PROJETO SOCIAL

Arte com grafite em Caucaia

20:31 · 25.08.2010
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Um dos objetivos é promover discussão acerca de temas contemporâneos, como o uso das drogas

Fortaleza O que antes poderia ser mais um espaço para pichação, torna-se em obra de arte. Muitos espaços públicos do Município de Caucaia, principalmente as escolas estaduais e o anfiteatro, ganharam nova roupagem com a intervenção do projeto de grafite pelos jovens da cidade. Agora, as cores dão vida ao cenário urbano.

Iniciado em 2008, o projeto de arte com grafite já atendeu a mais de 200 adolescentes, de acordo o coordenador do projeto, Silvano Tomaz, também Bacharel em Artes Visuais pela Faculdade Integrada da Grande Fortaleza (FGF) e especialista em Metodologia do Ensino das Artes pela Uece. Para ele, o sucesso no projeto é resultado de uma didática diferenciada, baseada na integração dos jovens e na perspectiva de que cada participante tem uma oportunidade com a arte do grafite.

"Temos muitos alunos com habilidade para o grafite, mas faltava a prática. Por isso, o curso ajudou bastante na formação de novos grafiteiros", conta. O primeiro passo foi identificar os jovens de Caucaia que pichavam os prédios públicos para, posteriormente, incentivá-los a transformar esta prática em arte. Assim, muitos deles deixariam a ociosidade para iniciar uma carreira e, consequentemente, ganhar dinheiro pelo trabalho de grafite.

"Iniciei o trabalho com o grafite perguntando aos jovens o que eles mais gostam de fazer, para identificar a preferência de cada um", conta o coordenador do projeto. Para promover o curso, Silvano Tomaz conta que todo o material é cedido pela Secretaria de Cultura do Município, como forma de reconhecimento que o grafite também é uma extensão da escola, à medida que os jovens se dedicam a uma arte e são qualificados para este tipo de trabalho.

Início

"Começamos o trabalho só com uma escola e hoje já temos turmas pela manhã e a tarde e já formamos cinco turmas, totalizando 200 alunos", relembra o coordenador do projeto. Até o momento, foram pintados cinco espaços públicos: as escolas José Sarney, no Araturi; Branco Carneiro de Mendonça, no Centro; Edson Correia, em Icaraí; 7 de Setembro, na sede da cidade, além do anfiteatro. Os jovens pintam personagens característicos da cultura nordestina, como vaqueiros, além de outros personagens, a exemplo de Lampião e Maria Bonita, Luiz Gonzaga, Waldonys, Rodolfo Forte e o poeta Patativa do Assaré.

A intenção, de acordo com Silvano Tomaz, é fazer com que os jovens tenham a valorização pela cultura nacional. Com isso, evita-se a propagação do "americanismo" nas pinturas expostas nos prédios públicos. "Queremos a valorização da nossa cultura, da nossa identidade. Por isso, nada de cultura de outro país, principalmente os Estados Unidos", esclarece.

Com os resultados obtidos no projeto de grafite, o coordenador acrescenta, ainda, que os professores das escolas passaram a dar credibilidade para a arte de rua. "Hoje, reconhecem que fazem um grande trabalho", pondera.

Mas para atingir este objetivo, Silvano Tomaz diz que é preciso ter dedicação. "Muitos alunos quando descobrem que podem estudar artes na escola, aproveitam. Mas com o grafite é diferente. Não é só dar aula de grafite, mas fazer com que esta nova prática seja uma oportunidade de vida", comenta. E completa, ao argumentar que "a educação ensina a ler e a escrever e a arte ensina a enxergar além da educação".

Humanização

Da mesma forma que a arte em grafite embeleza os espaços públicos. "Com o grafite, promovemos a humanização dos espaços públicos no Município para que as pessoas tenham o primeiro contato com a arte. Alguns moradores nunca visitaram uma exposição ou galeria", diz.

Além disso, outro objetivo do projeto é promover uma discussão acerca de temas contemporâneos, como o uso das drogas. "Passamos a conscientização para os jovens grafiteiros".

No entanto, por mais que haja conquistas com o grafite, os desafios ainda são constantes para o coordenador do projeto. Com o desenvolvimento da iniciativa, a meta é fazer com que Caucaia venha a ser uma cidade com destaque nacional para a arte em grafite. "Temos que quebrar com algumas barreiras culturais e fazer com que o circuito nacional das artes contemple a cidade de Caucaia.

PROFISSÃO
Materiais usados têm baixo custo

Fortaleza
O projeto em grafite, promovido em Caucaia pelo artista Silvano Tomaz, também tem o objetivo de proporcionar aos alunos uma maneira de investir na arte do grafite com materiais de baixo custo. Com o aprendizado da técnica, os alunos têm a oportunidade de executar inúmeras maneiras de investimento lucrativo.

No curso, os alunos aprendem as diferentes modalidades. São elas: Grafite 3D, com desenho concebido a partir de ideias visuais de profundidade sem contornos, o que exige domínio técnico do grafiteiro na combinação de cores e formas; WildStyle, cujo formato é em letras distorcidas, em forma de setas, que quase cobrem o desenho; Bomber, com uso de letras gordas e que parecem vivas geralmente feitas com duas ou três cores; letras grafitadas, com incorporação das técnicas do grafite á pichação.

As letras grafitadas representam a assinatura do grupo. Tem também a modalidade em grafite artístico ou livre figuração, dos quais se pode fazer caricaturas, personagens de história em quadrinhos, figurações realistas e também elementos abstratos; há o grafite com máscaras e spray para facilita a rápida execução e disseminação de uma marca individual ou de grupo. Todas as modalidades são repassadas aos estudantes, para que possam utilizá-las enquanto realizam sua atividade nos espaços públicos do Município.

Origem

A palavra grafite é de origem italiana e significa "escrita feita com carvão". Os antigos romanos tinham o costume de escrever manifestações de protesto com carvão nas paredes de suas construções. Tratavam-se de palavras proféticas, ordens comuns e outras formas de divulgação de leis e acontecimentos públicos. Alguns destes grafites ainda podem ser vistos nas catacumbas de Roma e em outros sítios arqueológicos espalhados pela Itália. Na década de 1960, jovens do Bronx, bairro de Nova Iorque (EUA), restabeleceram esta forma de arte usando tinta e spray. Para muitos, o grafite surgiu de forma paralela ao hip hop. Muitos grafiteiros europeus e norte-americanos conseguiram mostrar suas obras além das fronteiras.

Enquete
Oportunidade

Silvano Tomaz
Coordenador do Projeto

"Começamos o trabalho só com uma escola e hoje já temos turmas pela manhã e à tarde, com mais de 200 alunos"

Italo Soares
Grafiteiro
23 anos

No começo sentia muita admiração pelos grafiteiros, mas não tinha a prática da arte. E de lá pra cá mudou muita coisa

Maurício Vieira
Repórter

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