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Camilo desmonta tese de petistas sobre Lula

Não indo ao evento petista de Contagem, ontem, importante para o PT, o governador diz de que lado está

Fac-símile da matéria de fevereiro deste ano tratando do palanque único, no Ceará, para o candidato a presidente da República apoiado pelo governador
01:00 · 09.06.2018 por Edison Silva - Editor de Política

O governador Camilo Santana (PT) não participou do evento mais importante para dirigentes do seu partido, ontem, no Interior de Minas Gerais, no caso o "ato nacional de lançamento da pré-candidatura de Lula a presidente do Brasil".

E não poderia estar lá por razões diversas, inclusive aquelas que encerram o pragmatismo. Camilo defende a candidatura de Ciro Gomes (PDT) à Presidência da República desde quando foi prestigiar a filiação dele ao PDT (em setembro de 2015), para ser o nome desta agremiação na disputa presidencial. Estivesse ontem em Minas, diferentemente dos outros eventos com Lula no centro deles, Camilo estaria com o seu comportamento político comprometido.

Todos os petistas cearenses sabem da relação do governador com os irmãos Cid e Ciro Gomes, os principais patrocinadores da sua candidatura, da eleição, e da sua pretensão de continuar no cargo. A maioria petista faz objeção a essa ligação deles, embora só uns poucos a tornem explícita, mesmo sabendo que sem esse vínculo o PT, muito dificilmente, teria um dos seus chefiando o Poder Executivo estadual.

A ausência de Camilo no evento de ontem, significativo para o projeto da direção nacional do PT de manter alimentada a possibilidade de Lula ser candidato, cala o discurso falso de alguns cearenses de que o governador apoiará Lula.

Postulação

Na política sempre se disse não haver o impossível. No Brasil de hoje, porém, como as coisas têm acontecido, mesmo existindo a Lei da Ficha Limpa, impeditiva de candidaturas de condenados em ações penais confirmadas em segundo grau, situação atual de Lula, daí estar há dois meses cumprindo pena, o ex-presidente, mesmo sendo impossível, pode até ser candidato a governar novamente o País.

A probabilidade, no entanto, é de que não tenha sua postulação registrada no Tribunal Superior Eleitoral. Mas, admitindo-se, para efeito de argumentação, que ele seja candidato, legalmente Camilo não estaria obrigado a tê-lo como seu candidato.

A Constituição brasileira no § 1º do seu Art. 17, não mais impõe aos núcleos estaduais dos partidos a seguir decisões sobre coligações e candidaturas, quando assegura aos partidos autonomia "... E para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações nas eleições majoritárias, vedada a sua celebração nas eleições proporcionais, sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional, estadual, distrital e municipal, devendo seus estatutos estabelecer normas e disciplina de fidelidade partidária".

A fidelidade é questão a ser discutida, internamente, após a eleição, se assim entender o partido, mas seus efeitos são eminentemente internos. No curso propriamente da disputa o partido praticamente nada poderá fazer com o seu filiado.

Camilo, apesar das restrições de alguns petistas, tem voto suficiente no diretório estadual do PT para fazer a coligação com o PDT. E os integrantes deste, pela liderança reconhecida no Estado, tem como garantir a unicidade do palanque de Camilo, e os espaços da propaganda eleitoral da coligação para Ciro Gomes, tema aqui já abordado.

Integração

Evidente que essa situação não constrangerá o governador, mas confortável mesmo ele ficaria se acatada fosse a sua solução para o provável impedimento da candidatura de Lula, uma aliança do PDT com o PT, indicando para ser vice na chapa de Ciro, o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

A prioridade do palanque de Camilo, para Ciro Gomes, já produziu o seu primeiro efeito, no caso da não integração do senador Eunício Oliveira (MDB) na chapa majoritária governista, embora todos os passos tenham sido dados, ultimamente, nesse sentido.

A proximidade do período das convenções partidárias (de 20 de julho a 5 de agosto), deve ter motivado o ex-governador Cid Gomes, pôr um fim às especulações sobre a aliança local com o MDB, alegando a sua impossibilidade em razão do posicionamento do seu irmão candidato a presidente, contra esta agremiação.

No sábado anterior, quando tratamos das ações de Cid nos entendimentos nacionais sobre a candidatura de Ciro, anunciamos o que foi confirmado pelo próprio Cid, de a coligação governista ter apenas um nome para disputar vaga no Senado Federal (neste ano serão eleitos dois senadores).

Foi dito que esse posicionamento permitiria ao governador ter liberdade para votar no senador Eunício Oliveira, candidato à reeleição. O anunciado surpreendeu o universo da política cearense mais ainda quando Cid confirmou, sem, contudo, deixar transparecer que o PDT poderia seguir o caminho de Camilo, votando no senador.

Intensa

Os interesses administrativos de um lado (Camilo e Roberto Cláudio, prefeito de Fortaleza), aliado ao político, do outro (Eunício ser reeleito), motivaram a reaproximação, após aproximadamente três anos de intensa oposição feita pelo senador, ex-integrante da mesma aliança governista, pela qual foi eleito em 2010 com o senador José Pimentel (PT), tendo Cid como o candidato a governador, também eleito naquele pleito.

Eunício ajudou realmente o governador e o prefeito a deslancharem alguns projetos dependentes de recursos federais ou contratação de empréstimos externos, trancados pelo Governo Temer, um dos alvos de críticas dos irmãos Ferreira Gomes.

Ciro e Cid aprovaram a aproximação, ressalvando a questão das administrações, sem contudo, admitirem sua extensão para o campo político-eleitoral, alegando sempre a proximidade das trocas de acusações e insultos entre eles e o senador, sendo Ciro o mais contundente. Eunício conversou com Cid, como aqui registramos, mas não foram além de "zerar" tudo que motivou a intriga entre eles. Com Ciro o senador não teve encontro, e ainda não há abertura para tanto.

O fosso entre o candidato do PDT e o MDB, só aumenta, dificultando mais ainda qualquer mudança do quadro atual. O discurso de Ciro contra o partido de Eunício é virulento, deixando as portas do diálogo cerradas, consequentemente sem abertura até para entendimentos para um segundo turno da disputa.

Arrepio

O acordo entre Domingos Filho, ex-vice-governador do Estado e Cid Gomes foi selado. As partes, contudo, fazem reservas quanto aos seus termos, até pelo fato de ele ter motivado um certo arrepio no meio político, em razão dos efeitos que o rompimento entre eles, no fim de 2016, provocou no meio político e no administrativo com a extinção do Tribunal de Contas dos Municípios, no ano passado, à época presidido por Domingos Filho.

Domingos quer conquistar um mandato no Legislativo, embora sua pretensão, enquanto durou sua permanência na oposição, fosse de disputar um cargo majoritário. Ele tem um filho, deputado federal Domingos Neto, candidato à reeleição, e a mulher, ex-prefeita de Tauá, Patrícia Aguiar, com pretensões de ser deputada estadual. Por conta da volta ao grupo governista, uma reengenharia está sendo estudada, podendo Patrícia sair da disputa para ajudar a eleger uma pessoa de Cid, e Domingos ir para federal com o filho.

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