GATE

Rotina de policiais do esquadrão antibombas é de constante desafio

Treinamentos, adrenalina, preparo psicológico e ações de alto risco fazem parte do cotidiano do Gate

12 homens formam o esquadrão antibombas do Estado do Ceará ( Foto: Fernanda Siebra )
01:00 · 08.01.2018 por Emanoela Campelo de Melo - Repórter

Com a consciência de que um erro pode ser fatal, operando maquinário de valor milionário e utilizando trajes que pesam 50 quilos. Assim é a rotina de trabalho dos 12 policiais militares que atuam no Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) do Batalhão de Choque da PM, único esquadrão antibombas do Estado.

"Não podemos pensar muito nos erros. Se pensarmos, não fazemos". A fala do soldado Aldenor Rabelo, há 11 anos atuando no Grupamento, mostra que lidar com adrenalina é tarefa aprendida na prática. Para ele, os equipamentos adquiridos desde a última Copa do Mundo, em 2012, fizeram com o que o trabalho se tornasse menos precário, mas, ainda assim, composto por numerosos desafios.

> 32 agências bancárias foram explodidas no CE em 2017

"A estrutura vem melhorando. Treinamos muito e na hora da prática confiamos nesse treinamento. Sabemos que mais vale sangue derramado nos treinamentos do que sangue derramado nas ruas. Nos capacitamos para ter certeza que não haverá nenhum problema nas ruas e, se tiver, que os riscos sejam minimizados", conta Rabelo.

Comandante do Gate há 10 anos, o major Antônio Cavalcante, explica a divisão do Grupo. Além da equipe antibombas, há a de negociação, atiradores de elite e tática. O efetivo operacional total é de 44 militares. Em março de 2018, o Gate completa 25 anos de história.

Os recebimentos de materiais para o desempenho das funções do esquadrão antibomba fizeram com que as ações passassem a ter um maior êxito. Segundo Antônio Cavalcante, hoje, é possível afirmar que o Gate tem os equipamentos necessários para atender qualquer tipo de ocorrência envolvendo explosivos.

"Cada equipe daqui tem profissionais especializados. Para chegar no Gate é preciso, obrigatoriamente, passar por uma formação que leva de um a dois meses. O efetivo de hoje ainda não é suficiente. Nós pretendemos chegar ao fim deste ano com, pelo menos, o dobro de policiais", revela o comandante.

Nas ruas

Nos últimos cinco anos, as ocorrências com explosivos ficaram mais frequentes, principalmente, quando envolviam ataques a agências bancárias no Interior do Ceará. Porém, o acionamento do policiamento de elite vem mostrando queda desde os anos de 2016 e 2017.

Nos últimos dois anos, o esquadrão foi acionado para 28 ocorrências. No ano passado foram 16 ocorrências. Os acionamentos atendidos pela equipe vão desde ataques a bancos com utilização de explosivos até varreduras em espaços onde possa haver explosivos. O Gate só se faz presente em uma ocorrência quando o explosivo ainda não detonou por inteiro, ou, quando é preciso recolher emulsões.

Para a Polícia Militar, a redução nos atendimentos traz uma realidade: os criminosos vêm concluindo o plano e conseguindo não deixar restos de artefatos nos locais da ação. Se antes, especialistas viam com menor frequência uma ação de sucesso utilizando bombas, agora, as explosões são mais produtivas para os criminosos e desastrosas para a população.

O sargento Aldenor Rabelo lembra que a ocorrência com artefato explosivo tem características próprias. A partir do momento em que o esquadrão é acionado, a etapa mais importante é chegar ao local e isolar o perímetro. Após a chegada, caso não exista contagem regressiva para explosão, a calma é melhor aliada da equipe.

"Precisamos tomar a atitude correta. Se a decisão escolhida for errada pode custar, primeiro, a minha vida. Quando se pensa em Polícia, se pensa em pressa, rapidez. Pensa que tem que ser resolvido logo e pronto. Quando envolve explosivos, precisamos avaliar cada risco para tomar a decisão", conta Rabelo.

O cabo Jonas Siqueira, também do esquadrão antibombas do Ceará, lembra da adrenalina quando se trabalha com explosivos: "É preciso considerar a criatividade do criminoso". Ou seja, o objeto montado para ser detonado é uma ameaça constante, que pode ser acionada por diversos meios elétricos.

"Quando digo que há muita adrenalina, em primeiro lugar, é porque sei que minha vida está em perigo. Também há vidas de outros inocentes. O material que utilizamos hoje auxilia muito. Para usar esse material é preciso preparo. Só o traje antibomba pesa 50 quilos. Tem que estar bem fisicamente e psicologicamente", informou Siqueira.

Conjuntura

O traje ao qual Siqueira se refere é importado e foi adquirido por, cerca de, R$ 130 mil. Segundo o sargento Wellington Vaz, responsável por apresentar todo equipamento utilizado pelo esquadrão, atualmente, há quatro trajes deles. Já a 'visão da equipe' fica a cargo de um robô, que tem valor aproximado de R$ 500 mil e consegue chegar mais perto de uma possível bomba prestes a explodir, sem tantos riscos aos PMs.

Braço robótico, Raio-X, escudos anti explosão e uma van blindada são alguns dos outros equipamentos que auxiliam no enfrentamento de ações antiterrorismo. Segundo o major Cavalcante, há, pelo menos, um ano, o esquadrão tem estado mais presente nas ocorrências dos presídios do Ceará.

Devido à intensificação do trabalho, para 2018 a expectativa é que o Gate deixe de ser uma Companhia do BPChoque e se torne um Batalhão. Antônio Cavalcante afirma que a tratativa é apoiada pelo secretário de Segurança Pública (SSPDS) do Ceará, André Costa. Porém, não há prazo para a mudança.

Fique por dentro

Terrorismo na Assembleia

No dia 5 de abril de 2016, 13,3 quilos de artefatos explosivos foram colocados dentro de um carro, em frente à Assembleia Legislativa do Ceará (AL-CE), localizada na movimentada Avenida Desembargador Moreira, no bairro Dionísio Torres. As bananas de dinamite não tinham detonador à distância e foram removidas com auxílio do robô do Gate. O material bélico foi levado ao 34ºDP (Centro) e desativado com auxílio do Exército Brasileiro (EB). À época, as suspeitas da Polícia eram que o produto seria usado para atacar instituições financeiras, ou, em retaliação à Lei que trata da instalação de bloqueadores de sinal de telefone celulares, nos arredores dos presídios. Uma semana depois, policiais do esquadrão antibombas realizaram inspeção no prédio da empresa Contax, também em Fortaleza, após ameaças de atentados feitas em redes sociais e por telefone. A versão divulgada pelos criminosos dizia que havia bombas no 3º andar do edifício, localizado na Avenida Borges de Melo. Após buscas minuciosas, nada foi encontrado.

Confira demonstração do Gate

Entrevista com PMs da equipe antibomba.

Veja conteúdo online em: Http://bit.Ly/gate-esquadraoantibomba

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.