Abordagens a políticos e autoridades

Protestos espontâneos pelo País potencializam descrédito

Analistas políticos avaliam que a exposição de críticas é fruto da crise, mas alertam para os riscos da violência

01:00 · 28.04.2018 por William Santos - Editor assistente

No Brasil e também no exterior, têm sido cada vez mais comuns episódios de protestos não organizados contra políticos, magistrados e outras autoridades. As abordagens - em aeroportos, restaurantes, eventos fechados, nas ruas e em outros lugares - em tom de cobrança, crítica e, em alguns casos, indignação, tornam-se virais na Internet e se multiplicam por diversos espaços como reflexo da atual crise de representatividade política no comportamento do eleitor.

Para analistas políticos entrevistados pelo Diário do Nordeste, olhar para tais manifestações é deparar-se com diversos elementos que contribuem para a exacerbação de um descontentamento do eleitorado em relação à classe política e às instituições brasileiras. Conforme avaliam, porém, é tênue a linha entre a expressão de opiniões políticas e a propagação de discursos de ódio que podem gerar violência e intolerância no atual cenário de polarização política.

Os alvos mais recentes de um episódio de protesto espontâneo foram os senadores Eunício Oliveira (MDB-CE), Jorge Viana (PT-AC) e Antônio Anastasia (PSDB-MG), em viagem para um intercâmbio parlamentar no Japão, neste mês. Quando faziam escala em Dubai, os três foram abordados por dois brasileiros, enquanto um terceiro gravava a ação. Os homens fizeram críticas e questionaram posicionamentos dos parlamentares no Congresso Nacional.

"O povo acha que vocês estão lutando pelos direitos do povo, e esse aqui ainda tem a cara de pau, esse vagabundo, de me dizer que 90% do Congresso está certo", disse um deles, apontando para Eunício Oliveira. "Se vocês não roubassem o que roubam, o Brasil estaria melhor. Bando de ratos nojentos, seus vagabundos!", protestou outro.

Judiciário

A ocorrência de situações semelhantes não se resume a políticos. Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes é outro alvo recorrente de manifestações de eleitores. "O senhor é de uma injustiça imensurável. Inclusive, o senhor deve estar querendo se disfarçar aqui, andando como um comum dos mortais, coisa que não é", afirmou ao magistrado uma brasileira que o abordou em uma rua de Lisboa, em Portugal, no mês de janeiro. "O senhor não tem vergonha do que faz pelo País?", indagou outra. O episódio, assim como tantos outros, não demorou a gerar repercussões nas redes sociais.

Em ano eleitoral, caso de 2018, tal cenário deve ser mais latente, projeta o cientista político Edir Veiga Siqueira, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA). Isso porque, segundo ele, desde as eleições de 2014, mais evidentemente de 2016 para cá, o Brasil tem enfrentado um "conjunto de fatores" que coloca a classe política em xeque frente ao eleitor, seja o Poder Legislativo ou o Executivo.

"São notícias relacionadas principalmente aos escândalos de corrupção e, em especial, à Lava-Jato, que ocupam os noticiários de segunda a sexta-feira pelo menos nos últimos dois anos", aponta. São fatores que, segundo ele, podem motivar mais protestos individuais até o pleito de outubro próximo.

Desconfiança

Um estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-DAPP), divulgado em outubro do ano passado, apontou que 83,2% dos eleitores entrevistados nas cinco regiões do País, àquela altura, não confiavam no presidente da República, Michel Temer (MDB).

O índice de desconfiança nos políticos eleitos, por sua vez, chegou a 78,3%, enquanto em relação aos partidos políticos foi de 78,1% do total. Ao serem perguntados se a política no Brasil impede que apareça um líder honesto e comprometido com mudanças para o povo, 63,9% dos participantes da pesquisa disseram concordar totalmente com a indagação.

Diante disso, "manifestações espontâneas", vistas quando eleitores abordam políticos e outras autoridades com cobranças e críticas, são, na análise do cientista político, retratos do momento do País. "Essas pessoas expressam parte da opinião pública que está na sociedade, a indignação", reflete. "É um grande recado para os partidos, para os políticos, de que você tem uma parcela grande do eleitorado intolerante com esse comportamento político, partidário e individual no Brasil", situa.

A socióloga Ângela Julita Leitão, professora aposentada da Universidade de Fortaleza (Unifor), analisa que, nos últimos três anos, "o Brasil entrou numa fase de um estímulo muito grande a uma violência contra o PT". Para ela, especialmente após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), entretanto, tal movimento teria passado a afetar outros partidos, o que explicaria uma "crescente" de manifestações contra políticos de diferentes legendas.

A socióloga defende, porém, que manifestações políticas devem ser feitas com racionalidade. Ele cita que nas redes sociais, por exemplo, o anonimato acaba, em algumas situações, por motivar a exposição de "ideias odientas" e episódios de "agressão". "O limite é dado pela razão, pela racionalidade. Você não pode deixar que o ódio prevaleça, porque o ódio é a base do fascismo", argumenta. "Dentro desse processo civilizatório, temos parâmetros para um relacionamento. Na medida em que esse parâmetro começa a feder, a enfraquecer, você começa a não poder mais andar na rua porque pensa diferente", observa.

Na avaliação de Ângela Julita Leitão, contudo, tais comportamentos de uma parcela do eleitorado são, também, consequência de uma má atuação das instituições do Estado, que "não estão dando o exemplo" à população. "E quando não dão o exemplo, você se sente quase livre para agir conforme você ouça seu coração, seu ódio, sua raiva. As instituições, que deveriam zelar pela racionalidade e pela legalidade, estão se afastando disso", critica.

Osmar de Sá Ponte, cientista político e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), por sua vez, opina que, por trás das manifestações individuais, além de intolerância, há indignação com a postura de políticos. "Se fosse só intolerância, ele se manifestaria de forma mais violenta, mais coletiva, mas, no caso, está sendo uma manifestação pessoal, está havendo uma postura de que cada pessoa se sente no direito de ir lá, abordar as pessoas", ressalta.

Como desdobramento disso, o cientista político analisa que o compartilhamento de protestos representa uma espécie de "linchamento público", mas sustenta que, em meio à "crise de autoridade moral" no País, é "problemático" alimentar uma cultura política de desrespeito. Segundo ele, isso pode ter uma tréplica por parte das autoridades, que tende a levar a uma violência em todos os níveis de relações sociais. "Essa crise precisa ser entendida pelas autoridades do Estado, e aí é um processo político que tem que envolver um conjunto da sociedade, para discutir as razões dessa crise e como resolvê-la", defende.

Ódio

Já para Edir Veiga Siqueira, da UFPA, a polarização política no País, especialmente após a prisão recente do ex-presidente Lula (PT), pode ser utilizada como combustível por grupos que patrocinam o ódio. "Nesse confronto político tem núcleos extremistas à direita e à esquerda que, não tendo mecanismos para um debate de qualidade, fazer diferenciação política, caem num baixo nível da disseminação do preconceito, e isso é muito perigoso, porque é combustível para o confronto", alerta.

Ele afirma, ainda, que a situação pode se agravar durante a eleição deste ano, o que demanda uma ação da Justiça Eleitoral. "Ela deveria trabalhar firmemente junto à grande massa do eleitorado para chamá-la à democracia e para que rejeitasse comportamentos que saem das ideias e do respeito", argumenta.

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