Reportagem Sem Fronteiras: Os Caminhos do Crime Organizado

Uma fronteira vulnerável e as consequências para o Ceará

01:00 · 17.01.2018 / atualizado às 08:55 por Márcia Feitosa - Editora

A reportagem foi até Foz do Iguaçu, no Paraná e Ciudad del Este, no Paraguai, para mostrar os desafios para controlar o fluxo de material ilegal 

O Brasil tem mais de 16 mil quilômetros de fronteira. A área representa 27% de todo o território nacional e 5% da população mora ao longo desta extensa faixa. Temos dez países vizinhos, inclusive grandes produtores de maconha e cocaína. Antes, éramos muito visados como uma ponte de envio de droga para a Europa, África e para os Estados Unidos da América (EUA); agora, a realidade é outra. De acordo com a Polícia Federal, o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo, ficando atrás apenas dos EUA. Diante de um mercado tão promissor, há um investimento cada vez maior das facções para atender à demanda interna e para manter as exportações. As consequências do que entra pela fronteira - tão distante geograficamente - estão chegando cada vez mais perto. O problema dos poros abertos entre Brasil e Paraguai, por onde passa tanta droga e arma, é um problema do Ceará também. 

INSPETOR Delano Cerqueira Bunn, superintendente da Polícia Federal no Ceará (Foto: Kléber A. Gonçalves)

Nos anos 1990, o Ceará foi incluído de forma definitiva em uma rota internacional do tráfico. O Estado é o fim da linha. Daqui os entorpecentes seguem para os outros continentes. O superintendente da Polícia Federal (PF) no Ceará, Delano Cerqueira Bunn, diz que o Estado é nacionalmente conhecido como parte de rotas internacionais de narcóticos. “Tanto o modal aéreo, quanto o modal marítimo para o transporte de droga são um grande desafio da PF. Percebemos claramente que o aumento do efetivo da Polícia Federal traria uma maior capacidade de fortalecimento institucional. Os portos são desafios ainda maiores. A busca exploratória em contêineres demanda um trabalho de Inteligência e investigações policiais acuradas, que possibilitem obter informações precisas para a identificação cirúrgica de um determinado contêiner. Trabalhamos com análises de origem, intermediadores e destinatários do contêiner. Nos portos, normalmente, temos bases da PF com equipes responsáveis pelo Controle Migratório e pela Segurança Portuária”, afirmou.

Em 2017, aconteceu a maior apreensão de drogas já registrada no Estado. Quatro toneladas de maconha prensada, que vinham de São Paulo, foram encontradas em um caminhão, por equipes da Polícia Rodoviária Federal (PRF), em Jaguaribe. Os carregamentos confirmam para a presença das grandes organizações criminosas, com poder aquisitivo, no Estado. “A investigação de combate ao tráfico demanda tempo. Para cada célula investigada, com a individualização de condutas bem detalhada, é deflagrada uma operação policial. No ano passado, tivemos reiteradas operações tanto no Ceará, como de outros estados que repercutiram aqui. É uma atividade constante”, declarou o superintendente.

Delano Bunn pontua que o Ceará também é um grande mercado consumidor de drogas. “Hoje a questão da droga ultrapassa a Segurança Pública. Se está vindo entorpecente mais caro para cá é porque tem mercado consumidor forte. Grande parte das apreensões que acontecem aqui é de droga que abasteceria o mercado interno. O Ceará é um dos estados que mais contribui para o tráfico. Ainda mais pelo aspecto da rota internacional. As prioridades da Polícia Federal são o combate à corrupção e ao tráfico de drogas. Não dá para direcionar todos os recursos humanos para combater apenas o tráfico”, afirmou o delegado federal.

 

Corrupção

Delano Bunn foi questionado se as investigações de combate à corrupção realizadas pela Polícia Federal já encontraram alguma ligação de políticos com o tráfico de drogas, no Ceará, mas disse que, por enquanto, nada de concreto. “Nada confirmado. Informações, denúncias chegam ate a PF, mas até se confirmar é outro caminho. É outra situação. Como saber se a origem do Caixa 2 é do tráfico? É preciso que aconteça alguma apreensão da droga, ou patrimonial. Sabemos que o dinheiro utilizado para a propina é do tráfico. Isso é um fato. Mas para dizermos que o dinheiro do tráfico financiou uma campanha precisamos de um caso concreto”, ressaltou.

