SEGURANÇA PÚBLICA

Secretário prevê ´grave crise´

03:15 · 14.11.2007
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Superlotação de presos nas delegacias poderá aumentar com a implantação do projeto ´Ronda do Quarteirão´


“Estamos nos avizinhando de uma crise muito grave. Quando teremos segurança? Não sei responder a esta pergunta. Diria que só Deus sabe. Estou fazendo o possível.” O desabafo foi do secretário da Segurança Pública e Defesa Social, delegado federal Roberto das Chagas Monteiro, diante dos deputados estaduais, jornalistas, representantes de vários setores da Segurança e de policiais civis em greve, ontem, na Assembléia Legislativa.

Durante cerca de quatro horas ininterruptas, Monteiro respondeu às indagações dos deputados. Antes, fez o que chamou de ‘prestação de contas’ de seu trabalho de 10 meses à frente da Segurança Pública do Ceará. A audiência pública, realizada por requerimento do deputado Adahil Barreto, transcorreu sem incidentes, embora Monteiro tenha sido obrigado a interromper sua fala por alguns vezes diante de gritos de uma pequena representação de policiais grevistas nas galerias da AL.

Fraco

Coube ao deputado estadual Ely Aguiar, da bancada de apoio ao Governo, proferir o discurso mais inflamado contra o secretário. “Como secretário, o senhor é fraco”, disparou o parlamentar.

Sobre a ‘grave crise’ que segundo ele, se avizinha, Monteiro se referia ao problema da superlotação de presos nas delegacias de Polícia. Para ele, com a implantação do projeto Ronda do Quarteirão (sem data prevista para seu lançamento), a expectativa é de que aumentem as prisões de marginais nas ruas da cidade. “Quando cheguei aqui (no Ceará), as delegacias estavam praticamente vazias, graças à construção de dois presídios pelo Governo anterior. Mas hoje, temos aproximadamente 600 presos nos distritos. Não temos mais onde botar preso. Quando o ‘Ronda’ chegar, isso vai aumentar ainda mais. Estamos diante de um grande dilema: onde botar mais presos?”

Contas

Na ‘prestação de contas’, Monteiro ressaltou a determinação do governador Cid Gomes para a implantação, ainda este ano, de delegacias da Polícia Civil em cinco Municípios: Parambu, Ipueiras, Lavras da Mangabeira, Viçosa do Ceará e Mauriti. A medida seria o passo inicial para sanar a grave situação de insegurança no Interior e a desmobilização da Polícia Judiciária.

Segundo ele, atualmente, apenas 44 dos 184 Municípios cearenses dispõem de delegacias de Polícia Civil. “ Há municípios onde a segurança é feita por dois ou três policiais. Isso não é nada, nada. Pernambuco tem uma PM com 16 mil policiais. Aqui, a PM tem apenas 12.200 homens. Na Polícia Civil o efetivo é reduzido à insignificância de 2.014 policiais.” Ainda em seu balanço, Monteiro citou, uma a uma, todas as operações realizadas pelas polícias Civil, Militar, Corpo de Bombeiros e pelo Gabinete de Gestão Integrada (GGI) na Capital e Interior, com ênfase para o combate à pirataria.

O secretário defendeu o ‘pacote’ de projetos que deverá ser encaminhado à Assembléia em breve, com itens prioritários, entre eles, destacou o de interiorização da perícia forense.

O projeto prevê a construção de núcleos do Instituto Médico Legal (IML) nos Municípios de Iguatu, Brejo Santo, Russas, Tauá, Baturité, Tianguá e, ainda, Itapipoca.

“A idéia é existência de um IML à cada 100 quilômetros. Na situação atual, muitas vezes, o cadáver quando chega ao IML para ser necropsiado, já está em estado de putrefação.” O projeto ainda, segundo Monteiro, prevê que o IML se torne um órgão autônomo, deixando de ser subordinado à Polícia Civil. “A Perícia Forense seria a quarta vinculada da SSPDS.” Hoje, existem núcleos do IML somente em Juazeiro do Norte, Sobral e Quixeramobim, além da sede do órgão, na Capital.

Armas

Roberto Monteiro também falou sobre o episódio em que armas de grosso calibre (fuzis) desapareceram do quartel do Comando-Geral da PM. “Não creio que estas armas estejam escondidas no próprio quartel. Acho que elas realmente foram furtadas. Há uma investigação a respeito.”

Em outros momentos de seu pronunciamento aos deputados, o secretário da Segurança anunciou a aquisição de 200 viaturas e a recuperação de dois dos três helicópteros do Ciopaer (o terceiro deverá estar pronto em janeiro).

