Lançamento de frente parlamentar

Ciro descarta união da oposição por 'conveniência eleitoral'

Pré-candidato para 2018, ele participou, na AL, de ato da Frente Parlamentar em Defesa da Soberania Nacional

Senador Roberto Requião (em pé), presidente nacional da Frente Parlamentar, discursa no auditório Murilo Aguiar, da Assembleia, para parlamentares, lideranças políticas e representantes de sindicatos e movimentos sociais ( Foto: Kid Júnior )
01:00 · 11.11.2017

Pré-candidato à Presidência da República pelo PDT, o ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes, em entrevista coletiva ontem, afirmou que, hoje, "o País está indo da mão para a boca sem projeto" e defendeu a construção de um governo com "compromisso nacional", mas, embora tenha dito que interesses fragmentados não garantem soberania nacional, frisou que, em 2018, uma eventual unidade das esquerdas "não será alcançada por conveniência partidário-eleitoral". Na Assembleia Legislativa, ele participou, junto a deputados, senadores, lideranças políticas locais e representantes de sindicatos e movimentos sociais, do lançamento da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, já instalada no Congresso Nacional.

Para o lançamento regional da Frente, que já foi apresentada em Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, estiveram em Fortaleza o senador Roberto Requião (PMDB-PR), que preside nacionalmente o colegiado, e os deputados federais e ex-ministros Patrus Ananias (PT-MG) e Celso Pansera (PMDB-RJ), além de parlamentares da bancada federal cearense, como os deputados Odorico Monteiro (PSB), vice-presidente regional da Frente, André Figueiredo (PDT), José Airton Cirilo (PT), Chico Lopes (PCdoB) e o senador José Pimentel (PT). Também estiveram presentes o presidente da Assembleia, Zezinho Albuquerque (PDT), o deputado Elmano de Freitas (PT), que articulou o ato no Legislativo cearense, e ao menos outros seis parlamentares. Vereadores, secretários e o ex-governador Cid Gomes (PDT), além de Ciro, também compareceram ao ato.

Durante seus pronunciamentos, Roberto Requião, Patrus Ananias e Celso Pansera fizeram críticas a políticas do Governo de Michel Temer (PMDB) que, segundo disseram, promove um "desmonte de direitos sociais no País", e defenderam a necessidade de um governo popular em prol da soberania nacional, fazendo referências à importância da presença, no ato, de um pré-candidato ao cargo de presidente. Ciro Gomes discursou em seguida para também defender um projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil, quando disse que a soma de "interesses fragmentados" não é capaz de garantir soberania nacional.

Crítica ao PT

Questionado posteriormente sobre a declaração, o ex-governador fez críticas ao modo como uma ala do PT tem projetado a disputa eleitoral do ano que vem e frisou que uma unidade das esquerdas não será alcançada, em 2018, por "conveniência partidário-eleitoral". "Muito menos pela ideia vã que, infelizmente, parte do PT acredita, de que pesquisas produzidas com propósitos, enfim, de tentar antecipar o quadro ou de orientar a propaganda, (vão) indicar o que nós temos que fazer como tarefa", afirmou, em referência indireta às pesquisas destacadas por petistas, nas quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera as intenções de voto.

Ciro sustentou, em seguida, que, nas eleições presidenciais do ano que vem, "só o concreto do projeto" é que deve nortear a campanha eleitoral. "E o projeto tem que dizer de onde é que vem o dinheiro para melhorar a saúde, para melhorar o enfrentamento à violência, e você tem que propor isso, e tem que deixar o povo ajudar você não a se eleger porque é um bonzinho e o povo quer bem, mas porque o povo acredita que as suas ideias vão ser capazes, porque isso permite a um presidente não precisar fazer aliança com o Congresso Nacional, comprar voto, lotear a Petrobras e, depois, sair pela porta dos fundos como corrupto, porque (se) conciliou com corruptos", emendou.

O pedetista disse acreditar na construção de uma unidade das esquerdas para a eleição apenas "se for aberto um debate programático". "Eu, por exemplo, não entro em nenhuma dinâmica de unidade que seja o seguinte: 'nós somos os perfeitos, nós somos as vítimas, nós somos maravilhosos, e nós somos as vítimas de um golpe que se praticou sem que nós estivéssemos cometido nenhuma injustiça, nenhum erro'. Isso não guarda a menor coerência com a vida do nosso povo, com o que nós testemunhamos", disse, referindo-se a ações dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff (PT).

Emergências

"Eu fui ministro do Lula, da Integração Nacional. Sabe quem me sucedeu no segundo governo do Lula? O Geddel Vieira Lima! Sabe quem é o Geddel Vieira Lima? É o cara dos R$ 51 milhões nas malas de dinheiro. E depois de ser ministro do Lula no lugar que fui, não é possível um governo onde eu esteja o Geddel estar, não é razoável. Aí depois ele é vice-presidente da Caixa Econômica Federal no Governo Dilma. Compreende? E aí nós vamos dizer para o povo que houve um golpe. Ok, houve um golpe mesmo, eu não tenho a menor dúvida. E aí, no dia seguinte que tenho o golpe, voto no golpista? O PT votou no PMDB para a Mesa do Senado", citou.

Ao tratar do cenário de crise no País, ele afirmou que o povo brasileiro tem sentido "grandes emergências" que exigem outras atitudes do Estado, a exemplo da violência, do desemprego e da crise na saúde pública. Para Ciro, porém, apenas um governo com compromisso nacional e popular pode prover melhorias nessas e em outras áreas. "E como é que ele vai prover se o País está indo da mão para a boca sem projeto? Ninguém administra nem uma bodega das pequenas sem um projeto, e é isso que eu estou tentando há muitos anos discutir no Brasil".

O presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Soberania Nacional, senador Roberto Requião, por sua vez, explicou que o colegiado trabalha, nacionalmente, em dois tempos: o primeiro é de "formação de consciência" de quadros médios, que compreendam o que acontece no mundo e os reflexos disso no Brasil, os quais têm impedido "a continuidade, no processo civilizatório brasileiro, de um Estado Nacional soberano". "A segunda etapa é política, objetiva, que é o referendo revogatório na próxima eleição presidencial, para revogar todas essas barbaridades que impedem o desenvolvimento, a geração de emprego e a construção nacional do País".

Retomada

Ao ser perguntado se, pelo tom do discurso no ato, apoia o nome de Ciro Gomes à Presidência, o senador, contudo, disse que está mais interessado em "projetos nacionais" do que em "nomes de pessoas". "O Brasil precisa restabelecer um projeto de desenvolvimento. Como nós estamos, o comando da política, da administração e da economia fica por conta do capital financeiro, e o capital financeiro só vai nos trazer desordem. Vai transformar o Brasil numa Síria, num país do Oriente Médio, com crises internas, rebeliões, assassinatos e repressão. Nós temos que pensar mais globalmente", sustentou.

Vice-presidente regional da Frente, o deputado Odorico Monteiro destacou que o colegiado foi criado, em junho, para denunciar a agenda colocada pelo Governo Federal em meio à crise, que, segundo ele, "fere profundamente a soberania nacional", além de elaborar propostas concretas em contraponto ao atual cenário. "A Frente está colhendo isso com a sociedade, debatendo, para que a gente possa apresentar, até o final do ano, uma plataforma em defesa da soberania nacional", detalhou.

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