Alckmin quer menos siglas

Cid defende nova estrutura partidária

A quantidade e a falta de identidade das nossas agremiações estão motivando críticas de vários agentes políticos

01:00 · 01.09.2018 / atualizado às 10:11 por Edison Silva - Editor de política
Cid Gomes
Cid Gomes não faz qualquer referência à coligação governista, com 16 partidos, e a sua auxiliar com oito, mas por certo esta realidade o estimulou ( FOTO: JOSÉ LEOMAR )

O ex-governador Cid Gomes (PDT), nesta semana, na inauguração do comitê de um seu correligionário, fez uma primeira promessa de campanha como candidato ao Senado da República, ao anunciar a adoção de providências legislativas visando a reestruturar e dar respeito às agremiações partidárias nacionais, hoje, deterioradas, muitas delas servindo apenas de objeto de negociatas para satisfação de interesses escusos de seus donos, com danos à administração pública, em qualquer das esferas de Poder, assim como à própria disputa eleitoral, com os conchavos registrados para as formações das coligações.

Geraldo Alckmin (PSDB) promete, sendo eleito presidente da República, propor, de imediato, uma reforma que permita reduzir o número de partidos. É impossível governar um País, um Estado ou um Município com a quantidade de partidos hoje existentes, afirma. Ele cita exemplo de democracias modernas onde todos os legisladores representam dois ou três partidos, enquanto, no Brasil, cada Câmara Municipal, Assembleia e o próprio Congresso Nacional têm representação de quase duas dezenas de agremiações.

A última mudança na legislação, em vigor nas eleições deste ano, já cuidou de medidas para eliminar alianças em disputas proporcionais futuras. Nas eleições municipais próximas, em 2020, os partidos não mais poderão fazer coligações para a disputa de vagas nos legislativos, mas continuarão fazendo-as para a disputa de prefeito, de governador e de presidente. Estas, com os mesmos vícios, dentre os quais a da conquista de mais tempo na propaganda eleitoral no rádio e na televisão, além de uns cargos numa futura gestão do governante eleito.

A nova legislação, aprovada no ano passado, contribuirá sim para conter a ânsia de aventureiros de criarem novos partidos. Ela exige um número mínimo de deputados eleitos por uma agremiação, para que ela possa contar com recursos do Fundo Partidário, um dinheiro utilizado para a boa vida de alguns, assim como acabará com o valioso patrimônio das eleições, que é o tempo da propaganda eleitoral, uma mercadoria considerada de primeira necessidade para os candidatos a cargos majoritários. Mas ainda é muito pouco para pôr fim aos vícios já tão arraigados.

Cid não aprofunda a discussão sobre sua ideia, alegando respeito ao eleitorado cearense que ainda não o elegeu para ser legislador nacional, nem tampouco ataca as formações de alianças como as registradas para a disputa deste ano no Ceará.

Constrangimento

Em verdade, como está o quadro atual, os partidos nada representam, pois não têm ideologia, programas e objetivos, servindo apenas como albergue momentâneo para políticos sem compromissos com a causa pública, preocupados apenas com a conquista de um mandato para ter algum poder e dele tirar o máximo de benefício pessoal.

Ele não fala, mas por certo deve ter chegado à conclusão de ter que fazer algo para mudar essa realidade, de certa forma reprovável, das alianças políticas efetivadas no Brasil todo, olhando para a coligação feita em torno do nome do governador Camilo Santana, e da sua própria. Dos 35 partidos em funcionamento no Ceará, os dirigentes de 24 queriam estar no grupo governista. Ele, como principal liderança da base, conseguiu desvencilhar-se de oito deles, não para seus filiados votarem contra a reeleição do governador Camilo, nem tampouco contra ele próprio, mas para reduzir o constrangimento de estarem todos no mesmo palanque.

É deveras incompreensível esta situação. Por mais que o governador tenha méritos e qualidades para ter um segundo mandato, causa espécie integrantes de mais de duas dezenas de agremiações, inclusive os das que lhe fizeram oposição, correrem para os seus braços, sem razões republicanas capazes de convencerem o eleitorado, sabido que a razão de existir de um partido é chegar, com os seus, aos cargos mais importantes, tanto no Executivo, quanto no Legislativo.

A coligação do governador e a anexa dela, no caso a outra formada para reunir os candidatos dos oito partidos rejeitados pela "matriz", são, de fato, a mixórdia da política cearense. Nelas estão políticos tidos como de esquerda, de direita, do centro e adjacências, confirmando o entendimento de que, realmente, não temos no País, embora estejamos em um pleno ambiente democrático, a estrutura partidária que a sustenta, como em todos os outros países. Parece mesmo um paradoxo.

É necessária e urgente uma reorganização partidária no Brasil. A minoria parlamentar que assim entender precisa ser forte e persistente para levantar e manter acesa a discussão sobre a importância de mudar, de se criar uma nova cultura político-partidária com disciplina, projeto de governança e objetivos para chegar ao Poder, não com o propósito de locupletação, mas o de servir.

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