DESABAFO

"Quando teremos segurança? Não sei responder a esta pergunta. Diria, que só Deus Sabe. Estou fazendo o possível"

"Os criminosos parecem não ter dados bolas à operação contra o extermínio. Não estão preocupados"

"Temos aqui uma Polícia à beira de um ataque de nervos, uma Polícia sem autocontrole"

Roberto Monteiro
Secretário da Segurança Pública

SEM SOLUÇÃO

Acúmulo de detentos atinge também o Interior do Estado



A superlotação de presos nas delegacias de Polícia tem preocupado seriamente o secretário da Segurança. Segundo ele, em unidades policiais do Interior, assim como na Capital, há situações gravíssimas. “Estive em Crateús e fiquei abismado com o que está acontecendo ali”, disse o secretário se referindo aos presos da Justiça que são mantidos sob confinamento judicial no quartel onde funciona o comando do 7º Batalhão da PM.

Segundo Monteiro, nas celas destinadas a abrigar os presidiários, as condições são subumanas. “Em celas de quatro (metros) por seis, estão de 17 a 18 presos. Sinceramente, fiquei penalizado com o que vi. Estive com o juiz, com o promotor, mas não há solução. Não há outro lugar onde botar todos aqueles presos.”

Extermínio

Além da questão da superlotação das delegacias, Monteiro deixou transparecer um incômodo que, em entrevistas anteriores ele disse tirar-lhe o sono: os crimes com características de pistolagem. São fuzilamentos que vêm ocorrendo sistematicamente nas ruas de Fortaleza, da Região Metropolitana e no Interior. “Os criminosos parecem não ter dado bolas à operação. Parece que não estão preocupados com o fato de que poderão ser presos a qualquer momento”, disse Monteiro se referindo à operação ‘Companhia do Extermínio’, realizada na semana passada pela Polícia Federal e que resultou na prisão de 20 pessoas acusadas de compor um grupo de extermínio.

´Quando a operação aconteceu, tínhamos 272 assassinatos com estas características. Depois da operação, aconteceram mais cinco crimes, aumentando para 277”, afirmou.

Monteiro afirmou que foi a partir da constituição de mais uma força-tarefa da Polícia Civil que veio à tona a existência de crimes conexos, praticados por pessoas que agora já estão devidamente identificadas.

O resultado deste trabalho de apuração ensejou a deflagração da operação ocorrida na semana passada.

O secretário explica que os índices de assassinatos nos fins de semana, por exemplo, constantemente oscilam. “Já tivemos fins de semana com oito, nove e até 11 homicídios. Mas já tivemos um sem o registro de nenhum caso. As operações são muito importantes. Mas, não podemos ficar o tempo inteiro em um só lugar.”

Concurso

A deficiência de efetivo nas duas polícias também foi tema de questionamento dos deputados. O secretário informou que, quanto à Polícia Civil, um concurso está em pleno andamento para o preenchimento de vagas para 83 delegados e 223 escrivães. O processo seletivo já está em sua última fase e, até o fim do ano, os novos policiais deverão ter sido selecionados para, no começo de 2008, iniciarem o curso de formação. Monteiro fez questão de ressaltar o atual quadro da Polícia no Interior. “Mesmo se conseguirmos implantar 50 delegacias no Interior, neste Governo, ainda não teremos beneficiado todos os Municípios.”

RONDA DO QUARTEIRÃO

Monteiro desmente o ex-comandante da PM


Em meio ao seu pronunciamento na Assembléia Legislativa, o secretário da Segurança Pública acabou alfinetando um de seus principais ex-auxiliares: o ex-comandante da Polícia Militar, coronel Adahil Bessa de Queiroz.

Monteiro desmentiu a informação de que implantação do Policiamento Integrado e Dinâmico (PID), na Prainha, em Aquiraz, em janeiro, tenha sido um ‘piloto’ para o Projeto Ronda do Quarteirão’.

“Foi um equívoco por parte do ex-comandante. O PID do coronel Bessa não era nem é o início do Ronda do Quarteirão”, afirmou o Secretário.

Na época de seu lançamento, o PID foi tratado oficialmente pelas autoridades - inclusive através de entrevistas na mídia local - como sendo um dos pilotos do ‘Ronda’. A reportagem do Diário do Nordeste esteve presente na inauguração do PID, em Aquiraz, e testemunhou o pronunciamento das autoridades presentes, todas citando o Policiamento como o primeiro teste para o ‘Ronda’. Meses depois, o mesmo PID foi lançado no bairro Vila Velha com a mesma pompa e, segundo as autoridades, seria a segunda comunidade a ser avaliada para a implantação final do ‘Ronda do Quarteirão’.

Viaturas

Monteiro deu ainda alguns detalhes do projeto, informando que a Capital foi dividida em 91 quadriláteros, ´cada uma deles com três quilômetros quadrados, onde haverá, 24 horas por dia, e todos os dias, uma viatura quatro rodas (caminhonete) e duas de duas rodas (motocicletas).”

Fernando Ribeiro
Editor

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