POSSE IRRESPONSÁVEL

Abandono de gatos é problema de saúde pública

01:43 · 15.11.2010
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Além de provocar sofrimento aos animais, jogar gatos nas ruas favorece transmissão de doenças para as pessoas

Fortaleza. A quantidade de gatos abandonados nas ruas é problema de saúde pública que ainda não sensibiliza a sociedade e as autoridades na busca de uma solução efetiva. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam, em países pobres e emergentes como o Brasil, a proporção de 15 filhotes de cães e 45 de gatos para cada bebê nascido.

No caso dos felinos, a reprodução sem controle torna-se mais grave diante da frequência dos períodos de cio. De acordo com a médica veterinária Ticiana Franco, pós-doutoranda em Reprodução Animal da Faculdade de Veterinária da Universidade Estadual do Ceará (Favet-Uece), a nossa "Terra do Sol" favorece o cio das gatas. "Nas nossas condições climáticas de luz contínua o ano inteiro, este ciclo estral se repete a cada 21 dias", afirma.

A presidente da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa), Geuza Leitão, não tem dúvidas. "Por mês, milhares de gatos são jogados nas ruas". Em Fortaleza, onde as pessoas cada vez mais optam por morarem em apartamentos, a posse irresponsável de animais faz com que, diariamente, filhotes sejam jogados em áreas como Parque do Cocó, Praça Eudoro Correia, Parque Parreão, cemitérios públicos e áreas de lazer em geral. "Há pessoas de bom coração, quase sempre pobres, que chegam a levar 30, 40 gatos para criarem em casa. Porém, não têm condições de esterilizar os animais, que continuam se reproduzindo mais e mais. Em pouco tempo, voltam a morar nas ruas porque as famílias não têm condições de mantê-los", afirma Geuza.

Ticiana Franco explica que a o cio das gatas dura de quatro a cinco dias, período em que a fêmea aceita a cópula dos machos. A fertilidade da espécie é grande e a fêmea poderá parir ninhada média com seis filhotes a cada dois a três meses.

A omissão diante do problema expõe os animais e os próprios seres humanos a algumas zoonoses. A veterinária explica que, além das verminoses, doenças fúngicas simples, sarna e a raiva, já passadas também pelos cães, os gatos podem transmitir, quando infectados, a esporotricose, a criptocose e a toxoplasmose. "Gatos abandonados nas ruas ou que são domiciliados, mas têm acesso à rua, possuem maior probabilidade de estarem infectados com qualquer uma destas doenças", adverte Ticiana.

Na sua avaliação, há solução para o problema, ainda que de longo prazo. No entanto, para que as ações sejam viáveis é necessário um envolvimento sério e contínuo da sociedade e dos governos municipal, estadual e federal, por meio de seus órgãos públicos. Ela aponta não haver uma solução única, mas um conjunto de medidas, tais como um amplo programa de recolhimento de animais para abrigos públicos, com recuperação do estado clínico dos mesmos, já que a maioria apresenta as mais diferentes doenças. A medida deve ser acompanhada pela castração em massa com a doação e acompanhamento do animal no novo lar.

A esterilização dos gatos ainda é a medida mais eficaz para o atual problema, também defendida por ONGs. A Uipa é uma das pioneiras na ação. Segundo Geuza, a entidade mantém parceria com o veterinário Péricles Duarte Portela para cirurgias de castração, toda terça-feira, em sua residência. Como forma de garantir a segurança na sua casa, ela só está aceitando animais encaminhados por pessoas conhecidas. Anteriormente, a Uipa já chegou a fazer cerca de 220 cirurgias por mês. Agora, só realiza cerca de 80.

Além do atendimento semanal, a voluntária da entidade, Eulina Gondim, realiza em sua casa mutirão no último sábado de cada mês a preços acessíveis a famílias de baixa renda.

A Faculdade de Veterinária da Uece programa, com o Centro de Controle de Zoonoses de Fortaleza, um convênio de cooperação, para realizar 150 cirurgias de esterilização de cães e gatos. O convênio, que tem participação da Uipa na definição, aguarda posição na Procuradoria Geral do Município.

Segundo o diretor da Favet, professor Célio Pires, o hospital veterinário da Faculdade já realiza, em pequena quantidade, o procedimento gratuito para famílias de baixa renda, a partir de parceria mantida com entidades protetoras de animais, como o Grupo de Apoio e Bem-Estar Animal (Gaba). Porém, conforme ele avalia, a falta de apoio financeiro limita a atividade.

