IML enterra os corpos dos indigentes em valas comuns - Polícia - Diário do Nordeste

LEMBRANDO O HOLOCAUSTO

IML enterra os corpos dos indigentes em valas comuns

28.05.2009

O desrespeito aos mortos e suas famílias é praticado pelo Estado. A cena macabra ocorre no Cemitério do Bom Jardim

Descaso, desrespeito com os mortos, indigentes enterrados como animais, sem qualquer sombra de dignidade. Esta foi a denúncia que o Diário do Nordeste recebeu, investigou e confirmou, ontem pela manhã, no Cemitério do Bom Jardim. Cadáveres de pessoas falecidas em acidentes de trânsito, assassinatos, afogamentos, suicídios ou outras formas de morte violenta são levados do Instituto Médico Legal da Capital para aquele cemitério, na zona sul de Fortaleza, e ali jogados em valas. São cenas parecidas com aquelas vistas em filmes que contam o holocausto.

O flagrante aconteceu exatamente ao meio-dia, quando um rabecão do Instituto Médico Legal (IML), propositadamente sem placa e totalmente descaracterizado, parou em uma rua estreita, junto a um matagal e ao lado do cemitério. Ali já estavam funcionários de uma empresa terceirizada que trabalham como coveiros.

De forma rápida e sorrateira, os funcionários do IML abriram as portas do rabecão e puxaram os gavetões onde havia corpos inteiros e pedaços humanos. A cena macabra continuou quando os gavetões foram passados por debaixo de uma cerca de arame farpado. Do lado ´de dentro´ do cemitério as valas já estavam abertas. Os coveiros não demoraram. Viraram as gavetas, literalmente ´despejando´ os cadáveres e restos mortais no buraco.

Denúncia

A informação de que corpos de indigentes (pessoas que não são identificadas ou foram abandonadas pelas famílias) passavam pouco tempo no IML - por conta da falta de geladeiras - e logo eram enterrados, foi motivo de uma matéria especial publicada pelo Diário do Nordeste na edição do dia 12 de janeiro deste ano e repercutida nas edições seguintes por diversas autoridades da sociedade cearense, entre elas, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Assembléia Legislativa.

Desta vez, a denúncia da forma brutal como os cadáveres vêm sendo enterrados, chegou ao jornal por meio de moradores do bairro Bom Jardim, indignados com a situação e não suportando mais conviver com o mau cheiro que exala das covas rasas ou valas abertas ali diariamente.

Além dos cadáveres - muitos em decomposição - membros de corpos humanos como pernas, braços, até cabeças e vísceras, também costumam ser jogados nos fundos do cemitério, aos olhos da comunidade, segundo o relato dos moradores.

Por volta das 10 horas de ontem, a equipe do Diário do Nordeste saiu em busca de confirmar a informação. Duas horas depois - ao meio-dia - o rabecão apareceu. Exatamente conforme o relato dos moradores do bairro, o veículo parou na Rua Maranguape, ao lado da cerca de arame farpado. O ´trabalho´ foi rápido e os moradores que chegavam próximos dali para testemunhar a cena dantesca eram enxotados pelos coveiros terceirizados.

Desconfiados

Depois de ´despejar´ os cadáveres nas valas, os coveiros se afastaram. Os homens do rabecão jogaram fora suas luvas e máscaras, entraram rapidamente no veículo e saíram em alta velocidade, desconfiados da presença de estranhos nas proximidades e acreditando que a Imprensa estava por perto do cemitério.

Mesmo a distância, os moradores observaram tudo. Revoltados, pais afastavam os filhos. Jovens reclamavam da podridão. “Eles quase não jogaram areia em cima dos cadáveres. Ficamos aqui expostos a esse absurdo”, reclamou a dona-de-casa Celismar Costa Almeida. Segundo a vizinhança, praticamente todos os dias a cena se repete. Os moradores dizem ainda que, com o rigor do inverno, a enxurrada acaba levando a areia das covas e valas e os cadáveres voltam a ficar expostos, aumentando também o mau cheiro diante da decomposição. Os riscos de doenças graves atingirem os moradores, principalmente crianças e idosos, aumentam.

Para a população do Bom Jardim, a falta de respeito com os mortos e a indiferença dos órgãos públicos com a dor das famílias dos falecidos tornaram-se uma triste rotina.

