PF identifica os ´laranjas´ de chefões do Jogo do Bicho - Polícia - Diário do Nordeste

OPERAÇÃO ´ARCA DE NOÉ´

PF identifica os ´laranjas´ de chefões do Jogo do Bicho

11.10.2008

Diário teve acesso ao documento em que juiz aponta os passos que a PF trilhou para desmontar o grupo ´Paratodos´

Depois de prender os principais integrantes da cúpula do Jogo do Bicho no Ceará, a Polícia Federal agora aprofunda as investigações e já identificou pessoas e empresas que vinham servindo de ´laranjas´ para a movimentação financeira dos bicheiros. A quebra dos sigilos fiscal e bancário dos diretores do grupo ´Paratodos´ permitiu à PF detectar os crimes de sonegação fiscal, contra o sistema financeiro nacional, contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa.

Num despacho de 34 páginas, em que fundamenta sua decisão de mandar prender os ´chefões´ do Jogo do Bicho, o juiz federal, Danilo Fontenelle Sampaio, titular da 11ª Vara Federal no Ceará, individualiza a conduta de cada um dos acusados, aponta seus crimes e mostra como a Polícia Federal trabalhou para descobrir os delitos a partir de uma perícia financeira contábil, além das escutas telefônicas.

O Diário do Nordeste teve acesso, ontem, à cópia do documento judicial em que o magistrado retrata, passo a passo, o trabalho de inteligência que a PF montou para chegar aos acusados e seus crimes.

´Com a determinação judicial pela quebra dos sigilos fiscal e bancário, e após o respectivo encaminhamento pela Receita Federal, da documentação concernente às movimentações financeiras com base na CPMF e nas declarações anuais de Imposto de Renda de Pessoas Físicas e Jurídicas investigadas, bem como, pelas instituições financeiras e bancárias das suas movimentações, além de outros documentos enviados por cartórios de registros de imóveis e pelo Detran, acerca do patrimônio registrado em nome dos mesmos, foi realizada a perícia financeira contábil para cada um dos investigados, de forma individualizada”, diz um dos trechos iniciais do documento.

No curso das investigações do inquérito de número 853/2001, a PF comprovou os crimes. ´A investigação refletiu o que já era esperado, ou seja, a situação econômica e patrimonial vultosamente avantajada dos investigados, usufruídas ao arrepio do Fisco Nacional, além da conclusão pela incidência de divergências significativas entre os rendimentos declarados de cada investigado e sua movimentação financeira, afora o fato da total omissão da organização Paratodos como fonte de rendimentos´, completa o documento judicial.

Acusados

As investigações apontaram como ´cabeças´ da organização criminosa os seguintes diretores da ´Paratodos´: Francisco Mororó, Francisco Lima Mororó, Fábio Leite de Carvalho, João Carlos Mendonça, Fábio Leite de Carvalho Júnior, Hamilton Paula Viana, Arnaldo Paula Viana, João Evangelista Camelo Rebouças, José Geraldo Martins de Souza, Francisco de Assis Rodrigues de Souza, o ´Chico Beira-Rio´; Hamilton Paula Viana Filho e Vilauba Maria de Paiva Salvador. Todos tiveram prisão temporária - por cinco dias - decretada pela Polícia e ainda seus bens e valores foram indisponibilizados e as contas bancárias bloqueadas. Dos acusados, quatro permanecem foragidos.

Os demais foram presos na ´Operação Arca de Noé´, que mobilizou 200 policiais federais na manhã da última quinta-feira. Foram cumpridos, ainda, 21 mandados de busca e apreensão, com o fechamento do banco ´Paratodos´.

LIBERDADE
Juiz revoga a prisão de todos os detidos na operação

Todas as dez pessoas presas durante a ´Operação Arca de Noé´ já estão livres da cadeia. Na noite de ontem, por volta das 21 horas, o juiz federal Danilo Fontenelle decidiu revogar as prisões temporárias e emitiu os alvarás de soltura. Por volta das 22 horas, os acusados começaram a deixar a sede da Superintendência da Polícia Federal.

O juiz entendeu que os depoimentos das pessoas detidas, prestados durante toda a quinta-feira e complementados ontem, foram suficientes para, com outras provas, formar os elementos que a Justiça necessita dentro das investigações.

