Partidos de volta ao governo

Reconciliações expõem fragilidade de discursos

Para analistas políticos, mudanças de posições refletem a volatilidade de discursos políticos ante ambições eleitorais

O deputado federal Genecias Noronha, presidente do Solidariedade no Estado, e o conselheiro em disponibilidade do TCE, Domingos Filho, cuja família comanda o PSD, deixaram as fileiras da oposição em maio último ( Fotos: Saulo Roberto/JL Rosa )
01:00 · 09.06.2018 por William Santos - Editor assistente

Quanto tempo dura um posicionamento político? A questão pode causar estranhamento, mas voltou a emergir, nas últimas semanas, a partir do desembarque de duas siglas da oposição no Ceará. Rompidos com o Governo Camilo Santana (PT) em momentos diferentes do atual mandato do petista, líderes do PSD e do Solidariedade (SD) no Estado, nos últimos meses, não pouparam críticas à gestão estadual e acompanharam, de perto, as dificuldades e os esforços do grupo oposicionista liderado pelo senador Tasso Jereissati (PSDB) para a formação de uma chapa majoritária rumo à eleição de outubro próximo. O lado escolhido para disputar o pleito parecia definido, até que, no último mês de maio, tudo mudou. 

Às vésperas das convenções partidárias que oficializarão, entre 20 de julho e 5 de agosto, as candidaturas e as coligações, os ex-adversários voltaram à base governista, em uma movimentação que expõe a volatilidade de discursos políticos ante ambições eleitorais. Analistas políticos entrevistados pelo Diário do Nordeste apontam que as mudanças frequentes de posições políticas, nada novas, são reflexos do sistema político-partidário brasileiro, caracterizado pela individualização de interesses, que ignora a coerência de posicionamentos e, muitas vezes, de cargas ideológicas em nome de conveniências eleitorais.

> Críticas de políticos não se convertem em mudanças

Na mais recente debandada de oposicionistas para a base aliada do governador, Domingos Filho, conselheiro em disponibilidade do Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE-CE), cuja família tem controle sobre o PSD no Estado - o presidente estadual do partido é o filho dele, o deputado federal Domingos Neto -, e Genecias Noronha, também deputado federal e presidente do SD no Ceará, desembarcaram, no mês passado, da fragilizada oposição e voltaram ao robusto arco de aliança de Camilo Santana.

Efemeridade

Os respectivos rompimentos não duraram muito tempo: o PSD havia deixado a base aliada no fim de 2016, quando da eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. Domingos Filho, à época conselheiro do extinto Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), apoiou o nome do deputado estadual Sérgio Aguiar (PDT), filho do então conselheiro do TCM Francisco Aguiar, para a presidência da Casa, indo de encontro à posição do Governo do Estado, que apoiou Zezinho Albuquerque (PDT), vencedor da eleição.

Domingos, então, levou o PSD para a oposição e, durante a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que veio a extinguir o TCM, acumulou críticas e ataques à gestão estadual. Pouco depois de um ano, porém, reaproximação com o ex-governador Cid Gomes (PDT), líder do grupo governista, o fez voltar à posição de aliado do governador, em maio. Agora, ele trava batalha judicial para, mesmo com impedimento do cargo de conselheiro, poder disputar cargo no Legislativo.

Já o Solidariedade, embora tenha composto a coligação vitoriosa de Camilo Santana em 2014, desde a última eleição já fazia oposição ao governo estadual, uma vez que o adversário do petista, no pleito passado, foi o senador Eunício Oliveira (MDB), de quem Genecias Noronha é aliado. Na oposição, o parlamentar defendia que o candidato a governador fosse o deputado estadual Capitão Wagner (PROS) ou o próprio senador Tasso Jereissati.

Não o sendo - o pré-candidato é o general Guilherme Theophilo, do PSDB - Genecias Noronha saiu de vez do bloco oposicionista, no qual já não estava por inteiro, pois permaneceu alinhado a Eunício após o emedebista ter deixado o grupo para investir em aproximação com o governador Camilo Santana.

O cientista político Rui Martinho, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), ressalta que alianças em política "não são novidade", mas observa que deter-se à "natureza das aproximações" entre ex-adversários revela distorções sobre como são costurados acordos políticos no Brasil. "O Getúlio (Vargas) dizia que não havia inimigo com quem ele não pudesse se reconciliar, nem amigo com quem não pudesse romper. O problema é: qual é a natureza da aproximação? Se trata de uma aproximação programática, ideológica, ou baseada em interesses de grupos particularistas, interesses eleitorais?", questiona.

No caso das recentes saídas do PSD e do SD da oposição, ele avalia que interesses eleitorais se sobrepuseram a eventuais incoerências. "Não se ouviu falar em uma discussão programática nem na época do rompimento nem agora, no reatamento. Não houve mudança de ideologia dos atores políticos. A impressão que dá é de mudança prática, de conveniência eleitoral".

Para o cientista político José Roberto Siebra, professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), a naturalização de tais comportamentos aponta para um sistema político "caracterizado pela individualização dos procedimentos". Ele considera que, até o momento, não há, por parte dos detentores de mandatos eletivos, interesse em modificar o modus operandi vigente, que dá espaço ao "oportunismo" e ao "cinismo" evidentes, conforme diz, em negociações políticas.

"É um sistema que não permite grandes debates. É irracional. Evidentemente, essa irracionalidade existe para atender alguns interesses", critica. "Esses caras passaram quanto tempo batendo no Camilo e se articulando? De repente, voltam para o barco de Camilo Santana. O que está aí, claramente, são os interesses particulares, individuais".

Interesses

Já o sociólogo Clésio Arruda, professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), analisa que as mudanças constantes de posicionamentos políticos são guiadas por fatores semelhantes aos que determinam as recorrentes trocas de partidos no País. "Isso denota que a gente não tem, com raríssimas exceções, partidos com uma definição ideológica mais precisa. Essa lei muito frouxa possibilita a participação, na vida política brasileira, de legendas sem muita representatividade, o que acaba contribuindo para que a gente tenha siglas que funcionam muito mais como moeda de negociações".

Tempo de propaganda em rádio e televisão e a distribuição de recursos do fundo partidário, menciona o sociólogo, são critérios que ganham mais importância nas movimentações pré-eleitorais, em uma "estrutura política" que não é uma particularidade do Ceará. "É uma questão nacional a fragilidade da estrutura política que resvala para os partidos, e a gente passa a ter os interesses pessoais muito acima dos interesses dos grupos, dos interesses mais amplos", avalia.

Embora seja um fenômeno nacional, Rui Martinho considera que, no Ceará, há, ainda, outros elementos que contribuem para a fragilização da oposição a partir de dissidências: a postura do governador Camilo Santana, que, conforme avalia, "facilita o tráfego de alianças", e a dependência financeira que municípios têm em relação ao Governo do Estado, acentuada no atual cenário de crise econômica. "Essa dependência faz com que o Ceará não tenha oposição. Só tem um partido, que é o partido governista, e isso não é de hoje, é coisa antiga", resgata.

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