RISCO DE DOENÇAS
Vizinhança sofre com o grave problema

“Hoje foram quatro cadáveres. Pior foi ontem. Oito cadáveres foram jogados como bichos, no cemitério. E junto sempre vem pedaços de gente; pernas, braços, vísceras. A gente não merece ter que conviver com isso”.

Este foi o desabafo do feirante Wellington Teixeira, 50, morador da rua que passa nos fundos do cemitério do Bom Jardim. Ontem, Wellington acompanhava a equipe do Diário do Nordeste e falava sobre o dia anterior, quando o rabecão ´despejou´ outros oito cadáveres no local. “Eles (cadáveres) vêm em decomposição. Ninguém agüenta o fedor”, contou. Foi ele e uma vizinha que confirmaram a ocorrência constante do problema. “Antes demorava mais para acontecer, agora é direto. Trazem dois cadáveres, um em cima do outro, em cada gaveta daquelas do rabecão. E isso não só incomoda a gente, mas comove também. É muito triste ver uma vida humana se acabar daquele jeito”.

Segundo a vizinha, que pediu para não ser identificada, os corpos chegam no carro do Instituto Médico Legal, muitas vezes, cobertos apenas por pedaços de pano. “Temos muitas crianças aqui, elas já se acostumaram”, disse.

A dona-de-casa Celismar Costa Almeida falou sobre o mau cheiro que invade as casas ao redor do cemitério. “Corpos em decomposição são enterrados em cova rasa, sem qualquer proteção. O resultado é esse. Tem dia que ninguém almoça porque não agüenta”, relatou.

Além disso, Celismar citou as chuvas como agravante para o problema. “Moramos na Rua Maranguape, que é um ´baixo´. A água escorre do cemitério para cá quando chove. Vem uma água verde, fedorenta. Isso quando não aparecem restos mortais boiando por aqui.”

Segundo a moradora, crianças da comunidade brincam com luvas e toucas que são utilizadas pelos ocupantes do rabecão e, em seguida, jogadas no meio da rua. “As crianças não entendem o quanto aquilo é sujo e pode trazer doenças.”

Impostos

Antônia Ferreira Chaves, mãe de três filhos e também moradora da Rua Maranguape, lamenta o descaso das autoridades com a situação. “Aqui na comunidade mora gente decente, que paga impostos, que não precisa passar por isso”, avaliou.

Antônia denuncia outro fato gravíssimo. “À noite, costumam queimar ossos, restos mortais no cemitério. A fumaça vai longe, o mau cheiro também. Alguém tem que acabar com isso.” Antônia mora naquele bairro há 10 anos. “Não tenho outro canto pra ir.”

RELIGIOSIDADE
Padre diz que sepultamento digno é um direito sagrado

Independentemente da civilização, enterrar os mortos é um ritual necessário. Antes de ser um ato apenas legal, o sepultamento constitui um ritual sagrado. Na tradição cristã, enterrar o corpo significa garantir a ressurreição. “É um direito sagrado que faz parte da ética humana e religiosa”, afirma o padre Luís Sartorel, diretor do Instituto de Ciências Religiosas (Icre), completando ser um grande desrespeito à dignidade humana a violação deste direito individual. “O ritual fúnebre inclui oração, choro, veneração e luto”, ressalta.

O teólogo considera importante a identificação da pessoa, bem como a localização de parentes pelas autoridades para que tomem conhecimento da morte do parente.

“Muitas vezes, são pessoas que saíram de casa há muito tempo ou que mudaram de endereço”, justifica. A preocupação é encontrar alguém da família para que a pessoa morta tenha direito a ser sepultada com dignidade.

Conforme o religioso, o respeito ao corpo físico não se encerra com a morte com da pessoa. De acordo com a visão cristã, a morte implica na necessidade de reconhecimento da dignidade deste corpo. Ele faz parte da essência humana, sendo elemento fundamental para a ressurreição. “O corpo é uma mensagem, um sinal. O direito ao sepultamento digno e em local decente é uma questão de respeito ao semelhante. Cabe às autoridades encontrar os parentes das pessoas mortas em situação de indigência.”

FERNANDO RIBEIRO/NATHÁLIA LOBO
Editor/repórter

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