“Considero justa a medida adotada pelo juiz, pois as prisões não eram mais necessárias”, disse ao Diário do Nordeste o criminalista Paulo Quezado, contratado para a defesa de três dos acusados presos.

Trâmites

O primeiro a ser posto em liberdade, ainda na manhã de ontem, foi o delegado Francisco Carlos Araújo Crisóstomo, ex-superintendente-adjunto da Polícia Civil do Ceará. Crisóstomo havia sido preso, na última quinta-feira (9), por porte ilegal de arma

A decisão do relaxamento da prisão do delegado chegou ao conhecimento do advogado dele, Marcelo Ponte, por volta das 11 horas. O delegado permanecia detido numa sala do Departamento de Inteligência Policial (DIP), no prédio da Superintendência da Polícia Civil, para onde foi transferido na noite de anteontem, depois de quase 20 horas detido na PF.

Segundo Marcelo Ponte, Crisóstomo está “bastante abalado, chateado e decepcionado.” Ponte ressaltou que o delegado falará com a Imprensa, mas não definiu uma data para a entrevista. No dia anterior, o secretário da Segurança, Roberto Monteiro, anunciou a exoneração de Crisóstomo.

Trâmites

O advogado afirmou que não teve acesso aos autos do inquérito instaurado pela Polícia Federal, com relação à ‘Operação Arca de Noé’. Segundo ele, o mais importante e urgente era a liberdade do delegado. “Vamos nos preparar para os trâmites processuais”, explicou Marcelo Ponte.

DESEMPREGADOS
Cambistas prometem manifestação

“E agora? O que será de nós?´ A pergunta ecoou durante todo o dia de ontem, defronte ao prédio do banco ´Paratodos´, na Avenida Tristão Gonçalves, Centro de Fortaleza. Ali, dezenas de cambistas se reuniram para conversar sobre o fim das atividades do ´Paratodos´, concretizado, no dia anterior pela Polícia Federal; e colher mais informações sobre o caso. O Jogo do Bicho é a única fonte de renda de, pelo menos, 20 mil pessoas em Fortaleza e Região Metropolitana.

Para denunciar à sociedade as dificuldades que passarão a enfrentar com o fechamento do ´Paratodos´, os cambistas programaram para a próxima segunda-feira (13), a partir das 8 horas, uma grande concentração e ato público defronte ao banco. O objetivo é mostrar o trabalho realizado pelo ´Paratodos´ no Ceará, inclusive doações que eram feitas para entidades filantrópicas e a garantia de sobrevivência de pessoas excluídas do mercado.

Ontem, não havia nenhum policial federal no prédio do ´Paratodos´. Apenas três seguranças particulares, contratados pelo próprio banco, garantiam a integridade do imóvel. Mas, o movimento de cambistas foi intenso no local. Em pequenas rodas na calçada do prédio, eles avaliavam o que fazer diante da perda do trabalho que garantia sua sobrevivência e a de suas famílias.

A maior parte dos cambistas é composta por idosos, mulheres sozinhas, analfabetos e deficientes físicos. ´Formamos os excluídos e sem o ´Paratodos´ essa situação fica ainda mais evidente´, avaliou Costa Andrade, 54, cambista há 30 anos.

Os cambistas foram unânimes em destacar que o ´Paratodos´ oferece oportunidade de trabalho para excluídos do mercado de trabalho e que ninguém é coagido ou intimidado a apostar no Jogo do Bicho. Para eles, o fechamento do banco representa um caos social sem precedente em todo o Estado.

´Será que ninguém pensou nisso?´, indagou o cambista Teógenes Rodrigues, 54, há mais de 20 anos na profissão. Segundo os cambistas, a maior parte deles recebia até dois salários mínimos mensais pelo trabalho, além de quatro gratificações anuais, sem contar assistência médica e odontológica extensiva a toda a família e até férias. O banco também pagaria o INSS, de forma avulsa, para muitos dos colaboradores. “Queremos voltar a trabalhar. Não podemos ficar nessa situação e não temos outra fonte de sustento´, enfatizou a cambista Silvelene Tabosa, 40. Ela herdou o ofício do pai ´e é assim que coloco comida na mesa em casa”, desabafou.

Durante o fechamento do prédio do ´Paratodos´, alguns cambistas chegaram a insultar os policiais federais.

Fernando Ribeiro
Editor

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