Bom Jesus das Dores

Capela bicentenária é desconhecida

O local já foi um grande centro de peregrinação, mas, hoje, praticamente os moradores do entorno o visitam

Pouco visitada atualmente, a capela já foi alvo de grande peregrinação Fotos: Honório Barbosa A sala de ex-votos, símbolos de agradecimentos por graças alcançadas, é uma raridade na Região Centro-Sul do Estado
00:00 · 11.02.2017 por Honório Barbosa - Colaborador

Cariús Um espaço de fé e de orações, com um histórico de graças alcançadas, que no passado atraía romeiros, mas que ainda permanece isolado de elevado número de fiéis. "Poucas pessoas vêm aqui, mas há muitos relatos de milagres", conta a aposentada Erilene Francelino Mendonça, 77, que desde criança frequenta a Capela de Bom Jesus das Dores, na sede do distrito de Caipu, zona rural deste Município, localizado no Centro-Sul do Ceará.

História

O templo religioso foi construído há 237 anos. São mais de dois séculos de devoção a Cristo, com o título de Bom Jesus das Dores, cuja festa religiosa transcorre no mês de novembro, no penúltimo domingo, quando se celebra Cristo Rei. "É uma festa bem participativa, vem gente dos sítios, de cidades vizinhas", conta a professora Keliane Lima, 34. A programação inclui novenas, procissão, missa e louvores.

Erilene Mendonça guarda lembranças da história do lugar. "Antigamente, havia peregrinos, muito mais gente chegando para fazer e pagar promessas, participar das celebrações, da festa anual em memória do Bom Jesus das Dores", recorda. O advogado Mário Leal Sobrinho confirma que a capela era ponto de romaria. "Houve uma época, há mais de 50 anos, que era como Canindé, e eu me lembro de gente chegando de todos os cantos", disse. "Eu mesmo presenciei missões com Frei Damião".

Antes, a localidade era denominada de Bom Jesus do Poço do Mato. As terras pertenciam a Jucás. Com a emancipação de Cariús, instalado oficialmente em 1955, passou a pertencer a este Município. Com base na tradição e na história oral, Mário Leal conta que a imagem, que ainda hoje está fixada no altar principal da capela (Jesus na Cruz), foi encontrada dentro de um poço, no mato, onde foi erguido o templo religioso. "Minha tia, Cecem Leal, que morreu com 103 anos, costumava fazer esse relato", disse.

Foram as famílias Leal e Pinto Mendonça as principais da localidade de Poço do Mato, hoje denominada Caipu. "Meu bisavô, Manoel da Silva Pereira da Costa Leal, foi um dos construtores da capela e era pai do interventor do Ceará, general João da Silva Leal, em 1930, e do coronel do Exército, Mário da Silva Leal", frisou.

Os municípios da região pertenciam à Diocese do Crato, mas, a partir de 1961, passaram a integrar a Diocese de Iguatu, recém-criada. Houve, então, mudanças na organização das festas religiosas de padroeiros, sob a orientação do bispo da época, dom José Mauro Ramalho. "Creio que, se Caipu tivesse continuado pertencente à Diocese de Crato, as romarias e a festa teriam crescido, pois não houve incentivo, estímulo", observou.

Hoje, a movimentação é pequena no dia a dia dos moradores na sede de Caipu, nas margens da CE-060, entre Iguatu e Várzea Alegre. No entorno da capela, há dezenas de casas simples. Em frente ao templo, um cruzeiro e imagens da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. No fim da tarde e à noite, o lugar convida os vizinhos a sentarem na calçada e formarem rodas de conversa.

A modernização dos meios de comunicação já chegou à localidade. Os jovens estão interligados à Internet, por meio de telefones celulares. E é principalmente um grupo de jovens que mantém a frequência na igreja. Todos os dias, às 15h, reza-se o terço da Misericórdia. Aos domingos, celebra-se o Dia do Senhor, sempre às 19h; às segundas-feiras, há grupo de orações pela família; e às terças-feiras, tira-se o terço da família. Celebração litúrgica, somente no segundo domingo de cada mês.

A capela pertence à Paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora, em Cariús. O acesso para a sede do Município ainda é por terra. Há apenas um padre para assistir a Igreja Matriz e as capelas nos distritos, o pároco, Iranildo Reis. Por isso, só há celebração de uma missa por mês. Os moradores bem que desejam que fosse mais de uma liturgia mensal. "É uma área extensa para apenas um sacerdote, a gente compreende, mas era bom se houvesse mais missas", diz a professora Glevalda Pereira, 40.

O padre Iranildo Reis reconhece que a localidade é cheia de história e que a Capela já foi centro de peregrinação. "Hoje, a gente observa que quem vem de fora valoriza mais do que os moradores do lugar. A festa é bem participativa, com procissão e condução da imagem de Jesus na cruz". O sacerdote também acha que poderia haver mais divulgação e que muito da história se perdeu com o passar dos anos.

Singeleza

A capela dedicada a Bom Jesus das Dores é singela, típica de localidades rurais, segue um estilo dos templos erguidos no século XIX. Apresenta uma torre e uma fachada em bom acabamento. No interior, há arcadas separando o salão principal de corredores, e logo acima da porta principal, um elevado para o coro. Aos fundos, a sala dos ex-votos, onde os fiéis depositam objetos que representam partes do corpo, em forma de agradecimento de uma promessa, consagração ou renovação ao santo de devoção. Geralmente são feitos de madeira e barro.

