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Os sobrenomes conhecidos na disputa de cargo eletivo

01:00 · 21.07.2018
ASSEMBLEIA
Na atual composição do Legislativo estadual são vários os parentes de políticos que já exerceram mandatos naquela Casa parlamentar ( FOTO: FABIANE DE PAULA )

Assim como no passado, atualmente, políticos de carreira procuram perpetuar o nome de suas famílias nas casas legislativas e, ainda que não sejam candidatos ao pleito deste ano, apoiarão filhos e filhas em outubro próximo. Atualmente, a maioria da composição da Assembleia Legislativa é constituída por parentes de lideranças políticas, que fazem de cadeiras do Legislativo estadual verdadeiras "capitanias hereditárias" da política neste século XXI.

Prefeitos e deputados que não disputarão as eleições já trabalham há algum tempo o nome de seus herdeiros políticos para a disputa que se avizinha, havendo, inclusive, casos de parlamentares que farão "dobradinhas" com os filhos.

Na maioria das justificativas apresentadas por eles está o fato de seus rebentos já conhecerem o modo de trabalho da liderança que pensa em se "aposentar" ou "tirar férias" da vida pública. Dessa forma, o surgimento de lideranças novas que não tenham laços sanguíneos com caciques locais fica cada vez mais difícil, para que representem outros segmentos da sociedade.

Recentemente, a deputada estadual Mirian Sobreira (PDT) anunciou que não disputaria reeleição, mas lançou a pré-candidatura do filho, Marcus Sobreira (PDT), que já havia sido indicado por ela como vice-prefeito de Iguatu no pleito de 2016.

O ex-secretário de Fortaleza, Mosiah Torgan (PDT), até então não havia demonstrado interesse pela política, mas, com o apoio do pai, o vice-prefeito de Fortaleza, Moroni Torgan (DEM), é aposta das principais lideranças da base governista para a Câmara Federal.

O filho do ex-deputado Welington Landim, morto no início desta legislatura, o ex-prefeito de Brejo Santo, Guilherme Landim (PDT), também é outra aposta da base para ingresso na Assembleia Legislativa. Atualmente, o Município de Brejo Santo é administrado pela tia de Guilherme, Teresa Landim.

O presidente da Assembleia Legislativa, Zezinho Albuquerque (PDT), vai apoiar o filho e ex-prefeito de Massapê, Antônio José, presidente estadual do PP, para uma das 22 vagas da bancada cearense na Câmara Federal.

Aposta

O deputado petista Manoel Santana já está anunciando em suas redes sociais que não tentará reeleição e apoiará a candidatura do filho, Gabriel Santana, do PCdoB. O mesmo já ocorreu com o prefeito de Aracati, Bismarck Maia, que lançou pré-candidatura do rebento,  Eduardo Bismarck (PDT). Rodrigo Oliveira (MDB), filho do senador Eunício Oliveira (MDB), é aposta do político para a Câmara Federal. Para o Legislativo estadual, o emedebista deve focar, mais uma vez, na reeleição do sobrinho, Danniel Oliveira (MDB).

Os Ferreira Gomes, há mais de um século, elegem membros da família ao Executivo e Legislativo cearenses. Oriunda de Sobral, a família, atualmente, tem como prefeito o ex-deputado estadual Ivo Gomes, irmão do ex-governador Cid Gomes, que é pré-candidato ao Senado; e do presidenciável Ciro Gomes. Para este ano, eles pretendem ainda focar na eleição da irmã Lia Gomes (PDT) ao cargo de deputada estadual. Lúcio Gomes, outro irmão, comanda a Secretaria de Cidades no Governo Camilo Santana, que já foi administrada por Ivo Gomes.

O próprio governador Camilo Santana apoia parente próximo, o ex-secretário de seu Governo, até abril passado, Fernando Santana (PT). Em 2016, mesmo com o apoio do chefe do Poder Executivo Estadual, Fernando foi derrotado na disputa pela Prefeitura de Barbalha.

O cientista político e membro do Instituo de Ciência Política da Universidade de Brasília (UNB), professor David Verge Fleischer, afirma que tal realidade é mais comum no Nordeste do que no Centro-Sul do País, ainda que por lá também existam "dinastias" familiares que vão se perpetuando desde o século XIX.

Sobrenome

"Essas famílias controlam muitos votos, especialmente no Interior, e têm meios financeiros de influenciar o eleitor. Muitas vezes, no Brasil, existe a figura do 'você sabe com quem está falando?' O sobrenome e a bênção do pai, do tio, do avô ainda é muito importante nesse estilo de política", analisa.

No entanto, ele salienta que para o pleito deste ano existem sinais de que tal realidade poderá mudar. "Tem muito eleitor de saco cheio com a classe política em geral, mas pode ser que algum filho ou sobrinho, que não carregue o sobrenome de seu parente, se apresente como novo".

O professor de Sociologia Política da Universidade de Fortaleza (Unifor), Clésio Arruda, por sua vez, afirma que, na política cearense, tal realidade se reproduz em todos os poderes e, por fim, acaba sendo uma reprodução de uma classe social cearense. "Quando a gente recua no tempo, o que vamos ter é que os poderes eram ocupados, inicialmente, por aqueles que tinham recursos financeiros e educação. Ou seja, quem tinha escolaridade e renda. E a grande maioria da população não tinham nenhuma dessas duas coisas".

Ele destaca que tardiamente, somente na década de 1980, outra parcela da população passou a participar das discussões políticas, o que fez com que um grupo se perpetuasse no poder.

"A própria estrutura política brasileira possibilita criar uma rede onde alguns indivíduos conseguem montar um bom esquema, se vinculando ao prefeito, ao deputado federal, ao deputado estadual e vereadores", enfatiza Clésio Arruda.

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