Em dois anos

Violência eleva números de mulheres mortas e presas

Índices mais que dobraram no Ceará, em dois anos. Elas se ligam às facções e chegam até a cargos de chefia

01:00 · 03.09.2018

Os números de mulheres assassinadas e presas no Ceará mais que dobraram em um intervalo de dois anos. Os dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) revelam "vítimas invisíveis aos olhos da sociedade, que são utilizadas de forma brutal, muitas vezes como iscas, nas disputas entre as facções", segundo o professor de Sociologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Conflitualidade e Violência (Covio), Geovani Jacó.

De janeiro a julho deste ano, 1.587 mulheres foram presas em flagrantes por tráfico de drogas, assassinatos, porte e posse ilegal de arma de fogo, roubos e furtos, 101% a mais que igual período de 2016 - 786 pessoas. A SSPDS também contabilizou 275 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) - homicídio doloso, feminicídio, latrocínio e lesão seguida de morte - contra pessoas do gênero feminino, nos sete primeiros meses de 2018. O aumento em relação ao referente período de dois ano atrás é de 129%, quando 120 mulheres foram mortas. Os dados de agosto ainda não foram consolidados.

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A quantidade de mulheres assassinadas representa 10% do total de homicídios registrados no Estado, neste ano, quando 2.758 pessoas foram mortas, até o fim de julho. O principal motivo dos assassinatos é o tráfico de drogas, como aponta a diretora da Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas (DCTD), da Polícia Civil, delegada Socorro Portela: "Da mesma forma que matam homens envolvidos com o crime, com o tráfico, também matam mulheres. Elas estão ali e as penas são as mesmas, por isso a gente vê crimes mais violentos sendo cometidos contra mulheres, de punição e humilhação, como decepar membros, raspar o cabelo, entre outros".

Facções criminosas

Em março deste ano, três mulheres foram torturadas, mutiladas, assassinadas e decapitadas em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Os momentos da barbárie foram filmados e divulgados nas redes sociais. A Polícia Civil apontou que o motivo para o triplo homicídio era a disputa de território entre as facções Guardiões do Estado (GDE) e Comando Vermelho (CV). No vídeo, antes de matá-las, os criminosos, membros da GDE, mandam as vítimas dizerem que deixaram o CV, atitude inaceitável em qualquer organização criminosa. Quatro suspeitos foram capturados pelo crime e o caso foi considerado elucidado.

Jacó afirma que, em alguns casos brutais, as mulheres são mortas por terem relações afetivas com membros de um organização criminosa, seja de amizade ou de relacionamento. O criminoso quer mostrar "força" e atingir o rival. "As facções usam da barbárie para serem respeitadas pelos seus algozes e pela sociedade, porque assim serão temidas", pontua o sociólogo.

Conforme a delegada Socorro Portela, pessoas do gênero feminino estão, cada vez mais, em posições de protagonismo no "mundo do crime". Muitas vezes, isso ocorre porque o parceiro foi preso e ela tem que assumir o lugar dele na organização criminosa. "Elas recebem as instruções dos maridos e realizam os crimes. Se precisar, elas mandam ou matam, roubam, recebem e distribuem armas e drogas", acrescenta.

No entanto, essas mulheres costumam continuar à sombra do marido, mesmo preso, segundo Jacó. "O universo do crime é muito machista para que elas assumam o papel de cabeça, dos chefões", explica.

Perfil

A maioria das pessoas do gênero feminino executadas ou presas tem perfil similar aos homens que se envolvem com a criminalidade: são jovens, entre 15 e 25 anos, com baixa escolaridade, negras ou pardas e pobres. Segundo o professor Geovani Jacó, essas mulheres residem nas periferias das cidades. "Muitas delas participam da lógica das organizações criminosas, do tráfico. Outras, não. Mas elas estão no campo de relações afetivas dos participantes e por isso acabam sendo vítimas".

As mazelas sociais que afetam as pessoas carentes no País corroboram para a entrada no mundo do crime, independente de gênero. "O traficante, no vazio deixado pelo Estado na distribuição de bens materiais e simbólicos, coloca a possibilidade desses jovens, do sexo masculino ou feminino, se apropriarem de coisas, saírem da invisibilidade social em que estão inseridos e terem a admiração dos seus pares", detalha o sociólogo.

A delegada acrescenta que há mulheres que se envolvem com a criminalidade por diversos fatores: "Muitas têm filhos para criar, são viciadas, vão pelo caminho mais fácil e resolvem traficar, roubar. Outras se sentem obrigadas, não de forma forçada, mas pela afetividade , e continuam com a atividade criminosa do marido". (Colaborou Alessandra Castro)

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