Bichos de estimação

Veja mais sobre animais de estimação no blog Bem-Estar Pet

http://blogs.diariodonordeste.com.br/bemestarpet - twitter @valerianfeitosa

Alerta

"Realizamos castração em pequena quantidade porque não temos apoio financeiro"

Célio Pires
Diretor da Faculdade de Veterinária (Favet) da Uece

"Gatos abandonados nas ruas têm mais probabilidade de estarem com zoonoses"

Ticiana Franco
Médica veterinária e pós-doutoranda da Favet-Uece

"Por mês, milhares de gatos são jogados nas ruas, em praças e áreas de lazer"

Geuza Leitão
Presidente da União Internacional de Proteção aos Animais (Uipa)

MAIS INFORMAÇÕES

Faculdade de Veterinária da Uece - Campus do Itaperi - Fortaleza
(85) 3101.9831/ 3101.9834
Uipa - (85) 3261.3330

VALÉRIA FEITOSA
EDITORA DO REGIONAL

Doutor Vet responde
Leishmaniose visceral

"Uma das zoonoses mais comuns no Cariri é a Leishmaniose. Gostaria de saber quais as medidas preventivas, além da vacina", quer saber Fernando Vieira, presidente do Kennel Clube do Cariri.

As leishmanioses são enfermidades causadas por diferentes protozoários do gênero Leishmania. A doença pode se manifestar sob três formas, sendo que a leishmaniose visceral assume mais importância no Brasil, em função do seu aspecto clínico, da sua transmissibilidade e do seu potencial zoonótico, consistindo num grave problema de saúde pública. O crescimento dos centros urbanos e as dificuldades sócio-econômicas permitiram a expansão dessa parasitose para as áreas da periferia, com o aparecimento de casos autótocnes.

Os principais responsáveis pelos níveis epidêmicos da leishmaniose visceral nos grandes centros são o estreito convívio entre o homem e os reservatórios caninos, o aumento da população de mosquitos, o desmatamento acentuado e/ou o constante processo migratório. Nessas áreas o cão é o principal elo na cadeia de transmissão.

Os protozoários são transmitidos para o homem e para cães, através da picada de mosquitos flebotomíneos, conhecidos popularmente como mosquito palha. Além do homem e do cão, outras espécies animais como gato, roedores, canídeos selvagens e marsupiais podem ser naturalmente infectadas.

A infecção em geral causa uma doença sistêmica de curso crônico. O cão pode apresentar diversos sinais clínicos como lesões na pele, emagrecimento, apatia, crescimento exagerado das unhas, febre irregular, linfoadenopatia, diarreia e outros, mas esses sinais podem ocorrer em outras doenças e isso dificulta o estabelecimento do diagnóstico clínico.

Para a confirmação da leishmaniose é necessário recorrer a exames laboratoriais, dentre eles o exame parasitológico e as técnicas sorológicas constituem ferramentas importantes. As principais medidas de controle a serem adotadas são: uso de proteção individual (mosquiteiros, repelentes, telas nas janelas e portas), uso de inseticidas, diagnóstico precoce e tratamento dos casos humanos e a identificação e eliminação do reservatório doméstico. Esta última medida não tem sido totalmente efetiva, uma vez que a transmissão de doenças através de vetores biológicos associada a reservatórios domésticos e a aspectos ambientais é de difícil controle.

A vacinação requer um protocolo e só pode ser ministrada na dependência de várias condições. Aliado a isso, o Ministério da Saúde lançou muitas controvérsias relativas ao seu uso e a proteção que ela confere aos animais e hoje o uso não é recomendado, uma vez que o cão estará positivo quando for submetido a um exame sorológico para detectar a doença.

O animal suspeito deverá ser encaminhado ao centro de controle de zoonoses do Município para a confirmação ou não da doença.

*Médica Veterinária, doutora em Doenças Parasitárias da Faculdade de Veterinária da Universidade Estadual do Ceará. Esta coluna é mantida por meio de uma parceria com a Favet-Uece. Criadores interessados em tirar dúvidas sobre seus animais, nas mais variadas áreas da Veterinária, podem contatar o e-mail anavaleria@diariodonordeste.com.br ou o telefone (85) 3266.9790 ou 3266.9771.

MARIA VERÔNICA MORAES CAMPELLO*

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