cidade dos funcionários

Universitária é morta com tiro nas costas, disparado por PM

Segundo a Polícia, o soldado teria atirado por suspeitar da atitude da motorista do automóvel HB20

A universitária foi levada ao Instituto Doutor José Frota (IJF), onde foi submetida a uma cirurgia para reparar a lesão no pulmão, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos e morreu, na manhã de ontem, no hospital ( FOTO: NATINHO RODRIGUES )
01:00 · 13.06.2018
Giselle Távora Araújo, 42, estava com a filha no momento em que a PM atirou contra o automóvel dela

A noite seguia normal para Giselle Távora Araújo, de 42 anos. Estava com a filha em um Hyundai, modelo HB20, quando seu destino mudou. Escutou alguns estampidos, imaginou ser um assalto, e como a maioria dos moradores de Fortaleza, tentou escapar de mais um ato de violência. Não adiantou. Ao avançar no cruzamento, um semáforo aceso em vermelho fez uma arma disparar: um soldado PM suspeitou da conduta da universitária e atirou. O caminho de volta para casa estava encerrado. Assim como estavam encerrados todos os outros caminhos. Um tiro nas costas consumou seu medo, sua fuga, sua tentativa de escapar. 

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A estudante do curso de Administração de Empresas foi alvo dos tiros, por não ter obedecido a uma suposta abordagem policial. O fato aconteceu na noite de segunda-feira (11), na Avenida Oliveira Paiva, bairro Cidade dos Funcionários. Giselle morreu na manhã de ontem, no Instituto Doutor José Frota (IJF).

O PM suspeito de atirar está solto. O episódio está sendo investigado pela Delegacia de Assuntos Internos (DAI) da Controladoria Geral de Disciplina (CGD), que informou ter tomado providências e instaurado inquérito policial e Processo Administrativo Disciplinar (PAD). “O policial se apresentou espontaneamente, quando foi interrogado, livrando o flagrante nos termos da legislação penal. Outras diligências estão em andamento no momento”, completou a CGD, em nota.

A reportagem apurou que os três policiais que fazem parte de uma equipe de Motopatrulha (MP), registraram um Boletim de Ocorrência (B.O.) no 34ºDP (Centro). No depoimento, um dos militares alegou haver a suspeita de o veículo ser roubado e que o colega atirou para acertar o pneu.

O militar detalhou que estavam em patrulhamento, quando avistaram o Hyundai HB20, de cor branca, em “atitude suspeita”, que coincidia com as características de um carro roubado na região. Os policiais teriam dado ordem de parada ao menos duas vezes, mas a motorista teria acelerado, avançado sinais vermelhos e entrado na contramão.

Um soldado disparou um tiro, com uma carabina, calibre 40, que atingiu as costas da vítima e perfurou o pulmão. O veículo foi parado. Os policiais militares fizeram a abordagem e se depararam com a iminente tragédia.

Desespero 

A filha de Giselle, Dani Távora, 19, viu tudo de perto. A moça acompanhava a mãe e disse, à reportagem da TV Diário</CF>, na noite de segunda (11), que ela não parou o HB20, porque pensou se tratar de um assalto e ficou com medo. “Não fazíamos ideia que era para a gente. Pensamos que era um assalto com outras pessoas. Escutamos disparos e pedi para minha mãe sair dali, até que ela levou um tiro”.

Uma ambulância atendeu a mulher baleada e a levou para o IJF. A vítima chegou a passar por uma cirurgia, mas morreu às 6h20 de ontem. Familiares da universitária foram ao 13ºDP (Cidade dos Funcionários), por volta de 9h e disseram estar procurando respostas para o caso.

Dani Távora desabafou sua indignação nas redes sociais com a morte da mãe. “Estamos todos muito abalados e transtornados com a incompetência da Polícia, que atirou covardemente pelas costas sem uma abordagem. Uma mulher, mãe e esposa que estava apenas assustada com o tumulto. Descanse em paz, minha doce mãe!”.

Investigação 

O governador Camilo Santana e o secretário da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), André Costa, lamentaram a morte de Giselle Araújo, reforçaram a importância da investigação para elucidar o caso e defenderam a Polícia cearense, ontem.

Santana citou o trabalho realizado na Academia Estadual de Segurança Pública (Aesp-Ce). “É lamentável, mas tudo deverá ser investigado e identificados os motivos dessa fatalidade. Considero que toda Polícia é bem preparada, claro que infelizmente acontecem fatos. Estamos com programação na Academia não só para novos policiais, temos formações continuadas de capacitação, aperfeiçoamento”.

Já André Costa, disse que milhares de abordagens são realizadas pelos policiais, e a minoria apresenta situações como essa. “Fazemos, por ano, dezenas ou talvez centenas de milhares de abordagens. Esse evento está sendo apurado ainda. Os policiais foram ouvidos na Delegacia e na CGD. Está muito no início para fazermos afirmações. Mas a gente confia muito no trabalho dos nossos policiais”

O titular da SSPDS garantiu que a investigação não sofrerá interferência. “Esse trabalho é feito com isenção e imparcialidade, sem interferências, para que a sociedade possa ter a resposta que merece em relação a isso”. 

Fique por dentro

Portaria delimita uso da força pelas polícias

A Portaria Interministerial Nº 4.226, de 2010, estabelece diretrizes sobre o uso da força por agentes de Segurança Pública. O documento diz que "não é legítimo o uso de armas de fogo contra pessoa em fuga, que esteja desarmada ou que, mesmo na posse de algum tipo de arma, não represente risco imediato de morte ou de lesão grave aos agentes de segurança pública ou terceiros". Como também "não é legítimo o uso de armas de fogo contra veículo que desrespeite bloqueio policial em via pública, a não ser que o ato represente um risco imediato de morte ou lesão grave aos agentes de segurança pública ou terceiros". Conforme a Portaria, "disparos de advertência" não são considerados prática aceitável, em razão da imprevisibilidade de seus efeitos.

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