Crise de representatividade

Discurso de mudança não gera ações

Políticos pregam resgate de credibilidade para evitar ascensão de 'salvador da pátria', mas analistas veem inércia

Nesta semana, foi a lista de 83 pedidos de investigação de políticos, enviada por Rodrigo Janot ao STF, que mexeu com as cúpulas dos poderes ( Foto: Agência Brasil )
00:00 · 18.03.2017 por William Santos - Editor assistente

Imersa em uma crise de representatividade que é agravada em sucessivos desdobramentos de investigações de ilicitudes, a classe política tem dado sinais de preocupação com as implicações de tantos acontecimentos que colocam em xeque a credibilidade e a manutenção de alguns nomes em cargos eletivos, temendo, como consequência, a possibilidade de surgimento de uma figura que forje discurso de "salvador da pátria" visando a disputa das eleições de 2018. Mas se, por um lado, analistas políticos não vislumbram indicações de resgate de legitimidade aos políticos brasileiros em curto prazo, por outro, também consideram que a tendência de negação da política e de aposta em um "salvador da pátria" pode representar fragilidades à jovem democracia do País.

Nesta semana, foi a lista de 83 pedidos de investigação de políticos, enviada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal (STF), que mexeu com as cúpulas dos poderes em Brasília. No último dia 8, durante jantar em homenagem aos 50 anos de profissão do jornalista Ricardo Noblat, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), presidente nacional da sigla tucana, ao resumir a atual conjuntura, já havia conclamado colegas por uma ação: "É preciso salvar a política", sentenciou ele, provocando em seguida: "Todo mundo vai ficar no mesmo bolo e abriremos espaço para um salvador da pátria?".

Em meio a escândalos generalizados, que não poupam as maiores agremiações partidárias do País, porém, as respostas de cientistas políticos não apontam para a capacidade de recuperação de alguma credibilidade em curto prazo, uma vez que, na avaliação de alguns, o discurso não se traduz em mudanças concretas. "É muito difícil para a classe política, porque a Operação Lava-Jato caminha sem fim e a 'grande vítima' disso é a classe política, tanto o Poder Executivo quanto o Poder Legislativo. A curto prazo, não vislumbro capacidade de recuperação dessa classe política", diz o cientista político Edir Veiga Siqueira, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Modelo em crise

A cientista política Carla Michele Quaresma, professora do Centro Universitário Estácio do Ceará, por sua vez, qualifica o atual cenário como reflexo de uma crise do modelo representativo que, de acordo com ela, não é exclusividade do Brasil, nem desta época. "É um modelo cheio de falhas. O principal é o fato de que os representantes acabam não atendendo às expectativas dos representados".

Mas o agravamento de tal falta de credibilidade nos políticos, conforme observa a cientista política Danyelle Nilin Gonçalves, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), não foi construído "da noite para o dia". Desde a década de 1990, aponta ela, uma imagem que relaciona política "a algo ruim, à corrupção, às pessoas que só se interessam em usufruir benefícios pessoais e que não se importam com a coletividade" é difundida por canais de comunicação. Não houve, na contramão, trabalho incisivo, por parte da maioria da classe política, de descons-trução deste imaginário, que tem ficado mais acentuado nos últimos meses diante de citações de envolvimento de políticos em casos de corrupção.

"Assim, cada vez menos se acredita no Congresso, nos partidos, no Executivo e nada indica que isso vá se reverter nos próximos meses ou anos, afinal, será necessário um trabalho de reconstrução da imagem da classe política, algo que, ao que tudo indica, eles mesmos não estão dispostos a fazer, já que teriam que cortar na própria carne e oferecer à sociedade a ideia de que se preocupam com ela, o que definitivamente não parece ser verdade, na maioria dos casos", afirma a cientista política.

Mudanças

Para sinalizar resgate de credibilidade, a classe política precisaria, na avaliação de Danyelle Nilin Gonçalves, "comprar a ideia" de discutir a fundo o fenômeno da corrupção no Brasil, seja no sistema político, nas alianças escusas com o mundo empresarial ou nas pequenas contravenções cotidianas da sociedade.