Pelo Estado também passa uma rota de contrabando de mercadorias. Os principais produtos que entram aqui de forma ilegal são cigarros e aparelhos eletrônicos, conforme a PF. “Sabemos que as rotas de contrabando distam muitas milhas da nossa costa. Essas dificuldades são comuns entre todos os países que são rotas de tráfico e contrabando, mas somente com o trabalho coordenado entre Marinha, PF e demais agências de Segurança Pública poderemos superar os óbices. Temos desafios logísticos para a atividade de patrulhamento marítimo. Os investimentos em matéria de embarcações são sempre elevados. Os equipamentos, normalmente, sofrem uma maior deterioração em razão dos fatores naturais”, esclareceu Bunn. 

 

Facções 

A respeito da ofensiva das maiores facções do País no Ceará, o superintendente da PF diz que não há um fator específico de atração. “Ausência de investimento na Segurança Pública, na área de prevenção, um Sistema Penitenciário em crise, Poder Judiciário que não dá resposta no tempo adequado. Tudo isso contribui”. 

Delano Bunn ressalta que os problemas do Sistema Penitenciário têm favorecido às facções. “Não é privilégio do Ceará, é um problema nacional. Temos que reconhecer o grande problema de infraestrutura penitenciária. Além de déficit de vagas, há questões estruturais de facilidade para comunicação com aparelhos celulares. Investigamos fatos, não investigamos pessoas. Não ficamos perseguindo uma pessoa para achar algo dela. Não sei até que ponto é bom aglutinar todos de uma facção em uma só prisão”, considerou.

Morte de megatraficante facilitou o avanço do PCC

Uma Toyota Fortuner SUV, roubada na Argentina, emparelhou com um Hammer, blindado, e uma rajada de disparos de .50 foi efetuada, na noite de 15 de junho de 2016, no Centro de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Os doze seguranças que acompanhavam o Hammer revidam. Não adiantou. O ‘Rei da Fronteira’, Jorge Rafaat Toumani, estava morto. Rafaat era o homem mais poderoso na fronteira entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Ocupou o posto após a prisão de ‘Fernandinho Beira-Mar’, em 2001. Mantinha esquemas com traficantes peruanos e bolivianos, que abasteciam o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). As conexões de ‘Saddam’ ou ‘Turco’ iam além e chegavam também às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e à máfia italiana, especificamente ao grupo ‘Ndrangueta, da Calábria. 

As investigações sobre a execução dão conta que o PCC havia se aliado ao traficante Jarvis Gimenez Pavão, ex-sócio de Rafaat, para eliminá-lo. A disputa pelo corredor que escoa drogas e armas para o Brasil causou vários desentendimentos, inclusive entre PCC e CV. De acordo com informações apuradas pela Delegacia de Facções do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), da Polícia Civil de São Paulo, até mesmo ‘Pavão’ está brigando para assumir o posto de ‘Rei da Fronteira’. 

 

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Jorge Rafaat Toumani, narcotraficante que era tido como Rei da Fronteira

Dívidas

Um investigador do Deic revelou que os desentendimentos entre Jorge Rafaat e o PCC já aconteciam há algum tempo. “Além de tentar tomar o controle da fronteira, já havia outras discordâncias. Vários membros da facção compraram maconha do Rafaat e ficaram devendo. O narcotraficante entendeu que a droga seria da facção e não dos membros separadamente. Por conta disto, cortou o fornecimento para o PCC”, explicou. Um desses desentendimentos teria se dado com o bando de Alejandro Juvenal Herbas Camacho, que tinha um núcleo no Ceará. Um membro do bando transportava milhares de dólares da quadrilha, quando foi preso. O dinheiro deveria pagar um carregamento de drogas. 

