Eleições no Ceará

Perdas sucessivas fragilizam oposição nos últimos 12 anos

O PSDB, que outrora comandou o Estado, acumula uma crescente perda de espaços nos últimos cinco pleitos

00:00 · 24.02.2018 por William Santos - Editor assistente

Nos últimos quatro anos, a oposição, que na disputa municipal de 2016 esteve reunida em torno da candidatura de Capitão Wagner, sofreu perdas e deve ir para estas eleições com palanque mais enxuto. Principal ausência é do PMDB Foto: Kid Júnior

Da dominância dos principais espaços de poder do Estado a uma tímida representatividade no Legislativo. O Executivo, há pouco mais de uma década, não passa de pretensão a cada pleito. Ainda sem candidato ao Governo do Estado para as eleições de outubro próximo, a oposição no Ceará sente os efeitos de derrotas que vão além da mais recente disputa eleitoral pelo cargo, em 2014. Os resultados das últimas cinco eleições gerais evidenciam uma crescente perda de espaços da oposição no Estado do Ceará, especialmente do PSDB.

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O grupo, que até 2006 havia vencido todas as eleições para governador desde a redemocratização do País, há quase 12 anos não volta ao comando do Palácio da Abolição e, enquanto isso, perde espaços na Assembleia Legislativa do Estado e na bancada federal cearense na Câmara dos Deputados. Os fatores para isso, nas palavras dos que compõem o bloco oposicionista em 2018, são vários. Eles destacam, entretanto, que buscam união para traçar estratégias que fortaleçam o grupo nas eleições deste ano.

No pós-ditadura militar, o PMDB, com a primeira eleição de Tasso Jereissati para o Governo do Estado, em 1986, e o PSDB, partido que o abrigou depois, assim como a seus sucessores, se revezaram no comando do Executivo no Ceará. Primeiro veio Tasso, eleito pelo PMDB no ano de 1986, depois Ciro Gomes, que chegou ao poder pelo PSDB, quatro anos depois.

Hegemonia tucana

Já na sigla tucana, Jereissati emendou os dois mandatos seguintes, até que, em 2002, patrocinou a eleição de Lúcio Alcântara, também pelo PSDB, para o cargo de governador. Em 2006, porém, sem apoio do líder tucano, a tentativa de reeleição do então chefe do Executivo estadual não prosperou, e Cid Gomes, então candidato do PSB, levou um outro grupo político ao Palácio da Abolição.

Depois disso, as duas eleições vencidas pelo ex-governador, em 2006 e em 2010, sequer foram ameaçadas pelos candidatos da oposição. Cid foi eleito em primeiro turno nas duas oportunidades, até que, em 2014, indicou Camilo Santana, do PT, para ocupar o cargo. Este teve vitória mais apertada, ao superar Eunício Oliveira, àquela altura adversário político, no segundo turno da disputa, mas garantiu a continuidade do grupo político de seus padrinhos no poder.

Levantamento dos resultados das eleições gerais de 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, realizado pelo Diário do Nordeste com dados disponíveis no site do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE), mostra que, ao longo dos últimos dez anos, partidos que outrora estavam no poder acumularam derrotas eleitorais, divisões internas e perdas de aliados.

Comparar os resultados ajuda a dimensionar a diferença: em 1998, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi reeleito presidente, a legenda tucana, no Ceará, conseguiu eleger Luiz Pontes para a vaga que estava em disputa no Senado e levou 10 representantes para a bancada cearense na Câmara dos Deputados, ocupando metade das 20 vagas de deputado federal que eram reservadas ao Estado.

Perdas

Alguns dos eleitos pelo PSDB naquele ano, atualmente, são filiados a outras siglas, caso de Arnon Bezerra, Moroni Torgan, Vicente Arruda, Aníbal Gomes e Ariosto Holanda. Na Assembleia, o partido teve 17 candidatos eleitos. Hoje, no Ceará, há apenas um deputado estadual tucano - Carlos Matos - e um deputado federal - Raimundo Gomes de Matos.

O PMDB -que, nas últimas cinco eleições, ora esteve com o PSDB, ora não - elegeu naquele ano seis candidatos para a Assembleia e cinco para a Câmara Federal, dentre eles, Eunício Oliveira. Em 1998, Tasso Jereissati foi eleito governador pela terceira vez - e última, até o momento - com facilidade. Ele obteve 1.569.110 votos, deixando Gonzaga Mota (PMDB), com 548.509, em segundo lugar, e José Airton (PT) em terceiro, com 347.671 sufrágios.

Quatro anos depois, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito presidente pela primeira vez, Lúcio Alcântara venceu José Airton Cirilo em disputa apertada no segundo turno e chegou ao Governo do Estado. Foram 1.765.726 votos (50,043%) do eleito contra 1.762.679 (49,957%) do segundo colocado. O candidato do PMDB, Sérgio Machado, chegou ao fim da disputa em terceiro lugar.

Tasso Jereissati, por sua vez, saiu do Governo do Estado para chegar ao Senado como o candidato mais votado no Ceará em 2002. Ele teve 1.915.781 votos, enquanto Patricia Saboya, também eleita senadora, pelo PPS, terminou o pleito com 1.864.404. No Legislativo, os números diminuíram: o PSDB elegeu 15 nomes para a Assembleia Legislativa e seis para a bancada cearense na Câmara. O PMDB elegeu cinco para cada cargo.

Revés

Em 2006, Lúcio tentou reeleição, mas, sem o apoio de Tasso Jereissati, foi derrotado por Cid Gomes, então candidato do PSB, ainda no primeiro turno. O eleito teve 2.411.457 votos (62,378%), enquanto Lúcio terminou a disputa com 1.309.277 (33,868%). Diferentemente dos pleitos anteriores, naquele ano o PMDB compôs a chapa de Cid Gomes, formada por PSB, PT, PCdoB, PMDB, PRB, PP, PHS, PMN e PV.

