queima de ônibus

Deputados condenam as ações dos criminosos em Fortaleza

Todos os discursos dos deputados estaduais cearenses, ontem, foram relacionados aos ataques da quarta-feira

Quando os deputados falavam sobre os incidentes de ontem, em Fortaleza, com o pânico da população, o plenário ficou parcialmente às escuras ( Foto: José Leomar )
00:00 · 21.04.2017 / atualizado às 10:13

No dia seguinte à série de ataques ocorridos em Fortaleza contra ônibus e empresas prestadoras de serviço público, os parlamentares que ontem usaram a tribuna da Assembleia Legislativa foram unânimes em abordar o problema. Renato Roseno (PSOL), o primeiro orador, disse ser necessário puxar a reflexão de forma serena e sóbria sobre os atos que paralisaram a Capital.

Após se solidarizar com o motorista que acabou ferido em uma das ações e com os fortalezenses que ficaram sem opção para voltar para casa durante a tarde e a noite de quarta-feira, ele afirmou que Segurança Pública não seria política simples. "Depende muito mais de inteligência do que força. Muito mais de planejamento do que resposta intuitiva, muito mais da capacidade de prevenir do que exortar nas mídias sociais um autoelogio ou autoproclamada força".

"Sou oposição ao Governo Camilo, mas não sou oposição ao povo trabalhador do Estado do Ceará, quem mais sofre com ausência de política bem planejada de segurança pública em articulação com o sistema de justiça e administração penitenciária", apontou, ressaltando haver muito o que investigar sobre o que tem acontecido no Ceará.

Ele apontou que o Comitê de Proteção ao Homicídio de Crianças e Adolescentes, instalado na Assembleia, do qual foi relator ao longo do ano de 2016, vasculhou mais de mil homicídios acontecidos nas sete cidades que mais matam no Ceará e falou que salta aos olhos o fato de que a realidade do Ceará alterou-se muito do ano de 2005 para cá.

"Na última década saltamos da 19ª posição em homicídios para a 1ª e 2ª posições, num ranking terrível. Há aumento muito acelerado da população carcerária e quem conhece razoavelmente ou minimamente o cotidiano carcerário sabe que a superpopulação carcerária é mão de obra para organizações que controlam os mercados ilícitos de drogas".

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Anarquia

Na sequência discursou Fernando Hugo (PP), rebatendo as críticas de Roseno. Apontando haver incoerência na fala do colega, ele relatou que, quando apresentou requerimentos na Casa contra "ato de delinquência" praticado pelo presidente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, por incitar segmentos da sociedade contra o trabalho do juiz Sérgio Moro, o deputado do PSOL pediu que fosse votado em separado.

"Conivente não é com a bandalheira, mas mostrou-se defensivo de que a anarquia feita pelo PCO tomasse conta do Brasil numa estupefação bandidística de quebrar tudo, transformando a paz social em movimentação anárquica que de política nada tem e de ideológica talvez também não", afirmou.

Hugo relatou ficar feliz em ver o mesmo deputado com sua academicidade, fantástica condição de interpretar as leis, subir à tribuna diante do episódio que virou manchete no Brasil. "Não vou acreditar que algum deputado desta Assembleia possa não dar as mãos às forças de segurança do Ceará neste momento que é extremamente esquizofrênico para a sociedade. Não pode-se aqui oportunizar", rebateu.

"Quando Delci (Teixeira) era secretário de Segurança, alguns até diziam que ele era omisso e não aparecia. Agora, chega um delegado federal jovem, que vai às ruas, acompanha, dá força à tropa, tem apoio do governador que poderia ser o Camilo ou o Eunício. Neste momento, quem gosta do Estado e respeita o povo cearense não pode vir para cá para dar aulas de sapiência sobre como se faz Segurança Pública. É muito mais interessante se dar apoio às nossas tropas de Segurança que estão postas desde a eclosão dos atos".

Infiltraram

Capitão Wagner (PR), por sua vez, abriu discurso afirmando que não iria se pronunciar na manhã de ontem, mas que desmarcou compromisso para estar presente no debate diante dos ataques do dia anterior. Ele disse que sua fala teria como referência Albert Einstein, quando dizia que não dá para ter resultado diferente fazendo a mesma coisa. "Escutei fala na coletiva dada na Secretaria de Segurança que me assustou. Dizia que será continuado o mesmo trabalho que vem sendo desempenhado. Então o resultado vai ser o mesmo".

Ele criticou que, após dois anos e quatro meses de trabalho do Governo Camilo Santana, não existisse um plano de Segurança no Estado do Ceará. "E olha que recebeu o Estado em situação caótica. Passaram dois anos e todo mundo fazendo política com dados. Mostrava que reduziu os homicídios e agora, que a situação está aflorada, tem deputado que não quer ouvir a crítica. Tem que elogiar o governo?", questionou.

"Não dá para ter secretário de Segurança valente com governo frouxo. É muito fácil dizer que bandido aqui no Ceará é cadeia ou cemitério. Cadê a valentia do governador para instalar nos presídios cearenses o bloqueador de celular? Não dá para fazer discurso e na hora de votar matéria importante para a segurança, fugir". Wagner cobrou ainda a instalação na Assembleia da CPI de Combate ao Narcotráfico.

Manoel Santana disse que os grandes bandidos criaram aliados, se infiltraram no Judiciário, no Executivo, nos Legislativos e que nos presídios assumiram o controle por inteiro. "O pior é que nos presídios se juntaram ao crime de colarinho branco. Você vê casos de muitos presídios onde ocorreram as rebeliões com assassinatos da forma mais cruel que se possa imaginar, com violência capaz de superar o Estado Islâmico na sua crueldade".

Travestido

Líder do governo na Assembleia, o deputado Evandro Leitão (PDT) chamou os responsáveis pelas ações criminosas de "bando travestido de ser humano". Ele disse que não se poderia resumir tudo o que aconteceu como questão de política de Segurança Pública.

"No meu ponto de vista, não é apenas isso. O Estado brasileiro passa por uma convulsão social onde o crime organizado se estabeleceu em todos os estados, nuns mais e noutros menos, mas todos passam por essa situação. Aqui no Ceará não é diferente". No entanto, contou que, para combater e transformar a situação, precisa de investimentos na questão crucial que é a educação. "E no Ceará temos feito isso e temos tido resultados bastante importantes".

Evandro relatou que desde quando o secretário assumiu a pasta da Segurança no Estado, suas ações têm causado insatisfações. "E para alguns poucos tem causado certa ciumeira, por suas atitudes não midiáticas, mas importantes para que a sociedade se sinta acolhida e tenha a sensação de tranquilidade".

Ele apontou que tudo o que aconteceu se resume a bandidos que estariam presos em determinada unidade e querem ser transferidos para outras. "O que se falar além disso, não tem certa razoabilidade. O que existe é que o criminoso não está satisfeito no Estado. Portanto, tentar induzir a sociedade que o Governo não tem agido é no mínimo não ser justo. Fazer oposição é normal, mas tentar desqualificar o que está sendo feito, não acredito ser justo", declarou.

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