“O PCC está avançando no Paraguai, mas ainda não é o mais forte. Mandou para lá um funcionário chamado Elton Rumich da Silva, o ‘Galã’, para atuar na estruturação de rotas de drogas e armas. Ele já havia constituído lá uma empresa no ramo do agronegócio, quando foi identificado usando o nome falso de Ronald Benites. Já existe o Comando Geral do PCC no Paraguai dentro das penitenciárias, onde são contabilizadas 200 pessoas suspeitas de terem qualquer envolvimento com a facção”.

Um relatório da ONG norte-americana Fundação de Defesa da Democracia (FDD), que atua no combate a grupos terroristas, revelou que o PCC se aliou à organização paramilitar libanesa Hezbollah, e está comprando drogas no Paraguai e Colômbia para repassar ao grupo. “É mais um problema grande, porque se trata de mais um grupo violento e poderoso. Sinceramente, não sei se Rafaat era um problema maior vivo ou morto. Nunca faltará quem queira ser rei dessa fronteira”, disse o investigador do Deic. 

Brasil e Paraguai buscam soluções para o derrame de narcóticos

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Foz do Iguaçu / Ciudad del Este. Na Ponte da Amizade o vaivém de carros, motos, ônibus, caminhões e pessoas deixa claro que aquela é a fronteira terrestre mais movimentada do Brasil. A aparência tranquila de Foz do Iguaçu acaba quando a ponte é avistada. Do outro lado, a impressão é de que toda a cidade está à venda. Ciudad del Este, no Paraguai, é coberta de letreiros luminosos, de placas indicando os melhores preços, de barracas nas ruas. Conforme levantamento da Polícia Federal (PF), em média, 700 caminhões e 80 mil pessoas passam de um país para o outro todos os dias. Fora este fluxo, ainda há trânsito de embarcações no Rio Paraná, no Lago de Itaipu e em seus braços. A fronteira é uma linha complexa, que diz muito mais do que é Brasil ou Paraguai.

No lado brasileiro da ponte militares do Batalhão de Policiamento de Fronteiras da PM do Paraná (BPFron) revistavam um automóvel em que estavam alguns bolivianos. Havia uma pequena quantidade de droga com um deles. Mais à frente, policiais da Força Nacional de Segurança, alertaram: “Cuidado, o Paraguai é terra de ninguém”. Mas a impressão foi o contrário, o Paraguai parece ser de todo mundo. Tomada de brasileiros, argentinos e bolivianos, Ciudad del Este já é o segundo centro comercial do País, perdendo apenas para a Capital, Assunção. José Mendieta, chefe um dos setores da Aduana de Ciudad del Este, diz que as fiscalizações estão sendo otimizadas. 

PONE Marco das Três Fronteiras. As fiscalizações são diferentesde país para país

O fluxo massivo de veículos e pessoas, geralmente, começa às 3h e vai até aproximadamente 20h, todos os dias. A fiscalização de ingresso e egresso de pessoas, mercadorias e veículos tem sido intensificada, para evitar o contrabando. Estamos tentando aumentar o nível das fiscalizações, de maneira a demonstrar que os controles são estritos. Isso se reflete na arrecadação mensal. A cada mês estamos tendo um superávit”, afirmou Mendieta.

O chefe da Delegacia de Polícia Federal em Foz do Iguaçu, delegado Fernando Bordignon, disse que o problema da fronteira é a dimensão. “Os Estados Unidos da América (EUA), por exemplo, é um País poderoso, forte economicamente e tem uma fronteira de 3 mil quilômetros com o México com sérias dificuldades de controle. Não é um problema exclusivo do Brasil, é generalizado. Passa pela solução policial, mas também por conscientização, diminuição do consumo de drogas. Alguns dizem até pela liberalização, mas eu não acho que seja o melhor caminho”.

Segundo o delegado, a PF tem acordos de cooperação com os países vizinhos, produtores de drogas, para a erradicação de plantios de maconha no Paraguai e a destruição de laboratórios de refino de cocaína no Peru, Colômbia e Bolívia. “Tentamos fazer com que essa droga não seja nem colhida. O ideal é que ela seja cortada e incinerada, quando ainda está plantada. É importante evitar que a droga se espalhe, chegue aqui. Ir buscá-la na fonte é muito mais eficiente. Localizar droga depois que ela saiu para ser distribuída é bem mais complicado”, pontua Bordignon. 

