Paralisação

Greve dos caminhoneiros expõe cobranças à classe política no País

Deputados estaduais e federais do Ceará apontam mensagens dirigidas aos políticos durante o movimento

01:00 · 02.06.2018
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Além das reivindicações econômicas, pautas políticas ganharam força nos bloqueios das rodovias durante a greve dos caminhoneiros ( Foto: Reinaldo Jorge )

Após dez dias de paralisação nacional dos caminhoneiros, os impactos econômicos dividem espaço, na agenda de urgências do País, com os significados políticos que o movimento teve e ainda pode assumir, especialmente em ano eleitoral. Sob diversos olhares, foi uma greve diferente de outros movimentos paredistas: apoiada por 87% dos brasileiros, de acordo com pesquisa Datafolha, ela foi defendida, dia após dia, por vozes da direita e da esquerda, por filiados a partidos políticos e cidadãos sem vínculo partidário algum, e agora deixa à classe política, de acordo com parlamentares cearenses entrevistados pelo Diário do Nordeste, mensagens, vindas das ruas, que exigem respostas dos representantes.

Componentes políticos na greve, inclusive, foram rechaçados pelo Governo Federal em meio à paralisação. No último dia 28, o Palácio do Planalto chegou a anunciar que investigava se três movimentos políticos - "Intervenção militar já", "Fora Temer" e "Lula livre" - estariam "infiltrados" na paralisação. Ao ganhar força a pauta política, houve até mesmo, em redes sociais e fora delas, comparações da greve dos caminhoneiros com o início das manifestações de 2013, quando uma questão central - a reclamação contra o aumento das passagens de ônibus - despertou outras reivindicações em atos que levaram milhares de pessoas à ruas do País.

Para deputados estaduais e federais cearenses, não há como projetar, ainda, eventuais desdobramentos da paralisação que chegou ao fim, mas a greve dos caminhoneiros, avaliam alguns, aponta para uma "falência" das instituições brasileiras, enquanto outros acreditam que, para além das reivindicações partilhadas por diferentes grupos, o que garantiu ao movimento a dimensão que tomou foi o "momento de desprestígio do mundo político". Há, por outro lado, quem veja o surgimento de uma pauta política na paralisação como "oportunismo" de grupos que teriam antecipado, nos bloqueios de rodovias federais pelo Brasil, debates eleitorais.

O deputado estadual Roberto Mesquita (PROS) diz que a greve dos caminhoneiros teve "um simbolismo grande" ao externar um "grito" de descontentamento da maioria da população com o cenário político-econômico do País. "A simpatia da população com os caminhoneiros, a forma como a população, mesmo sofrendo com o desabastecimento, aprovou a greve, demonstra que os caminhoneiros tiveram condição de fazer com que nos sentíssemos representados por eles na luta por uma carga tributária mais justa", justifica.

Embora o alvo das manifestações tenha sido o Governo Temer (MDB), por conta da política de reajuste de preços do diesel praticada pela Petrobras, e que lideranças de diferentes partidos tenham externado apoio à paralisação, Mesquita opina, ainda, que a paralisação reflete um enfraquecimento generalizado das agremiações partidárias. "Do ponto de vista partidário, não vejo quem sai ganhando, porque essa manifestação mostra, inclusive, uma falência das instituições, das organizações políticas e dos partidos".

Membro da bancada federal cearense na Câmara dos Deputados, Chico Lopes (PCdoB), por sua vez, defende que "o presidente da República e os políticos têm que tirar uma lição desse tipo de comportamento (dos caminhoneiros)", inclusive porque, segundo ele, o movimento traduz-se em uma greve diferente de outras, pois envolve trabalhadores e produtores. "Exige uma reflexão, porque não dá para continuar com a política desastrosa que ele está querendo levar para o Brasil", sustenta.

Visibilidade

Para Chico Lopes, porém, em meio ao apoio de frentes de diversos espectros políticos ao movimento, alguns aproveitaram o momento para ganhar visibilidade. "Sou um militante antigo desse tipo de comportamento, agora, num momento desse, todo mundo vai querer aproveitar, emitir sua opinião, participar na prática. O momento de desprestígio do mundo político também é uma vantagem. Numa questão dessa, numa greve, todo mundo quer dar seu palpite no sentido de sair bem".

Já a deputada estadual Rachel Marques (PT) argumenta que, enquanto o "governo ilegítimo do Temer" sai enfraquecido da paralisação, a população brasileira sai fortalecida do movimento, pois mais consciente da necessidade de reagir à "disparada do preço do combustível e do gás de cozinha", pauta esta reivindicada por outra categoria que deflagrou greve na última semana, a dos petroleiros.

"Sou defensora da democracia, então acho que todas as manifestações são justas. Quem está, por exemplo, com uma bandeira de intervenção militar, é importante saber que, de certa forma, tem uma contradição, porque com intervenção nem manifestação deveria ter. A única saída dessa crise passa pela retomada da democracia", enfatiza. Segundo Rachel, reivindicações econômicas compreendem pautas também políticas, como a saída do então presidente da Petrobras, Pedro Parente, que pediu demissão da presidência da estatal na sexta-feira (1).

Para o deputado federal Danilo Forte (PSDB), por outro lado, "é lamentável que posições ou posturas políticas queiram intervir num movimento de uma categoria tão tradicional e tão importante na vida do País". Ele avalia que houve, na paralisação, "oportunismo descabido" de alguns grupos. "Com certeza vai atrasar ainda mais a retomada do desenvolvimento econômico. Acho que o debate político tem que ser feito em função do processo eleitoral".

Amadurecimento

O tucano considera, contudo, que a greve contribuiu para um "amadurecimento político" da população, especialmente enquanto o movimento "era genuinamente dos caminhoneiros". Consequência disso, acredita ele, é que a greve motivou, também, uma diminuição da rejeição aos políticos. "Ajudou a criar um debate sobre os temas estruturantes que precisam ser discutidos na política e diminuir a intensidade do ódio e do rancor para com os políticos", frisa. Apesar disso, Forte opina que o movimento exige mudanças à classe política, que, neste ano, terá "que dizer porque quer o voto e o que vai fazer no mandato".

Roberto Mesquita diz, por sua vez, que a população, na greve, deu um recado à classe política, ao mostrar indignação com os esforços populares que são "desperdiçados com atitudes corruptas lá em Brasília". "Por que não se pensa em acabar com os benefícios dados aos políticos com o fundo eleitoral que foi criado? Por que não se diminui o valor das emendas parlamentares? Ali é uma ferida que ninguém toca", critica. "A população não suporta as regalias no Legislativo, no Executivo e no Judiciário, que afrontam as dificuldades que a população enfrenta".

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