Moroni Torgan (PFL), candidato da chapa de Lúcio ao Senado, perdeu a vaga em disputa para Inácio Arruda (PCdoB), e na Câmara e na Assembleia, enquanto o PMDB manteve a média de eleitos, com seis deputados federais e cinco estaduais, o PSDB viu, novamente, suas bancadas ficarem mais enxutas. Conseguiu levar 13 tucanos à Assembleia e apenas três à Câmara dos Deputados. Naquele ano, foi criado o PR, partido que, a partir de então, comporia alianças com o PSDB no Ceará.

Nas eleições de 2010, Lúcio Alcântara, já no PR, e Marcos Cals, pelo PSDB, foram derrotados por Cid Gomes, reeleito em primeiro turno. Com Dilma Rousseff (PT) eleita presidente pela primeira vez, Eunício Oliveira e José Pimentel fizeram uma dobradinha apadrinhada por Lula e deixaram Tasso Jereissati de fora do Senado. O peemedebista teve 2.688.833 votos, seguido por Pimentel, com 2.397.851.

O tucano terminou a disputa em terceiro lugar, ao somar 1.754.567 sufrágios. Na oposição, enquanto o PSDB elegeu apenas dois deputados federais e sete estaduais, o PR elegeu dois para cada uma das Casas Legislativas. O DEM também elegeu um nome para a Assembleia, e o PMDB, na base governista, fez três deputados estaduais e cinco deputados federais.

Último pleito

Já em 2014, ano da reeleição de Dilma, o PMDB já havia rompido aliança com o grupo político dos irmãos Ferreira Gomes e Camilo Santana foi eleito para o Governo do Estado, em coligação com 18 partidos, contra o senador Eunício Oliveira, que tinha o apoio de nove siglas, dentre elas o PSDB.

O petista teve 2.417.668 votos (53,35%) no segundo turno, enquanto o peemedebista somou 2.113.940 (46,65%). O PSDB, por outro lado, elegeu Tasso para o Senado, Raimundo Gomes de Matos para a Câmara e Carlos Matos para a Assembleia. A coligação da oposição, formada por PMDB, PSC, PR, PRP e PSDB, conseguiu eleger seis deputados federais e 11 deputados estaduais, embora, durante a atual legislatura, ex-opositores já tenham aderido à base aliada na Assembleia.

Ao opinar sobre a sucessão de derrotas e o enfraquecimento de partidos da atual oposição no Estado, o presidente do PSDB no Ceará, Francini Guedes, diz que a perda de espaços da legenda desde que saiu do poder ocorre porque muitos se filiam a determinados partidos apenas "por conveniência".

"A pessoa não se filia pelo plano, pelas propostas, e nisso, de acordo com a conveniências pessoal, vai saindo do partido", reclama. "Se o cara está num partido A e acha que o plano de trabalho daquele partido é importante, fica nele se estiver na oposição ou na situação. Tem gente que não pensa assim. O PSDB está há muito tempo na oposição e alguns saem por conveniência pessoal", aponta.

Mesmo que, no Estado, o partido tenha, atualmente, apenas um representante na Assembleia e outro na Câmara dos Deputados, o dirigente ressalta que os dois parlamentares tucanos são "competentes". Ele frisa, ainda, que o PSDB mantém suas ideias para o Ceará. "Examine o que o PSDB fez pelo Estado do Ceará. Não só pelo Ceará, mas pelo Brasil. Tem coisas importantíssimas, mas tem gente que só pensa no momento", coloca.

Perguntado se a oposição fez uma autoavaliação para identificar possíveis erros que pode ter cometido quando estava no governo, Francini Guedes diz que "é possível de ter cometido erro", mas não aponta qual ou quais. "Não posso dizer, convictamente, o que foi que nós erramos", reage. Ao lembrar da sua experiência como gestor municipal, ele sustenta, porém, que o PSDB poderia ter como plataforma uma reforma tributária "que favorecesse os municípios".

Divisão

Para o ex-governador Lúcio Alcântara, presidente estadual do PR, um fator "importante e decisivo" para a perda de força da atual oposição foi a eleição de 2006, quando Tasso Jereissati não apoiou sua reeleição. "Ele era o grande líder do PSDB. Dividiu o partido", afirma. Aliado a este "fator de ordem local", o dirigente argumenta que, nacionalmente, as vitórias do PT também influenciaram o cenário político no Ceará. O ex-governador lembra do episódio como "um aprendizado muito doloroso", mas salienta que trata-se de um "capítulo passado".

"De lá para cá, o cenário político do Estado também mudou. Naquela época não tinha o Solidariedade, do deputado Genecias (Noronha), não havia o PSD, do Domingos Filho e do Domingos Neto. Nesse aspecto, o cenário não é mais o mesmo para a gente falar num retorno à situação daquela época. Hoje, as peças são outras, fora essa questão do MDB aqui, a posição do senador Eunício", cita o dirigente do PR, referindo-se à aproximação entre o líder emedebista e o governador Camilo Santana desde o segundo semestre do ano passado.

O discurso comum a Lúcio Alcântara e Francini Guedes é o de união dos partidos que compõem a oposição para a disputa deste ano. O tucano, aliás, minimiza a indefinição do candidato até o momento. "Acho que a gente não precisa ter pressa nisso. Vamos discutir isso fundamentados num plano de trabalho", menciona. Segundo ele, o plano, elaborado pelo partido, reúne um diagnóstico do cenário de várias áreas do Estado e deve nortear a formulação do plano de governo do futuro candidato da oposição no Ceará.

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