Repercussão no ceará

Oposição na Assembleia quer a antecipação das eleições

Os petistas e outros adversários do Governo Temer exploraram, no Legislativo cearense, as denúncias da Lava-Jato

Um dia após terem vindo à tona as primeiras notícias sobre delação premiada dos donos da JBS, o assunto tomou o Plenário 13 de Maio. Deputados do PT utilizaram a tribuna da Casa para defender a realização de eleições diretas ( Foto: Fabiane de Paula )
00:00 · 19.05.2017

A manhã de ontem foi bastante movimentada no Plenário da Assembleia Legislativa do Ceará. O assunto do dia foi a reportagem do jornal O Globo apontando que gravações em áudio comprovariam que o presidente Michel Temer (PMDB) teria sugerido ao empresário Joesley Batista, que fosse mantido o pagamento de mesada ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e ao doleiro Lúcio Funaro para que estes ficassem em silêncio. Ambos são presos da Lava-Jato.

LEIA MAIS

.Câmara repercute denúncias

Ainda ontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, liberou do sigilo a delação premiada dos irmãos Joesley Batista e Wesley Batista, donos do grupo JBS. Diante do atual cenário, no Parlamento estadual o que se viu foram discursos inflamados na defesa de eleições diretas e, em determinados momentos, troca de indiretas entre deputados.

A primeira a tratar do assunto foi Rachel Marques (PT). Aliás, apenas os petistas utilizaram a tribuna para repercutir aquele que seria o principal assunto do dia, disputando espaço apenas com a PEC da extinção do TCM.

Afastado

Durante 15 minutos, Rachel apontou a gravidade das denúncias. "Temer foi gravado comprando o silêncio de Cunha. Não é delação, existe gravação, bem como também em relação a Aécio Neves. Trata-se de uma gravação, seguida de filmagem feita pela Polícia Federal, entregando os R$ 2 milhões pedidos. Na hora da entrega foi filmado. A gravidade se dá por isso. São provas concretas". Aécio Neves (PSDB) foi suspenso das atividades do cargo de senador pelo ministro relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal.

A parlamentar sustentou que o presidente, que assumiu o País há um ano, após o processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT), deveria ser afastado "imediatamente" da Presidência da República. "Deveria ser feita eleição direta. Inclusive, para isso está tramitando na Câmara Federal uma emenda de um deputado que não é do PT", disse, fazendo referência à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite eleições diretas para presidente em caso de vacância do titular, apresentada pelo deputado Miro Teixeira (REDE-RJ).

Bate-boca

Acordo feito na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara transferiu para a próxima terça-feira (23) a votação da proposta. "O povo está clamando por eleições diretas imediatas. Cada vez mais se configura o golpe e suas intenções de barrar a Lava-Jato e avançar reformas como essas que retiram direitos do povo trabalhador", apontou Rachel Marques.

Questionada por Silvana Oliveira (PMDB) se o impeachment agora contra Michel Temer seria golpe, a petista respondeu "que golpe seria se houvesse eleições indiretas no País". Segundo ela, a renúncia seria uma saída necessária. "A presidenta Dilma não cometeu crime".

Bate-boca

O deputado Manoel Santana (PT) também interrompeu o discurso da correligionária para afirmar que, quando fica comprovada a prática de crime, não se configura golpe. Iniciou-se um bate-boca, sendo preciso que Manoel Duca (PDT), presidindo a sessão, desligasse os microfones, deixando livre apenas o de Rachel Marques.

Santana também usou a tribuna para se pronunciar. Ele disse ser "impressionante" como a roda da Justiça girou rapidamente. "Nosso regime democrático capitalista, burguês, regime dos ricos, ruiu e está completamente desmoralizado", avaliou. "É a ruptura do estado democrático e, para sair disso, somente com o povo participando da construção do novo sistema, mas não com as regras colocadas pelo Congresso que está aí".

O deputado ressaltou que o impeachment que tirou a ex-presidente do comando do País foi golpe na medida em que afastou "uma mulher honesta". Segundo ele, tudo estava arquitetado para que fossem implantadas medidas contra os trabalhadores, como as reformas trabalhista e previdenciária. "(Precisamos) Defender de forma dura e radical a nossa democracia, sobretudo o direito do povo eleger seu presidente. Temer chegou pelo golpe a segunda fase será fazer o Congresso ilegítimo eleger o sucessor que queira".

Lucidez

Em aparte, Carlos Felipe (PCdoB) parabenizou a "sobriedade" dos partidos de oposição. "É hora de demonstrarem lucidez. Não devemos cometer o mesmo erro cometido contra o PT", observou. "Também deve ficar claro que devemos lutar pelas Diretas Já, não questionando a Constituição, mas passando a PEC que está colocada".

Também em aparte, Fernando Hugo (PP) disse que os discursos deveriam ser feitos livres de ideologias. "Diretas já, só com o apoio da Constituição, senão teremos golpe e golpe é coisa que não pode ser feita", alertou. "A PEC das Diretas que tramita pode ser aprovada em 20 dias, um relâmpago, aí sim, caso aprovem poderemos ter eleições diretas, mas, agora, o que se pode fazer é eleição indireta, como manda a Constituição".

Acompanhando Hugo, o deputado João Jaime (DEM) considerou o momento como o mais grave da história política do País. "Temos de olhar para a economia e o desemprego. Não devemos aproveitar da situação para tirar proveito ou ressuscitar o PT, pedindo Diretas Já, porque candidatos de partidos A ou B poderiam se beneficiar".

Em seu discurso, Elmano Freitas (PT) se associou aos correligionários. Ele abriu a sua fala lembrando trecho do discurso da ex-presidente Dilma após o impeachment, quando ela disse que estava deixando o poder "pela força dos moralistas sem moral". Elmano apontou que aqueles que alegaram todo e qualquer tipo de argumento usando campanha moralista, são os que, agora, há provas contra os mesmos. "Não é alguém dizendo que ele (Aécio Neves) pediu, tem gravação dele. Portanto não vamos misturar joio e trigo".

Transformação radical

O petista ressaltou que o sistema político está "podre" e merece ser transformado de maneira radical. "Podemos nesta crise optar pelo debate. Os petistas podem ficar acusando os tucanos e os tucanos acusando petistas, podemos ficar no ataque uns aos outros, mas não é esse o papel das grandes lideranças, aquelas que nas crises buscam soluções políticas afinadas com o pensamento popular". Ele também defendeu a PEC, que pode assegurar nova eleição direta. "Temos o presidente flagrado, com prova, envolvido em corrupção e obstrução da Justiça. Não tem como ficar no cargo", opinou.

Em apartes, Moisés Braz (PT) e Sarto (PDT) também expuseram suas posições. Enquanto o petista se disse envergonhado com a situação política brasileira, o pedetista disse ser a grande oportunidade de o Congresso demonstrar estatura moral e defender as eleições diretas.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.