AR Ponte da Amizade, que liga Foz de Iguaçu a Ciudad del Este

Narcoestado

Localizada em uma área de fronteira tríplice (Paraguai, Brasil e Argentina), Foz do Iguaçu não é o ponto mais crítico. A selva amazônica, onde o patrulhamento é hostil; e Ponta Porã, onde o tráfico é extremamente violento, são as maiores preocupações. Um militar da Força Nacional, que não quis se identificar, disse que no Mato Grosso a situação se agravou e está sem controle. “Aquela parte da fronteira está caótica. Acredito que a curto prazo não tenha muito o que se fazer para impedir o derrame de drogas entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã. Acho que a luta da Polícia, daqui em diante, tem que ser para aquele ponto não se transformar em um narcoestado”.

Fernando Bordignon disse que as polícias do Brasil, Paraguai e Argentina se reúnem três vezes por mês para discutir estratégias de enfrentamento ao tráfico. “Não dá para dizer o que pode ou vai acontecer na fronteira. A criminalidade não liga para onde termina o Brasil ou onde começa o Paraguai. Eles querem é levar droga de um ponto a outro e, quanto mais longe ela for, mais cara vai se tornar. O importante é que as Polícias na fronteira se conheçam, trabalhem de maneira unida. O Paraguai entregou esse ano 20 foragidos brasileiros que estavam lá, sem a necessidade de processos demorados de extradição. Verificam o cidadão brasileiro, que normalmente usa um documento falso lá, e fazem um contato conosco. Nós fazemos a deportação sumária pela Ponte da Amizade, cumprimos o mandado de prisão e entregamos a pessoa para as autoridades de cada Estado. Temos vários brasileiros foragidos, escondidos no Paraguai, mas, hoje em dia, estar foragido lá não é uma garantia de vida tranquila”. 

AR
Entrada em Ciudad del Este, no Paraguai

Patrulhamento

O agente de Polícia Federal, Augusto Rodrigues, que trabalha na base do Núcleo Especial de Polícia Marítima (Nepom), diz que somente o grupo especializado apreendeu mais de 10 toneladas de maconha, em 2017, no Rio Paraná e no Lago de Itaipu. A média, segundo ele, é que a retenção seja de 12 a 15 toneladas ao ano.

Rodrigues atua há mais de 30 anos na área de fronteira e não considera a chegada do Primeiro Comando da Capital (PCC) um abalo na Segurança Pública, mesmo criminosos ligados à facção tendo protagonizado um ataque cinematográfico a uma transportadora de Ciudad del Este. O bando conseguiu levar 11 milhões de dólares, uma quantia em real e outra em guaranis não contabilizadas. Após o ataque, houve um confronto com a Polícia e três pessoas morreram, inclusive Diego Santos Silva, o ‘sintonia’ (líder) da rua do PCC em São Paulo. Outras dez pessoas foram presas em flagrante.

“Se a facção está aí, o Estado também está e é muito mais forte que ela. O Paraguai tem outros grupos organizados de narcotraficantes. Ao Norte, existe um movimento guerrilheiro, o Exército Popular Paraguaio (EPP), ligado a outro movimento muito antigo chamado Pátria Livre. Juntos, fizeram ações de sequestro de fazendeiros, roubaram bancos em Assunção, entraram em confronto com a Polícia paraguaia. Aqui em Foz do Iguaçu, já teve um grupo chamado Primeiro Comando da Fronteira, formado principalmente de assaltantes de banco. Não vejo diferencial no PCC, são criminosos como os outros”, considerou.

Com um olhar esperançoso para o Rio Paraná, Rodrigues afirma: “A fronteira não é causa do tráfico. O Paraguai não pode ser visto como um problema, porque não é muito diferente de nós. No Lago de Itaipu passa muita coisa ilegal, mas também está uma das maiores hidrelétricas do mundo. A Ponte da Amizade, esse Rio traz muito mais coisa boa que ruim para o Brasil”.

 

 

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