Entrevista com Roberto Cláudio - Prefeito de Fortaleza

Desafio será equilibrar atenções à gestão e à eleição de aliados no CE

Para Roberto Cláudio, experiência e planejamento garantiram investimentos na crise. Ele defende a coincidência de mandatos para que eleições gerais não afetem a gestão

01:00 · 30.12.2017 por Edison Silva/William Santos - Editor de Política/Editor assistente
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Roberto Cláudio (PDT) admite que as eleições gerais de 2018 devem afetar a administração municipal, inclusive por conta de restrições a convênios em parte do ano eleitoral. Ele defende que deveria haver coincidência de mandatos ( Foto: Saulo Roberto )

Ao olhar para o primeiro ano do segundo mandato à frente da Prefeitura de Fortaleza, 2017 não foi, nas palavras do prefeito Roberto Cláudio (PDT), um ano tranquilo, mas a combinação entre experiência e planejamento garantiu, ao longo dos últimos meses, contas equilibradas e investimentos à Capital, mesmo diante da recessão econômica nacional que colocou gestões municipais em dificuldade. Já com um pé em 2018, porém, as preocupações do gestor dividem espaço com as pretensões do dirigente. Roberto Cláudio sabe que é preciso fazer mais por Fortaleza e anuncia suas metas, mas também promete dedicar esforços à eleição de pedetistas, nas esferas estadual e federal.

Presidente do PDT na Capital, ele enumera, em entrevista ao Diário do Nordeste, ao menos cinco nomes de aliados que, de acordo com suas projeções, devem ter boas votações para a Assembleia Legislativa no ano que vem: os deputados estaduais José Sarto e Evandro Leitão, que buscam reeleição, os vereadores Salmito Filho e Adail Júnior e o chefe de gabinete da Prefeitura, Queiroz Maia. Na disputa majoritária, a prioridade declarada é fortalecer as candidaturas dos irmãos Ciro e Cid Gomes à Presidência da República e ao Senado Federal pelo PDT, respectivamente; e do petista Camilo Santana ao Governo do Estado.

Confira, na íntegra, a entrevista concedida pelo prefeito Roberto Cláudio

 

O prefeito admite, contudo, que as eleições gerais devem afetar a administração municipal, inclusive porque restrições legais impedem o recebimento de recursos estaduais e federais por pelo menos três meses do ano. O prejuízo o faz defender a coincidência de mandatos que, para Roberto Cláudio, reduziria custos e garantiria maior coerência política em todos os níveis de mandatos eletivos.

Na entrevista a seguir, o chefe do Executivo Municipal também destaca a boa relação que busca manter com a Câmara Municipal e ressalta que ajustes na máquina pública garantiram investimentos que estão por vir, em áreas como Juventude, Saúde e Mobilidade Urbana.

Prefeito, qual será o tamanho do envolvimento do senhor na campanha eleitoral deste ano, levando-se em consideração que o senhor é dirigente partidário (do PDT na Capital)?

Temos algumas prioridades. A mais importante delas, para o nosso partido, é termos um candidato a presidente da República do PDT e do Ceará. Então, por essas razões, há um grande entusiasmo hoje, dentro do nosso partido aqui no Estado do Ceará, aqui em Fortaleza, para trabalharmos com muita intensidade e compartilharmos a história, o legado, as ideias do Ciro (Gomes), que é o nosso pré-candidato a presidente da República, do PDT e do PDT cearense. O PDT já sinalizou o interesse em apoiar a pré-candidatura de reeleição do governador Camilo Santana, então essa é uma prioridade muito importante, também, para o partido, em virtude de um mandato de seriedade, de trabalho, de resultados que, na nossa visão, merece a continuidade. Também o PDT e não só o PDT, mas os aliados entendem que é importante uma representação do PDT e uma representação altiva e de muita qualidade no Senado Federal, então há um entendimento dentro do partido, entre os aliados, da necessidade da gente fortalecer a nossa bancada federal com a eleição do Cid (Gomes) para o Senado Federal e, obviamente, por razões muito naturais de sobrevivência, inclusive partidária, em virtude da nova legislação, e também com a perspectiva de eventual governo do PDT federal, de um governo do Ciro, é muito importante a gente eleger uma grande bancada de deputados federais. E, além disso, estamos trabalhando algumas candidaturas com base forte em Fortaleza do PDT. Temos já pelo menos dois deputados com uma grande força eleitoral em Fortaleza, do PDT, que é o deputado José Sarto Nogueira e o deputado Evandro Leitão, e temos pelo menos três novas candidaturas com a perspectiva de boa votação aqui em Fortaleza, do PDT: o presidente da Câmara, Salmito Filho, o vice-presidente da Câmara, Adail Júnior, e o chefe de gabinete da Prefeitura, o Queiroz (Maia Filho). Então, eu diria que essas são as prioridades do PDT em Fortaleza, no Estado, eleitoralmente, para esse ano. A pré-candidatura do Ciro a presidente, a pré-candidatura de reeleição do Camilo, a eleição ao Senado do ex-governador Cid Gomes, e fortalecer a presença do PDT nas bancadas federal, principalmente, e também na bancada estadual.