De acordo com o arquiteto Paulo César Barreto, a arquitetura religiosa dos sertões cearenses, em geral, possui um estilo minimalista, despojado de adereços, de fácil execução e utilizando os parcos recursos materiais do lugar. "Afinal, os primeiros colonizadores tinham pressa e só podiam contar, na maioria das situações, com a mão de obra indígena", frisou Barreto.

"Aqui é uma verdadeira demonstração de graças alcançadas", observa Mailton Carneiro, 22, estudante. "É raro uma capela reunir tantos ex-votos", completa. É verdade, no âmbito da Diocese de Iguatu, somente há esse tipo de sala no Santuário do Senhor do Bonfim (Jesus Crucificado), em Icó.

A aposentada Erilene Mendonça nasceu e sempre morou em Caipu. "Há vários relatos de graças alcançadas, promessas feitas a Bom Jesus das Dores", reafirma. Ela conta um fato ocorrido com um primo que estava internado em Barbalha: "Antes da restauração da imagem principal, caiu um pedacinho da cruz, que foi levado para um parente, enfermo, internado no Cariri, com deficiência renal e que fazia hemodiálise. O pedacinho do madeira foi colocado sobre o doente, que três dias depois estava curado, sem mais necessidade de hemodiálise. Os médicos disseram que foi um milagre", contou.

O padre Ernandir Ferreira observa que há milagres reconhecidos pela Igreja Católica e muitos alcançados por intercessão dos santos, mas por obra de Deus. "Toda graça vem de Cristo, só Ele é o autor, e em Caipu, os devotos pedem diretamente a Jesus com o título de Bom Jesus das Dores", frisou. "É um súplica direta".

Paixão de Cristo

Bom Jesus das Dores relaciona-se com a Paixão de Jesus Cristo, em diferentes episódios. A imagem é de Jesus na Cruz, assim como Senhor do Bonfim. "O Piedoso, que sofreu dores na cruz", explica o padre João Batista Moreira, que lembra que, na Diocese de Iguatu, há celebração de padroeiros de Bom Jesus Piedoso em Quixelô; e de Jesus Aparecido, em Solonópole.

Os dois padres, Ernandir Ferreira e João Batista, reconhecem que historicamente não há, no âmbito da Diocese de Iguatu, impulso para divulgação de centros de milagres, incentivos de romarias, caminhadas. "Geralmente, são fenômenos que nascem do povo, que vai nutrindo uma experiência popular de caminhada, de celebrações e depois a Igreja abraça", disse Batista. "Esse caso de Caipu pouco é conhecido até pelos padres atuais, a existência da sala de ex-votos, mas que poderia ganhar uma dimensão maior".

São os jovens atualmente que mantêm frequência e movimentam a capela com orações e louvores. Letícia Alves, 16, estudante, participa diariamente do Terço da Misericórdia e coordena o Ministério Jovem. "A fé de cada um só Deus sabe e, quem acredita vem aqui e alcança graças", disse. A professora Keliane Lima, 34, desde 1995 passou a morar na localidade. "Sempre ouço relatos de graças alcançadas", frisou.

Os irmãos, Mailton, 22; e Antonio Carneiro, 20, ajudam a cuidar da capela com serviços de zeladoria, cânticos e organização de celebrações. Taylor Rafael Alves, 11, é coroinha, e participa ativamente de grupo infantil de programação religiosa. "A fé, a tradição vai se renovando com esses jovens", observa a aposentada Erilene Mendonça.

Depoimentos

Histórias de devoção

"Essa capela é uma das mais antigas da região e tem uma história de muitos milagres alcançados, depósitos de ex-votos de fiéis que voltaram para agradecer e reconhecer a força da graça de Bom Jesus das Dores, que é muito piedoso"

Erilene Mendonça
Aposentada

senhora

"Nós jovens estamos dando continuidade a essa tradição, à nossa fé católica. Participamos de orações todos os dias e mantemos a fé inabalável em Bom Jesus das Dores. Esperamos que esse lugar volte a ser espaço de romaria e tenha maior participação de devotos"

Letícia Alves
Estudante

menina

Fique por dentro

Tradição vem da colonização portuguesa

A devoção ao Senhor Bom Jesus possui suas raízes em Portugal, de onde foi levada aos países de colonização portuguesa, como o Brasil. Sob essa invocação, venera-se a imagem de Jesus Cristo, especialmente em diferentes episódios de sua Paixão.

Trata-se de uma prática religiosa muito antiga, que participa da memória de diferentes localidades, de todos os Estados do Brasil. Os primeiros vestígios do culto ao nosso Senhor Bom Jesus, no Brasil, remontam ao século XVII, se organizando junto com os primeiros lugarejos que se tornaram cidades importantes.

A devoção ao Bom Jesus é voltada ao mistério da Paixão e Morte de Jesus Cristo, destacando o aspecto da representação vivenciada do próprio drama do Calvário. Os quatro eventos enfocados são: Coroa de espinhos e Flagelação de Jesus, Jesus carregando a Cruz, Crucificação de Jesus.

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