Violência

Homicídios, roubos e furtos deixam a Capital cearense acuada pelo medo

A guerra entre as facções alimenta os altos números de execuções, enquanto desencoraja os assaltos

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01:00 · 05.02.2018 / atualizado às 18:11

Com o aumento da violência, falar de Segurança Pública se tornou um tabu para os moradores da Capital cearense. A reportagem esteve nos bairros que concentram os maiores índices de homicídios e roubos, e nenhum entrevistado quis ter o nome identificado nesta reportagem. Um morador da Sapiranga, que faz parte da Área Integrada de Segurança (AIS) 7, contou que toma conhecimento de vários assassinatos, na Região, todo mês.

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"Ano passado, ocorreram vários homicídios. Sempre ouço falar de homicídios aqui". Entretanto, ele afirmou que, em 2018, o policiamento foi reforçado no bairro. "Nesse ano, a Cavalaria (da PM) tem estado presente, pelo menos uma vez na semana. Não tenho ouvido mais tiroteio", completou o homem.

A dinâmica do crime em Fortaleza faz com que regiões que apresentam um alto número de homicídios, também tenham poucos registros de roubos. Em contrapartida, onde acontecem poucos assassinatos, os números de roubos disparam.

De acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), a AIS 7 - que concentra bairros como Cajazeiras, Sapiranga, Aerolândia e Passaré, registrou o maior número de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) - homicídios, lesões corporais seguidas de morte ou latrocínios - entre todas as áreas da Capital, em 2017. Foram contabilizadas 267 ocorrências somente nesta AIS.

A Sapiranga foi palco de um dos episódios mais cruéis da disputa entre as facções, no ano passado. Quatro adolescentes foram retirados à força do Centro de Semiliberdade Mártir Francisca, para serem executados por uma quadrilha, na madrugada do dia 13 de novembro. O grupo responsável pela chacina é ligado ao CV e suspeitava que as vítimas integrassem a Guardiões do Estado (GDE).

A tragédia estava anunciada. Neste ano de 2018, a AIS 7 foi palco da maior chacina da história do Ceará. No dia 27 de janeiro, 14 pessoas foram assassinadas a tiros no 'Forró do Gago', na Comunidade do Barreirão, bairro Cajazeiras. A matança foi reivindicada pela facção GDE. A região onde aconteceu a carnificina é dominada por rivais do Comando Vermelho (CV).

Em Fortaleza foram contabilizados 1.978 assassinatos, em 2017. O número representou um aumento de 96,4% de CVLIs, em relação a 2016, quando foram registrados 1.007 homicídios. O crescimento vertiginoso no índice foi impulsionado, tanto na Capital como no restante do Estado, pela disputa sangrenta entre a GDE e CV, pelo domínio do tráfico de drogas.

Altos índices

Outras regiões que apresentaram altos índices de homicídios, em 2017, foram a AIS 9, que compreende bairros como Conjunto Esperança, Canindezinho, Mondubim e Conjunto José Walter, onde foram registradas 261 mortes; a AIS 3, que engloba bairros como Messejana, Barroso e Jangurussu, com 250 mortes; e a AIS 8, com bairros como a Barra do Ceará, Vila Velha e Pirambu, com 249 mortes.

Já a região que teve menos CVLIs, no ano passado, foi a AIS 1, onde ficam localizados bairros como Aldeota, Varjota, Praia de Iracema e Meireles, considerada "área nobre" da Capital. Foram registrados 87 homicídios na Região em todo o ano.

Uma vendedora que trabalha na Aldeota afirmou que é mais frequente ver roubos na região do que assassinatos. Apesar do baixo índice de homicídios, ela não se sente totalmente segura em transitar na região. "Aqui tem violência, mas não é como nos outros bairros. Tem muito furto e roubo. Homicídio não tem. Sempre a viatura passa e tem dois policiais a pé por aqui, mas eu acho pouco", criticou.

Roubos

O pico nos índices de homicídios, em Fortaleza, não foi acompanhado pelo número de Crimes Violentos Contra o Patrimônio (CVPs) - roubos e furtos, em geral. O acréscimo no índice foi de apenas 0,8%, de 2016 para 2017, passando de 43.370 registros para 43.735. Em 2016, o índice havia crescido 15,9%. Em 2015, foram 37.417 roubos.

Os dados mostram que a 'pacificação' selada entre as facções, em 2016, refletiu diretamente na diminuição dos homicídios e no aumento dos roubos. Com o acirramento da guerra entre as facções GDE e CV, em 2017, os assassinatos dispararam e os roubos foram freados.

Quando o assunto é CVP, o mapa de Fortaleza muda quase por completo. Conforme as estatísticas da SSPDS, a AIS 5, com bairros como Parangaba, Benfica, Montese, Fátima e Aeroporto, concentrou o maior número de roubos na Capital, em 2017: foram 6.798 ocorrências.

Moradores e transeuntes do Bairro de Fátima são uns dos principais alvos dos assaltantes. Um taxista que trabalha na região criticou o efetivo policial. "Um local desses era para ser bem policiado, por ser um bairro residencial. As pessoas têm medo de sair 19h, 20h, porque são abordadas, passa alguém de moto e te assalta. Não tem policial. A gente anda muito e, de vez em quando, vê uma patrulha ou uma dupla de policiais".

A AIS 6, que compreende bairros como Antônio Bezerra, Parquelândia, Jóquei Clube e Planalto Pici, vem logo atrás no ranking de CVPs, com 6.534 ocorrências. O menor número de roubos foi registrado na AIS 8, com 2.392 crimes. A região concentra várias comunidades com intervenções constantes de facções criminosas.

Um morador da Barra do Ceará afirmou que não tem assaltos na região devido às 'leis do tráfico'. "Roubo, aqui, a gente não vê. Sou nativo daqui e respeitam. Mas eu não me sinto seguro aqui. Embaixo de onde eu moro, o povo não 'se bate' com o de cima. Ficam aquelas balas. A Segurança deixa a desejar", afirmou o homem.

Opinião do especialista

Violência atinge a todos

Os números da criminalidade violenta em Fortaleza são alarmantes. A sensação imediata é o aumento da insegurança objetiva e subjetiva, atestada tanto pela experiência cotidiana de morar na Cidade e ter que transitar em seus espaços, quanto pelo sentimento da sensação de insegurança. Daí resulta a ideia de a cidade estar tomada por uma violência difusa, ocupando todos os seus espaços e atingindo a todos, indistintamente. A alta concentração de homicídios em certas áreas explica-se pelo aumento dos conflitos interpessoais e intergrupais que resultam na eliminação física dos agentes envolvidos nessas disputas, em sua maioria jovens, sem que o sistema de Segurança e Justiça estatais estejam presentes como mediadores e como sistemas protetivos. Este quadro de vulnerabilidades historicamente construído não ocorre nos bairros ditos nobres da Capital, justamente porque, nestes, a forma de ocupação, seja pelas corporações privadas, seja pelo próprio Estado, é fortemente controlada. Nestes espaços, a criminalidade muda de cara, é migratória, realiza-se pela maior intensidade de roubos, assaltos, justamente pelo fato de ali se concentrar e circular mais intensamente a riqueza da cidade e de seus fiéis portadores.

Geovani Jacó de Freitas
Sociólogo da Uece

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