No curso do seu primeiro mandato e neste primeiro ano do segundo mandato, o senhor teve uma boa relação com a Câmara Municipal de Fortaleza. Nós temos na eleição, agora, alguns vereadores candidatos a cargos no Legislativo Estadual e, possivelmente, Federal. Como fica essa relação?

Acho que continua bem. Inclusive, além da base do governo, mesmo com a oposição, a gente tem mantido uma relação respeitosa e construtiva. Eu vim do Parlamento, presidi um Parlamento, entendo a natureza diversa, plural, e também compreendo as necessidades do exercício parlamentar. O parlamentar tem a obrigação e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de representar um pedaço da cidade, seja esse pedaço um território da cidade, seja uma causa, um valor. Quanto mais o Executivo entende o papel de um vereador, de lutar pelo seu bairro, de ouvir o que ele tem a dizer, e de também, muitas vezes, realizar as suas demandas e suas reivindicações ou, no caso das causas, bandeiras importantes que tenham afinidade com o que o Executivo pensa, também serem compartilhadas com o mandato do vereador, quem sai ganhando é a cidade. É dessa maneira que a gente tem pautado a nossa relação. Eu tenho reconhecido as lutas dos vereadores, e muitas das obras, das realizações, de projetos de lei que têm a ver com o território, com a causa do vereador, tenho compartilhado essa conquista com a luta do mandato do vereador. Isso tem feito com que a gente trabalhe juntos, Câmara e Executivo, de forma harmoniosa e construtiva. As críticas, votos contrários eventuais, fazem parte da dinâmica, da relação do Parlamento com o Executivo. Felizmente essa relação tem sempre se mantido em tom respeitoso e construtivo e, honestamente, em nome dos interesses do povo da cidade, que é quem de fato interessa nessa relação Executivo com Legislativo. Há uma inovação, que foi criada a partir desse ano, a Prefeitura e Câmara no Bairro, que é uma tentativa dos dois poderes estabelecerem canais de comunicação direta com a população. Há aí algumas pré-candidaturas: a do presidente Salmito, a do vice-presidente Adail Júnior, há uma pré-candidatura do vereador e secretário Evaldo Lima, há perspectiva de candidatura de um vereador de oposição, do Julierme Sena também, para deputado estadual ou federal, e há uma possibilidade de candidatura do vereador e secretário Antônio Henrique, mas ainda em avaliação. Essas são as candidaturas que já estão sendo anunciadas como bastante possíveis e outras ainda (estão) em análise, com possibilidade de se estabelecerem.

Qual é a influência que a campanha eleitoral tem na administração, embora a campanha eleitoral seja para Governo do Estado e deputados? Qual é o reflexo que ela tem na administração?

Alguma interferência sempre há. Uma coisa prática, legal e objetiva é que os convênios, por exemplo, do Estado e da União com os municípios, até por precaução, em pelo menos três meses há uma limitação de convênios. Então, já há, naturalmente, uma restrição legal, para além, naturalmente, da disputa eleitoral acabar, de alguma maneira, sendo um 'distracionismo' da atividade administrativa. Os municípios, por não terem eleição, acabam sendo menos impactados por isso em ano de eleição estadual e federal, mas há sim algum tipo de impacto para a atividade administrativa nesse ano eleitoral. Por essa razão, e por uma razão também de redução de custos, eu já defendia e, agora, passando pelo Executivo, defendo a coincidência de mandatos. Ela acaba trazendo uma economia dos custos de campanha, afeta menos as administrações públicas, que acabam a cada dois anos vivenciando esses tipos de restrição legal, e ela promove muito mais coerência política.

Qual foi a diferença deste primeiro ano do segundo mandato para o primeiro ano do primeiro mandato?

É bem diferente. E eu registrava agora, na semana passada, em uma reunião interna de gabinete, as diferenças de experiência entre estar finalizando o primeiro ano de um primeiro governo e o primeiro ano de um segundo. O primeiro ano de um primeiro governo é um ano de forte aprendizado. Você perde muito tempo aprendendo o andamento das coisas. Primeiro, é preciso fazer uma transição, que é política, que é administrativa, mas é também um período de adaptação para todo mundo, para o prefeito, para o vice-prefeito, para os secretários. É um mundo novo e um período de muito aprendizado, então acabei chegando ao (fim do) primeiro ano do primeiro governo com muitos planos, com algumas ações em andamento, mas com o número de realizações bem menor do que no primeiro ano desse segundo governo, em que a gente já tinha organizado a casa, a gente tinha preparado projetos, tinha dinheiro de financiamento já captado e, a despeito da crise, que obviamente afeta gravemente a capacidade orçamentária dos municípios, em virtude dessa preparação, desse plano, de projetos e financiamentos em andamento, nós pudemos terminar esse primeiro ano com um conjunto muito significativo de realizações, de obras entregues já durante o que é o primeiro ano de um segundo ciclo de quatro anos.

