Investigação

Mulheres são vítimas de golpe em sites de relacionamento

Criminosos estrangeiros seduzem pessoas através da internet e as convencem a realizar depósitos em dinheiro

00:00 · 05.04.2015
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Conforme a Polícia, os criminosos criam perfis falsos, com fotografias aleatórias, e estudam o perfil das vítimas, como idade, profissão. Em momentos de instabilidade emocional, a pessoa estará mais propensa a cair no golpe ( Foto: Bruno Gomes )
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Ângela Maria de Barba Rocha, de 28 anos, foi atraída para o Ceará e morta com golpes na cabeça ano passado
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Já a professora aposentada Maria das Graças Martins Nina, 66, foi assassinada a mando do genro
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Diante de tanta exposição, a dica é ter sempre cuidado com as informações compartilhadas ( Foto: Bruno Gomes )

O sonho de conquistar um romance ao abrir uma janela de bate-papo na internet se transformou em dor de cabeça para algumas mulheres no Ceará. Seduzidas por criminosos que se passam por bons moços, as vítimas depositam fé nos sorrisos fáceis das fotografias e dinheiro nas contas dos farsantes.

Pelo menos mais três mulheres cearenses que dizem ter sido vítimas de um golpe digital, denunciaram os casos à Delegacia de Defraudações e Falsificações (DDF) da Polícia Civil. O titular da Especializada, delegado Jaime Paula Pessoa Linhares, disse que após a divulgação de um caso, em março deste ano, outras mulheres se sentiram encorajadas a denunciar os golpistas estrangeiros.

Duas das vítimas chegaram a fazer depósitos em dinheiro no Banco Postal para os falsários. A primeira depositou ao todo R$ 32 mil e a outra R$ 5 mil. Elas contaram que tiveram o primeiro contato com os suspeitos por meio de sites de relacionamento. Eles se mostraram carinhosos, atenciosos e apaixonados e só quando ganharam a confiança das vítimas começaram a pedir dinheiro, alegando que passavam por situações complicadas, de naturezas diversas.

Ousadia

A outra denunciante disse que não se inscreveu em nenhum site de relacionamento, mas o estelionatário conseguiu seus contatos online e começou uma conversa. Segundo ela revelou à Polícia, as desconfianças começaram quando o homem que se dizia apaixonado lhe disse que precisava de dinheiro.

"Foi muito importante ela ter tido esta percepção de que não é normal no início de um relacionamento alguém já estar pedindo dinheiro. Ao descartar a possibilidade de fazer os depósitos, rapidamente os contatos foram encerrados", afirmou Linhares.

Segundo o delegado, a fraude continua de acordo com a disponibilidade da vítima. "Enquanto você não percebe que está sendo parte de um golpe e está correspondendo ao que eles pedem, terá atenção e continuará sendo procurada", explicou.

Jaime Paula Pessoa afirmou que as fraudes são idênticas e que, infelizmente, a possibilidade de a vítima ter o dinheiro depositado para os estelionatários, ressarcido, é muito pequena. "O trabalho da Polícia é identificar e punir quem comete crimes e isto nós estamos fazendo com bastante empenho. No entanto, conseguir o dinheiro de volta é outra coisa. Quando se rouba um bem, é fácil de recuperar, porque aquele objeto pode ser descaracterizado, mas não deixará de ser o que sempre foi. Já o dinheiro, é gasto e pronto", disse o delegado.

O titular da DDF alerta que a conversa mantida pelos falsários é sempre muito parecida e o perfil apresentado na internet é padrão. Segundo ele, é necessário manter-se alerta para pontos que são convergentes em todas as fraudes que já foram denunciadas à Polícia.

"Sempre postam fotos de pessoas atraentes como se fossem deles, se dizem empresários ou investidores, afirmam que estão montando um negócio novo muito promissor, demonstram o interesse de vir ao Brasil conhecer as vítimas e logo em seguida pedem dinheiro. No começo, exigem quantias pequenas, mas quando veem que estão conseguindo o que querem a situação vai piorando. Esta senhora que chegou a depositar R$32 mil, fez vários depósitos. Eles indicam até que o dinheiro deve ser depositado no Banco Postal, porque não ficam registros da transação", disse.

Para o delegado, não é difícil cair em um golpe destes e a situação emocional da vítima conta muito para que a fraude seja concretizada. "Estamos falando de golpistas especializados, de pessoas que estão toda hora procurando uma forma de aperfeiçoar fraudes. Eles estudam as características, idade, profissão das pessoas para ver o que pode agradá-las. Se a pessoa está emocionalmente fragilizada, é normal que não perceba a armação".

Linhares contou ainda, que os golpes acontecem de forma rápida e que, em cerca de um a dois meses, a vítima já é descartada.

"Infelizmente, as vítimas estão em sites de relacionamento como produtos em prateleiras para serem escolhidas por estes criminosos. Não se trata de uma pessoa realmente apaixonada, não há uma dedicação exclusiva. À medida em que vão ganhando o dinheiro, vão descartando as mulheres".

O delegado pede a colaboração de todas as pessoas que suspeitam que podem ter sido vítimas deste golpe, para que denunciem à Polícia.

"Comparecer à Delegacia faz com as pessoas resgatem a autoestima, porque quando você é vítima de um golpe se sente um bobo, se vê humilhado, mas quando sabe que está ajudando a outras pessoas a não caírem na conversa destes 'espertalhões', se sente melhor".

Segundo o delegado, as vítimas demonstram em seus depoimentos o quanto estão deprimidas com o que lhes aconteceu.