Já Carla Michele Quaresma acredita que, para dar novo fôlego à classe política, é necessário investir em outros modelos de participação. Ela, porém, não vê disposição dos que hoje ocupam cargos eletivos para patrocinar uma mudança. "Vão fazer esse discurso de que está ruim, que é preciso dar resposta à sociedade, mas do ponto de vista concreto não há discussão de nenhuma medida que possa reorientar a forma como esses indivíduos chegam ao poder", critica.

Edir Veiga Siqueira corrobora com a percepção de que a preocupação da classe política não tem sido revertida em ações. Para ele, inclusive, o Congresso Nacional desperdiçou oportunidade para efetivar mudanças durante as discussões da recente reforma política, que hoje é criticada até mesmo por parlamentares. "Nos últimos dez anos tiveram a oportunidade de fazer uma reforma política que pelo menos melhorasse a relação do representante com o representado", recorda. "A classe política teve toda a oportunidade e não fez".

Nas eleições de 2016, discursos de negação da chamada "velha política" já ganharam a simpatia de parte do eleitorado. Em São Paulo e Belo Horizonte, por exemplo, João Doria (PSDB) e Alexandre Kalil (PHS) foram eleitos prefeitos sustentando a bandeira de que não eram políticos, mas sim gestores. Vereadores, em várias cidades do País, também guiaram suas campanhas como representantes de uma "nova política".

Negação perigosa

Estes perfis, segundo o cientista político da UFPA, podem encontrar sustentação na disputa pelo Executivo, mas não devem refletir em mudança significativa no Legislativo, dado o atual desenho do sistema eleitoral-partidário. "A mesma prática, o clientelismo, o fisiologismo, o patrimonialismo vão estar controlando 70% do Congresso Nacional".

Danyelle Nilin Gonçalves, por outro lado, considera que os discursos de "nova política", em geral, são "vazios" e "superficiais". "Não se explica ao certo o que seria a nova política, o que tem de novo nas propostas, nas ações", observa. Já a negação da política, para ela, é "totalmente perigosa". "Principalmente da forma como é feita, quando não se discute a fundo o que é a política, o quanto ela é essencial para as nossas vidas e como não prescindimos dela e também quando não se explica como são os jogos políticos, as questões de interesse, os grupos de pressão. Não se discute, por exemplo, o que é fazer política, numa sociedade de classes, tão dividida e tão desigual. Não se discute o impacto da política na vida cotidiana, dentre outras questões".

Carla Michele Quaresma, por sua vez, reconhece que o discurso de negação da política é historicamente sedutor em momentos de grande desgaste da política tradicional, mas vê o surgimento de um "salvador da pátria" como oportunista, uma vez que indivíduos com este perfil oferecem uma plataforma de "salvação" que não se cumpre, pois a questão no Brasil, segundo ela, é "estrutural". Por isso, diz a cientista política, a eventual ascensão de um líder carismático não pode deixar em segundo plano o fortalecimento das instituições democráticas.

'Outsiders'

Já Edir Veiga Siqueira projeta que, para 2018, o cenário é adequado aos "outsiders", pessoas "de fora do sistema político, de fora da elite tradicional dominante, que criticam os políticos, criticam a corrupção, e se apresentam como alternativa". Ele coloca, contudo, que grandes partidos, como PMDB, PSDB, PT, PR, PSD e PDT, ainda disputarão espaço com tais figuras, caso surjam, por ainda terem "poder midiático" proporcionado pelo Fundo Partidário, além de capilaridade em municípios. "É difícil que uma figura descolada de grandes partidos consiga ter o mesmo grau de eficácia".

Na esteira da eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, o cientista político cita nomes como João Doria e Jair Bolsonaro dentre os que podem, em eventual campanha, adotar tal discurso. Mas a ascensão de um "salvador da pátria", segundo ele, pode motivar postura autoritária que representa risco à democracia. "O fundamento da democracia é que o povo tenha a crença de que a democracia é o melhor regime político. Se você quebra a crença, você começa a aceitar qualquer outra coisa, uma ditadura pessoal, uma ditadura que venha com discurso moralista. O povo brasileiro que, segundo pesquisas, é o povo mais autoritário da América do Sul, corre o risco de embarcar numa canoa furada", afirma.

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