Aboiador mantém tradição - Regional - Diário do Nordeste

CENTRO-SUL

Aboiador mantém tradição

25.08.2008

HONÓRIO BARBOSA
Mesmo com as mudanças, em Acopiara, Pedro Coelho lembra, com saudade, de seu tempo como vaqueiro

Acopiara. A modernização do campo mudou vários hábitos e costumes no jeito de plantar, cuidar do gado e cozinhar os alimentos. Até em um passado recente, era comum os vaqueiros conduzirem a boiada montados a cavalo e alguns usavam roupas de couro. Nos tempos atuais, a moto substituiu o animal; a camiseta, o gibão. Quase não se ouve mais aboios no sertão cearense.

Na região Centro-Sul, por exemplo, a figura do vaqueiro tradicional, com vestimenta de couro praticamente desapareceu. No município de Acopiara, Pedro Coelho da Silva, 65 anos, mantém, entretanto, a tradição, no Sítio Logradouro. É um vaqueiro aposentado, mas que guarda todos os apetrechos do tempo em que trabalhava tangendo o gado para o curral ou conduzindo a boiada para roças de melhor pasto, no tempo de seca, entre os municípios do Sertão Central.

Além de vaqueiro, Pedro Coelho é aboiador. É bem verdade que os aboios diminuíram na lida com o gado, mas nos últimos anos cresceram os convites para participar de vaquejadas, programas de rádio e de apresentações culturais diversas, dividindo espaço com violeiros e cantadores de repente. “Sou um vaqueiro-aboiador que trago boas e grandes recordações do meu trabalho no sertão”, diz. “Comecei menino, no mocotó do meu avô, tangendo boiada e aos 15 anos despertei para o aboio”.

No sertão, filho de agricultor começa trabalhar cedo. Ainda menino ajuda os pais no plantio, na capina e na colheita de grãos. Vai crescendo e já tem roça para plantar. Pedro Coelho foi um desses meninos. Adolescente, ouvia o vaqueiro Raimundo Bastim, de Solonópole, aboiar para tanger o gado. Na mesma época, escutava, em casa, aboios na antiga Rádio Iracema, de Iguatu, e na Rádio Alto Piranha, de Cajazeiras, na Paraíba.

Versos

Nessa época, percebeu que também conseguia fazer alguns versos. “A gente improvisa e vai decorando”, diz. “Vi que conseguia também fazer toadas”. E fez. Depois de ver e ouvir aboiadores, começou a praticar no campo, tangendo gado. O gosto foi crescendo e tomou conta da mente e do coração de Pedro Coelho. Quando percebeu, ele estava em programas de rádio, em vaquejadas, tangendo gado e aboiando.

Durante décadas, Pedro Coelho exerceu a profissão de vaqueiro, na região Centro-Sul e Sertão Central. Trabalhou para Emídio Venâncio, ajuntando gado e embarcando em trem, comercializando para Fortaleza. Não esquecia a agricultura e sempre encontrava tempo na época de chuva para o plantio de milho, feijão e algodão.

O trabalho em excesso, não lhe deu oportunidade de estudar. “Sou analfabeto, não sei ler nem escrever nada, só o meu nome que decorei”, diz. “Ainda tentei aprender, mas deu um aperto aqui na cabeça e desisti”. A professora particular foi dispensada. Permaneceu, entretanto, o dom para o improviso do repente em tom e formato de aboio.

“Quando a gente plantava algodão era um tempo bom”, recorda. “O algodão era o boi do pobre”. Depois, passou a correr em vaquejadas, competindo nas derrubadas de boi. Parou há 20 anos. “Hoje não dá mais porque tá muito caro”, justifica. “Ainda pela idade dava para participar, mas a inscrição tem um preço muito elevado”, reclama ele.

As vaquejadas modernizaram-se e não há mais espaço para o vaqueiro aventureiro, solitário. “Fui assistir uma vaquejada em Jaguaribara, mas o dinheiro era pouco e não deu para disputar”, contou. “Sonho com a luta no gado, os desafios e os perigos que enfrentei na Caatinga”, lembra o aboiador.

Em casa, morando sozinho, no Sítio Logradouro, Pedro Coelho guarda num cambito de cinco ganchos os apetrechos do vaqueiro: chocalhos e as vestimentas de couro, gibão, perneira, guarda-peito, chinelo, bota de cano curto, chapéu e chicote. Mostra com orgulho as peças feitas com caprichos e que estão gastas pelo uso. Tem prazer em vestir e montar no cavalo de estimação.

O vaqueiro lembra que até meados dos anos 80 havia aboiadores nas vaquejadas, mas que agora está desaparecendo. “Por aqui não tem mais vaqueiro encourado”, diz. “Ainda tem alguns em Tauá, Jaguaribe e Mombaça”. Apesar de aposentado, Pedro Coelho continua plantando e cuidando de umas 15 vaquinhas.

Aboio

O aboio é um canto poético do vaqueiro, ecoado pelas estradas e veredas na condução do gado. É um canto de trabalho, improvisado. Sempre em contato com a natureza, a boiada, a vida e os amores. É antigo e vem desde a época do ciclo do couro, no século XVII, nos sertões nordestinos, quando os bovinos eram criados soltos, na Caatinga, e era usado como forma de reunir e tanger os animais. O pesquisador Câmara Cascudo definiu: “É um canto sem palavras, marcado exclusivamente em vogais, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado”, afirmou ele.

HONÓRIO BARBOSA
Repórter


Mais informações:
Vaqueiro e aboiador Pedro Coelho, do município de Acopiara, no Centro-Sul do Ceará
(88) 9901.8801-Jardel
(88) 3565.0664 - Pinto

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