casal, que está junto há 9 anos e não pode ter filhos, decidiu aproveitar muito mais a vida, se dividindo entre as horas de trabalho, o contato com familiares e amigos, além dos momentos românticos, a sós, em viagens pelo mundo. Apesar dos planos para o futuro, que não contemplavam a chegada de mais um membro, Ilberte tinha um pensamento bem particular sobre o tema adoção de criança. "Eu tinha muito preconceito sobre esse assunto, porque acreditava muito no poder da genética, e, de certa forma, continuo acreditando; mas ponho muito mais fé no poder do amor, nessa força transformadora que se sobrepôs a tudo o que eu pensava", admite.

Ao lembrar do filho, o também cirurgião dentista relata o que sentiu quando conheceu a criança que chamou sua atenção, entre tantas outras. "No momento em que o Pedro olhou para mim e sorriu, eu senti naquela hora que ele era meu filho. Aquele sorriso derrubou todo e qualquer preconceito que eu tinha em relação à adoção. Nos submetemos a toda a burocracia que o processo requer, além de existirem muitos casais, à época, na fila pela adoção do Pedro. Apesar da demora, nunca deixamos de acreditar que aquilo tudo seria possível", disse Ilberte, ao lembrar da reforma que o casal fez em casa para criar um ambiente mais adequado à chegada do tão esperado filho.

Mas, ao longo do processo, o casal foi desencorajado a continuar com a tentativa de adoção, justamente pelo número de casais que buscavam a mesma criança, e estavam com a situação processual bem mais adiantada. "Então, nós viajamos para pôr as ideias em ordem, e ver o que faríamos se nada desse certo. Eis que, ao retornarmos a Sobral, recebemos o telefonema positivo do abrigo nos dizendo que a adoção havia se concretizado. O nosso filho foi o presente de 'Semana Santa' daquele ano, quando ele chegou em casa e foi apresentado a todos os nossos familiares, nesse período de confraternização", relata o pai emocionado.

"Nossa vida mudou radicalmente com a vinda do Pedro e, para bem melhor", admite o casal, que continua com o mesmo trabalho de apoio ao abrigo. "Nós agradecemos muito a essa casa, que é tão especial, com todo esse cuidado às crianças que aqui chegam. Torcemos para que esse momento de dificuldades que o lugar tem passado, seja sanado o mais breve possível", relatam, com visível preocupação, ao receber a notícia que a Casa São Francisco, pode encerrar suas atividades por falta de apoio financeiro. Hoje, sobrevive da doação de oitenta benfeitores, entre pessoas e empresas, mas, no momento, não têm conseguido cobrir suas despesas.

Parceria

Criado em 1994, por meio de determinação judicial para atender a crescente demanda de crianças e adolescentes de Sobral e municípios vizinhos, por um lar temporário, a estrutura, então, passou a existir numa parceria com o município e um hospital local. A Casa só passou a ser administrada pela Comunidade Shalom em 2002. Ao longo desses anos, cerca de 200 crianças foram atendidas. Os motivos são os mais diversos, como negligência dos pais, lares desfeitos, e casos de abusos cometidos contra elas no ambiente familiar.

De acordo com Walneth Lopes Ferreira, assistente jurídica da 2ª Vara Cível da Infância e Juventude da Comarca de Sobral, "essas crianças, dependendo da situação, podem retornar aos seus lares; estar num núcleo familiar estendido, no caso de passarem a morar com parentes próximos; ou ainda, serem encaminhadas a famílias substitutas, no caso da adoção.

O município, também possui o Abrigo Domiciliar para meninos e meninas entre 6 e 18 anos, que conta hoje com 16 abrigados. Todos eles em situação temporária. Por hora, não temos nenhum processo de adoção em tramitação no município", adiantou Walneth Lopes.

Dívidas

De acordo com Kilvia Sousa Cardoso, secretária executiva da Casa, "a cada ano temos lutado para renovar nossos convênios, mas nem sempre isso tem ocorrido. Por conta dessa falta de apoio financeiro, as dívidas têm aumentado. Fizemos, há poucos dias, nosso jantar anual para angariar fundos, além de campanhas realizadas, ao longo do ano, para nossa manutenção; o que tem sido cada vez mais difícil", admite a secretária.

Kilvia finaliza. "Nosso convênio com o município foi renovado, mas as dívidas continuam. As dez crianças que hoje aqui estão precisam muito desse apoio. Receio que todo o trabalho realizado, lamentavelmente chegue ao fim".

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