Deputados preocupados

Violência na Capital pode afetar campanhas

Para parlamentares, a atuação de facções criminosas altera rotinas e dificulta ações em bairros de Fortaleza

Alguns dos que disputarão reeleição para manter suas cadeiras na Assembleia dizem já se deparar com desafios no contato com o eleitorado ( Foto: José Leomar )
01:00 · 27.04.2018

Deputados estaduais cearenses com boa votação em Fortaleza no último pleito temem, neste ano, ações criminosas durante os eventos de campanha em determinados bairros da cidade. Eles falam que rotinas tiveram que ser mudadas. Há, inclusive, quem admita a necessidade de uma "pactuação" entre políticos e criminosos para a realização de alguns eventos.

Ao Diário do Nordeste, deputados da base governista lamentaram que, apesar dos esforços do Governo do Estado, pouco mudou nos últimos anos no que diz respeito à segurança de localidades da Capital e, em alguns casos, a violência piorou. O petista Elmano de Freitas, por exemplo, relatou que em 2012, quando foi candidato a prefeito de Fortaleza, tiros foram disparados durante passeata e a comitiva teve que se dispersar.

Seis anos depois, como deputado estadual, Elmano destacou que a rotina em algumas comunidades foi alterada e, em determinadas localidades, ele teve que mudar o horário de encontros com moradores. "Antes eu fazia reuniões em qualquer horário, mas agora me limito a fazer no período da tarde, porque à noite as pessoas não querem ir".

O deputado José Sarto (PDT), que já está no sexto mandato na Assembleia, disse que tem percebido a atuação cada vez mais frequente de "comandos paralelos", principalmente, na periferia de Fortaleza. De acordo com ele, parlamentares que têm votos em "regiões dominadas pelo crime sofrerão as consequências das ações de bandidos e tenderão a perder votos nessas localidades".

"Vamos ter muitas dificuldades, porque, quando vai se fazer uma reunião em determinado, os próprios moradores têm temor. Um evento como o Dia das Mães, por exemplo, tem que ser mais ou menos pactuado com o tráfico. Lamentavelmente, essa é a realidade, mas como se vai entrar e chegar à população?", questionou José Sarto.

Pressão

Segundo alguns parlamentares, a situação crítica em algumas áreas, principalmente na Capital, não será resolvida até a disputa eleitoral de outubro, o que pode fazer com que muitos candidatos sofram alguma pressão por parte dos chamados comandos durante a disputa. "Esse é um problema que deve atingir mais diretamente quem tem militância na periferia".

Elmano de Freitas, por sua vez, disse que os políticos terão que se adaptar a algumas realidades da cidade. "Não podemos deixar de fazer nosso trabalho, mas tem bairros em que faço reunião só até as 17 horas, porque em determinado local um morador não pode passar. A gente vai se adaptando, mas isso já nos afeta há algum tempo".

O deputado Lucilvio Girão (PP) também afirmou que tem enfrentado tal situação. Ele relatou que foi convidado para um evento no bairro Pirambu, em comemoração ao Dia das Mães, e comparecerá ao local mesmo diante de "riscos".

"Já estamos sentindo isso há algum tempo. Me chamaram para o Gueto, lá no Pirambu, e eu sei que corro risco, mas temos que ir, porque somos parlamentares". Para Girão, o governador Camilo Santana (PT) tem investido na área da Segurança Pública, mas os resultados ainda seriam "pífios" por conta de uma "herança maldita" que o gestor teria recebido de antecessores.

Deputados têm observado cenário semelhante no Interior do Estado. Sérgio Aguiar (PDT) disse que já viu, em um distrito do Município de Morrinhos, inscrições em muros que indicam ação de grupos criminosos organizados. Ele ressaltou, porém, que o Governo do Estado tem buscado implementar unidades de segurança em áreas dominadas pelo crime a fim de garantir segurança para a população.

Impedidos

Capitão Wagner (PROS) relatou que, em 2016, durante carreata na disputa pela Prefeitura de Fortaleza, no bairro Padre Andrade, pessoas armadas ameaçaram sua comitiva. Para ele, 2018 será um ano difícil para buscar votos em áreas dominadas pelo tráfico. "A gente vai ter muita dificuldade, e muitos não vão se arriscar, a não ser que tenham alguma garantia nesses locais", projetou. Ely Aguiar (PSDC) também disse acreditar que muitos políticos serão impedidos de visitar algumas comunidades.

Ex-vereador de Fortaleza, Heitor Férrer (SD) afirmou que tem observado tal dificuldade em toda a cidade. Segundo ele, o deputado que necessitar andar pela Capital na campanha terá contratempos na hora de pedir votos. "Onde andei na eleição passada, hoje tenho receio de andar".

Líder do Governo na Assembleia, Evandro Leitão (PDT) afirmou que não teve qualquer problema do tipo em suas atividades políticas, mas salientou que, devido ao cenário de violência, isso poderá acontecer. "Espero que não venha influenciar no trabalho de nossos colegas que são candidatos ao pleito", frisou.

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