"Às vezes, a gente pensa que uma arma apontada para a cabeça é o que assusta, o que traumatiza, mas ninguém queira experimentar uma situação como esta. Você é vítima de alguém que usou seus sentimentos e levou embora o seu dinheiro. A sensação de impotência, de não poder sequer verbalizar o que você sente, por vergonha, é algo certamente muito doloroso".

Crime internacional

Como existem indícios muito fortes de que os suspeitos dos golpes estejam em outros Países, o inquérito que apura os casos foi encaminhado também à Polícia Federal (PF) e à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).

"A PF tem contatos estreitos com a Interpol e com as Embaixadas de diversos Países que poderão nos ajudar; e a DDM também será um suporte, já que é especializada em lidar com casos em que mulheres são vítimas. São colaborações importantes para nós", considerou o delegado.

Casos recentes mostram perigo de romances virtuais

Perder dinheiro acaba sendo dos males o menor se comparado com o que passaram algumas mulheres, recentemente, no Ceará, graças a romances iniciados em redes sociais ou na internet.

Em março do ano passado, por exemplo, a paranaense Ângela Maria de Barba Rocha, de 28 anos, foi atraída para o Ceará e morta com golpes na cabeça. O suspeito do crime, o cearense cobrador de ônibus Clécio de Oliveira Braga, 33, está preso e aguarda julgamento.

A mulher, formada em Química, era natural do Paraná mas vivia na Paraíba, onde trabalhava, quando conheceu Clécio pela internet. O suspeito era casado e pai de uma criança de cinco anos de idade, mas se aproximou de Ângela, que mantinha um perfil em uma rede social, para começar um relacionamento amoroso.

Conforme as investigações, o homem retirou a quantia de R$ 28 mil da conta-corrente de Ângela depois de matá-la. Além disso, utilizou os cartões de crédito da vítima para fazer compras.

À época do crime, o delegado geral de Polícia Civil, Andrade Júnior, afirmou que Clécio se aproveitou de um momento frágil na vida de Ângela. A mulher estava se divorciando do companheiro quando iniciaram o relacionamento na internet. Clécio chegou a ir a João Pessoa, na Paraíba, onde Ângela trabalhava, para conhecê-la. Lá, utilizou nomes falsos quando se hospedou em uma pousada.

Após conquistar a confiança da mulher, o suspeito a convenceu a abandonar o emprego e a família. A vítima foi atraída para o Ceará, onde ocorreu o crime. No dia 5 de março do ano passado, o corpo da mulher foi encontrado dentro de um veículo, em Aracati, nas proximidades da divisa do Estado do Ceará com o Rio Grande do Norte.

Premeditado

Outro caso bárbaro aconteceu no mês de fevereiro deste ano. A professora aposentada Maria das Graças Martins Nina, 66, foi assassinada a mando do genro, que queria a herança e um seguro que seriam deixados por ela.

Conforme as investigações, José Walter dos Santos Morais contratou Júlio César Bezerra de Carvalho, para se aproximar da sogra e assassiná-la.

Em um primeiro momento, Maria Nina e Júlio César trocaram e-mails. Conforme relatos, a mulher teria estranhado o fato de o homem ter tido acesso ao endereço da conta sem que ela tivesse divulgado. Entretanto, após conversas, ela aceitou se encontrar pessoalmente com o homem, no Mercado dos Pinhões, em Fortaleza.

Durante seu depoimento à Polícia, na sede da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Carvalho confessou sua participação no caso e contou à Polícia que seu relacionamento amoroso com Maria Nina fazia parte de um plano, arquitetado pelo próprio genro da vítima. Júlio César afirmou que teria combinado receber R$ 4 mil para matar a professora.

Maria Nina foi encontrada morta, no dia 21 de fevereiro, em um matagal, em Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). O corpo da aposentada apresentava sinais de violência. Os dois homens também estão presos.

Prudência é a melhor estratégia

Não são poucas as opções de sites e ferramentas para iniciar relacionamentos através da internet. Facebook, Tinder, Badoo, Whatsapp, Telegram. A cada novo aplicativo, mais possibilidades de encontrar uma alma gêmea ou se ver enrolado em uma teia de problemas.

Para o professor de Segurança da Informação Pablo Ximenes, a dica é sempre ter prudência ao iniciar qualquer contato.

"A principal dica que posso dar é evitar a ingenuidade ou a confiança sem critérios. É importante nunca compartilhar dados pessoais com estranhos, mesmo que seja uma mera data de aniversário. Se alguém liga informado de prêmio ou se dizendo representante de banco ou operadora de telefonia, você desconversa, desliga e depois telefona de volta para os números oficiais destes estabelecimentos. Se não foi você que iniciou a ligação (ou o e-mail) nunca confirme quaisquer dados nem confie em quaisquer informações", disse.

Desconfiar

Ximenes ainda alerta para não se deixar levar pela conversa. É preciso sempre desconfiar.

"Se a pessoa já está envolvida, no meio de um relacionamento virtual e quer se proteger, é importante ligar o 'desconfiômetro' e sempre medir a exposição. Nunca enviar dinheiro, pagar contas ou aceitar visitas de estranhos, por mais apaixonado que se esteja. Outra dica é tentar investigar por conta própria a vida da pessoa com a qual temos um relacionamento virtual, seja através do Google, seja contratando um serviço especializado. Nunca dá para confiar sem ter certeza de sabermos com quem estamos lidando. Na dúvida, procure um profissional especializado ou até mesmo a Polícia".

Márcia Feitosa/Levi de Freitas
Repórteres

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