Distritão e a reforma política

Camilo terá dificuldade para formar uma grande coligação

A candidatura de Ciro, em que Camilo diz que votará, e as restrições ao PT vão reduzir o tamanho da sua aliança

01:00 · 12.08.2017 por Edison Silva - Editor de política
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Júlio César, com apenas 23.624 votos, foi diplomado pela Justiça Eleitoral como deputado estadual cearense
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Leonardo Pinheiro, que obteve 40.575 sufrágios, ficou apenas como primeiro suplente ( Fotos: José Leomar )

Pouca ou nenhuma influência terá a Reforma Política, como está desenhada, na sucessão do governador Camilo Santana (PT), embora os efeitos das mudanças possam se fazer sentir no preenchimento das vagas nos legislativos federal e estadual, mesmo permanecendo o sistema de coligações partidárias no pleito proporcional.

O governador terá dificuldade em compor uma aliança majoritária, capaz de lhe garantir um maior espaço na propaganda eleitoral e simbolizar uma supremacia, pela quantidade numérica de partidos, por conta das composições para a eleição presidencial em razão das vinculações das comissões provisórias, ou diretórios estaduais, às decisões dos seus respectivos comandos nacionais.

Em 2014, Camilo conseguiu reunir 18 partidos na defesa de sua pretensão de governar o Ceará. Naquela época, além da interferência direta do ex-governador Cid Gomes (PDT), o partido dele, o PT, ainda não experimentava, com a dimensão de hoje, a repulsa de expressivo segmento da sociedade, daí ter conseguido arregimentar muitos apoios que redundaram na eleição da ex-presidente Dilma Rousseff, refletindo, de certo modo, no sucesso eleitoral por ele obtido.

Ademais, a candidatura de Ciro Gomes a presidente da República, além de inviabilizar uma coligação do PDT com a agremiação de Camilo, pois o PT com um nome, também disputando a sucessão presidencial, impede o governador de estar em outro palanque presidencial, também afasta os partidos que estiverem nacionalmente com Ciro.

O cenário nacional caminha, dentre outras, para uma ou duas candidaturas presidenciais patrocinadas por PSDB, PMDB e DEM. Estas siglas, pelas afinidades de suas lideranças com as de alguns outros partidos, têm chances de afastarem de Camilo aliados ligados ao próprio DEM, ao PP, ao PPS, ao PTB, ao PRB, ao PSD e mais alguns.

Eventos

Eleitoralmente, segundo informações conhecidas, inclusive algumas saídas do seio da oposição local, como a manifestada publicamente pelo deputado federal Cabo Sabino (PR), Camilo está bem no Interior do Estado, onde, constantemente, tem estado para compromissos administrativos com significados político-eleitorais, sem ser molestado por qualquer dos seus possíveis adversários na disputa em 2018.

Diferentemente de 2013, véspera do ano da eleição, quando vários pretendentes ao cargo de governador, quase todos do mesmo grupo de Camilo (Eunício Oliveira, Zezinho Albuquerque, Domingos Filho, Mauro Filho e outros menos expressivos), participavam, constantemente, de eventos políticos em todos os pontos do Ceará, agora, só o governador está em campo, sem se falar nos encontros com deputados e prefeitos que promove no Palácio da Abolição.

Essa movimentação, de certa forma, o coloca em situação privilegiada, embora não tão confortável em razão das questões políticas à vista, a partir da sua própria condição de filiado ao PT e eleitor confesso de Ciro Gomes, na corrida presidencial.

Há perspectiva de ser antecipado o período da "janela", aquele momento que a legislação eleitoral permitirá a troca de partido, sem os detentores de mandatos serem considerados infiéis, embora no caso do governador, por ser detentor de mandato majoritário, ele não está sujeito a punições de ordem político-partidária, portanto, o seu limite para dizer se fica ou sai do PT ainda não será neste ano.

Esse momento vai acontecer na data limite das filiações partidárias que poderá ser em abril do próximo ano, seis meses antes do dia da votação, quando, aliás, praticamente estará definido todo o quadro sucessório nacional, orientador das alianças estaduais.

Modelo

Aprovado o novo modelo de eleição dos deputados, em 2018, o Distritão, as coligações partidárias tão interessantes nas últimas eleições, por contemporizar interesses de "donos" de partidos pequenos, quase sempre eleitos com votação inexpressiva, em relação aos candidatos mais votados, deixarão de ser atraentes por não mais contemplarem os objetivos de se aproveitarem dos votos de outros concorrentes, dentro do mesmo grupo, beneficiando-se com um mandato parlamentar.

Na Assembleia Legislativa cearense, teve candidato que conquistou uma vaga com 23.624 votos, Júlio César Costa Lima Júnior, enquanto o primeiro suplente de deputado, Leonardo Franklin Nogueira Pinheiro, recebeu, no mesmo pleito, 40.575 sufrágios. Com números diferentes existem outros casos.

Ambos pertenciam a coligações diferentes, na mesma base política de sustentação da candidatura de Camilo Santana. Com o Distritão essa anomalia desaparecerá. Serão eleitos os candidatos que obtiverem o maior número de votos, independentemente de partido ou coligações.

A atual bancada federal cearense é composta pelos 22 deputados mais votados em 2014. É verdade, sim, que a novidade prestes a ser realidade no nosso sistema político-eleitoral suscita alguns questionamentos para além das lamentações daqueles com menos chances de vitória nessa nova ordem. Mas é o começo da implantação de uma medida necessária para frear o ânimo voraz daqueles donos de partidos, sem programas e ideologias, criados apenas para a garantia de espaços capazes de gerar satisfações outras que não o dever de servir à sociedade.

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