Por que houve necessidade, e se houve realmente, do senhor fazer uma 'rearrumação' na máquina neste primeiro ano do segundo mandato?

Eu diria que, ao longo desses cinco anos, aconteceram três momentos importantes de ajustes. O primeiro ajuste, quando se chega, que é você ver o tamanho do custeio, ver a perspectiva de receita. Quando cheguei, obviamente recebi um passivo, mas, mais do que o passivo, era casar o tamanho do custeio, o mínimo da máquina, com a capacidade estimada de receita para o ano. Isso nos impôs, logo que cheguei, no primeiro ano de governo, um ajuste importante na máquina. No terceiro ano, a economia começou a dar sinais de queda, sem, também, sinais de uma reversão dessa recessão no curto prazo. Ali, ainda no terceiro ano, não havia uma recessão estabelecida, mas já havia a perspectiva de uma recessão, então, quando a nossa assessoria financeira já sinalizou para essa circunstância, nós nos antecipamos com um outro ajuste e com algumas cautelas. Por exemplo: não iniciar nenhuma obra federal que não tivesse o dinheiro completo em caixa, para evitar um cenário de obras paradas. E quando assumi a gestão de novo, aí sim, era o terceiro ano de recessão consecutivo, sem perspectiva de curto prazo de retomada da economia, e, o que é mais grave, nós começamos o ano com um cenário de receitas em queda, e sem perspectivas de curto prazo de mudança nesse cenário; então foi necessário que a gente fizesse um outro ajuste das contas da Prefeitura. Diria que é exatamente essa preocupação de se antecipar ou de responder com medidas de austeridade a esse cenário de dificuldades econômicas que permitiu que Fortaleza pudesse chegar ao final desse ano pagando o décimo terceiro antecipado, pagando os servidores públicos de carreira em dia, mantendo o andamento de obras sem obras paradas por questões financeiras e, ao mesmo tempo, iniciando com planejamento novas intervenções e terminando esse ano com a nota B na nota de situação fiscal do Ministério da Fazenda. Pouquíssimos municípios do Brasil têm essa situação fiscal, que permite captar investimento. Essa semana mesmo assinamos com o BID um financiamento novo de R$ 220 milhões, graças a esse esforço fiscal do Município, que permitirá a atração desse investimento, que será especificamente destinado para ações de Saúde e políticas de juventude. Mais especificamente, a maior parte deste dinheiro irá para a construção de policlínicas, exames e consultas, e para dois novos CUCAs, que serão iniciados no começo do próximo ano.

Dr. Roberto, na campanha é onde se aflora mais a discussão sobre as questões da administração pública, quer estadual, quer municipal ou federal. E a primeira que vem em mente é a questão da Saúde. Hoje, a Saúde está mais ou menos vulnerável às críticas da oposição?

Eu diria que a Saúde ainda tem problemas que devam ser apontados, devam ser criticados, para a gente entendê-los melhor e buscar as melhores soluções possíveis para eles. Entretanto, digo com conhecimento de números, de pesquisa, que ela hoje tem, baseado na opinião da população, um reconhecimento de avanços e melhorias a despeito da presença, ainda, de desafios, bem diferentes do que ela tinha em 2013, em 2014, no início da gestão. Nós conseguimos avanços importantes. Agora, é importante a gente registrar que a Saúde do Município depende, fundamentalmente, de repasses federais, que estão congelados. Pela inflação, a gente tem uma lei federal que impossibilita que os gastos com Saúde do Brasil ultrapassem a inflação. Entretanto, a demanda tem aumentado por serviços municipais, porque a crise tem levado os desempregados que tinham plano de saúde a buscarem serviços municipais; a inflação nos insumos da Saúde não obedece a inflação dos indicadores nacionais, porque boa parte desses itens são dolarizados, têm influencia do câmbio, então eles crescem acima do valor inflacionário, e é por essa razão que o Município, que deveria gastar, pela Constituição, pelo menos 15% com a Saúde, está gastando 27% e o dinheiro ainda é insuficiente. Entretanto, em síntese, a despeito destes avanços significativos que são reconhecidos, temos ainda questões a serem resolvidas, e a prioridade desse segundo mandato é requalificar, integrar e expandir a rede de hospitais de Fortaleza, como estamos fazendo. Isso terá impacto visual e impacto também assistencial, sentido na ponta, já a partir de 2018, com a inauguração de pelo menos mais 400 leitos públicos em Fortaleza.

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