Reportagem Chacina

Um mês depois, Benfica ainda tenta se reerguer

Aos poucos, a Praça da Gentilândia, palco da primeira ação, vai começando a ganhar vida nova. Ainda que os bares não possuam mais tanta vida assim, transeuntes passam pelo local em meio a pinturas e fortificações do luto da Capital (Foto: Kid Júnior)
01:00 · 09.04.2018 por Cadu Freitas - Repórter

23h30. Fortaleza mal pensara em arrumar os panos para dormir quando os primeiros disparos soaram pelos corpos de três homens (e aos ares) na Praça da Gentilândia, no Benfica. Cerca de quatro horas e meia antes, às 18h, Douglas Matias da Silva - que viria a ser preso pela "Chacina do Benfica" - saía da casa da namorada, no Meireles, acompanhado dela e da empregada doméstica que trabalha no local.

Dentro de um Fiat Punto branco, de placa clonada, Douglas e a namorada deixaram a doméstica em uma parada de ônibus e seguiram para uma festa no bairro Lagamar. Enquanto o festejo rolava na rua, o telefone dele tocou. De acordo com informações divulgadas por um servidor da célula de Inteligência da Polícia, Marcus Sá de Assis Sobrinho, o 'Marquim', ligava diretamente da Casa de Privação Provisória de Liberdade Professor Clodoaldo Pinto (CPPL II), onde está preso, a fim de ordenar a sequência de crimes.

O alvo seria um homem conhecido por 'Geovane' ou 'Geo', que estaria na sede da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), na Vila Demétrio - segundo ponto da chacina. 'Geovane' teria ameaçado 'Marquim' de morte e assassinado três pessoas entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2018. Dois deles foram mortos no dia 25 de dezembro: Renato Timbaúba Farias, na Praça da Gentilândia, e Clóvis Thiago Ferreira Chaves, na Avenida Expedicionários, ambos no Benfica; o outro, Jorge Luis Rodrigues da Silva, foi morto exatamente um mês antes da chacina, em 9 de fevereiro deste ano, na Rua Felino Barroso, no Bairro de Fátima.

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A ida

"Vou ali e já volto", disse Douglas à namorada após atender a ligação. Eram 22h e ele saíra com dois amigos que estavam na festa do Lagamar. O que ela não imaginava é que os três iriam se envolver na quarta chacina registrada no Estado do Ceará apenas em 2018.

No depoimento, Douglas disse ter passado primeiramente próximo à sede da TUF, ter reconhecido algumas pessoas como "inimigas" - por serem da facção Comando Vermelho (CV), uma vez que eles são da opositora Guardiões do Estado (GDE). Os dois comparsas teriam descido do veículo, atirado em três rapazes e, na fuga, atingido mais dois que vinham em uma motocicleta vermelha na Rua Joaquim Magalhães. Após o crime, eles fugiram pela Rua Major Facundo e voltaram à festa no Lagamar em outro carro. Segundo a namorada, Douglas estava "visivelmente nervoso".

Apesar da afirmação de não ter participado do ataque na Gentilândia, Douglas não esperava que a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) ligasse as armas utilizadas na Vila Demétrio e na Rua Joaquim Magalhães às da Praça. Além disso, um dos tiros dados em uma vítima veio da pistola Ponto 40 apreendida no apartamento de luxo no qual ele seria preso dois dias após o crime.

Desencontros

18h. Mal acabara a última aula da sexta-feira e dois amigos universitários já pensavam em ir comemorar a chegada do fim de semana. Enquanto um deles se dirigia a uma reunião, o outro ia a um bar na Avenida 13 de Maio, no Benfica, fazer o que costumeiramente faz: ser o primeiro cliente atendido. Entre um copo gelado de cerveja e o fim das conversas do encontro acadêmico na Universidade Federal do Ceará (UFC), a noite se estendeu.

Embora o tempo passasse lento para o amigo do bar, o outro observava o relógio como uma bala; do fim da reunião às comemorações em uma festa na Universidade passaram-se três horas de tranquilidade. Com grupos de amigos separados, em cinco, ambos resolveram ir à Gentilândia na noite do dia 9 de março de 2018. Quando os ponteiros marcaram 22h30, era fácil contabilizar 300 pessoas distribuídas entre a Praça, os bares e a Rua Paulino Nogueira.

"Como tava muito lotado, a gente foi pra uma banquinha comer pastel", relata Mariano Dias*, ao lembrar do momento em que se separou do namorado e de uma amiga, que haviam ido ao banheiro em um bar da região. A poucos metros dalí, Charles Silva* se despedia de colegas e seguia para a Praça da Gentilândia com outro amigo: "a gente não costuma ficar até depois de 22h porque fica caro pra voltar pra casa". Porém, a noite foi diferente.

"Comecei a escutar vários papocos: 'pá, pá, pá, pá, pá'. Todos ao redor caíram pra dentro da barraca do pastel", lembra Mariano ao tirar da memória que considerou que os disparos fossem apenas brincadeira. No momento dos tiros, Charles Silva estava a dez metros do primeiro atingido, mergulhado no chão, amiudado para não ser visto: "quando a gente viu que continuava e o barulho tava se aproximando, eu olhei pra trás e vi três homens chegando muito perto de onde a gente estava".

Encontros

Quando os atiradores se aproximaram da primeira vítima, "foi coisa de dez segundos, todo mundo disparou a correr". Charles disse ter visto o criminoso atirar repetidas vezes no primeiro homem. Em seguida, a arma travou e, ainda assim, ele tentava apertar o gatilho. "Foi a hora que eu corri pra lateral da Praça, perdi minha sandália e tinha ainda muita gente escondida atrás de carros estacionados". Nesse instante, o jovem ouviu seu nome; Mariano, escondido atrás das barracas de pastel, o chamava em desespero.

Após o encontro, a preocupação se voltou aos demais que estavam com eles durante a noite. Ambos andaram alguns metros em direção ao primeiro ato da chacina e avistaram todos os amigos perdidos - assustados dentro de um restaurante de frente para a Gentilândia.

"Foi uma situação que tenho certeza que nunca vou esquecer", "era um cenário que jamais pensei presenciar em uma realidade tão próxima", "não tenho mais tanta vontade de voltar lá". No fim das contas, as frases dos dois podem se misturar entre si; o pensamento, contudo, é de cada um, individual, como se as marcas deixadas pelo atentado cicatrizassem de formas diferentes, sob dor ou força.

Um mês depois, o cenário da investigação é de um para quatro. Apenas Douglas Matias da Silva está sob custódia, enquanto outros três investigados continuam foragidos. Em 27 de março deste ano, a Justiça colocou o processo relativo à Chacina do Benfica em segredo de Justiça. Nem a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), nem o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) se manifestam sobre o caso. Enquanto isso, a Gentilândia segue vazia, como se tentasse construir pilares na tentativa de se reerguer.

(*Os nomes das testemunhas são fictícios)

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