Arco de Alianças

Política 'situacionista' é forte no Ceará

00:00 · 24.02.2018

O cientista político Cleyton Monte, professor da Faculdade Cearense (FaC), analisa que o enfraquecimento do atual grupo oposicionista ao longo dos últimos anos é reflexo de "uma série de variáveis". Dentre elas, ele afirma que a política cearense tem uma característica "extremamente situacionista", uma vez que o grupo político que está no poder consegue arregimentar a maior quantidade de aliados e, assim, formar um arco de aliança nas três esferas: municipal, estadual e federal.

"Por que o governador Lúcio Alcântara perdeu a reeleição? Apesar de bem avaliado, ele tinha dificuldade, porque o PSDB o abandonou e o Lulismo estava surgindo", avalia o cientista político, que produziu, como tese de doutorado em Sociologia na Universidade Federal do Ceará (UFC), um estudo sobre a política de alianças nos governos Cid Gomes entre 2007 e 2014.

> Perdas sucessivas fragilizam oposição nos últimos 12 anos

Em outra pesquisa recente, Cleyton Monte debruçou-se sobre as derrotas do PSDB e do PMDB nas últimas eleições municipais no Ceará. "A quantidade de prefeituras que PSDB e PMDB perderam nas últimas eleições municipais é uma coisa incrível, porque eles saem de um controle quase absoluto do Estado para uma posição completamente secundária na política cearense, porque um novo grupo político chegou ao poder: o dos Ferreira Gomes", observa.

Desde então, enumera o cientista político, o grupo oposicionista sofreu um processo de enxugamento. "Esse grupo político (dos Ferreira Gomes) passa a criar um arco de alianças, juntando prefeituras, Assembleia Legislativa, Governo Federal. É como se ser oposição fosse quase inviável no Ceará", considera Cleyton Monte. "Basta ver agora, no cenário pré-eleitoral, que você não tem uma candidatura forte para concorrer com o governador (Camilo Santana) e a oposição está totalmente desarticulada", acrescenta o docente.

Nos últimos anos, o "erro" do PSDB e do PMDB no Estado, conforme avalia Cleyton Monte, foi "centralizar todas as suas fichas" em poucas lideranças - caso dos senadores Tasso Jereissati na sigla tucana e de Eunício Oliveira na legenda peemedebista -, situação que ele classifica como semelhante a do PT em âmbito nacional. "Se tira o Lula, o que fica do PT?", questiona.

Trocas de lado

Na comparação das perdas dos dois partidos, entretanto, o cientista político observa que o PMDB, pelas constantes trocas de lado, teve menos prejuízos ao longo dos últimos anos. "O PMDB é um partido que não tem programa, não tem diretrizes e é, talvez, o partido mais ligado ao poder. É o partido que consegue sentir o cheiro do poder muito rapidamente, então eles estão sempre fazendo alianças com figuras que, de certa forma, lhes deem alguma possibilidade de poder", afirma.

É esta característica da legenda, aliás, que, segundo Cleyton Monte, tem guiado as movimentações de Eunício Oliveira para as eleições deste ano. A reportagem tentou entrar em contato com o presidente em exercício do PMDB no Ceará, Gaudêncio Lucena, e com o senador Eunício Oliveira, mas, até o fechamento desta matéria, as ligações não foram atendidas.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.