CRIMINALIDADE AVANÇA

Homicídios na RMF superam mortes na guerra ao terror

04:02 · 27.09.2010
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No Afeganistão, 521 soldados morreram neste ano. Na Grande Fortaleza foram 1.278 assassinatos

Uma guerra silenciosa, mas mortal, e que tem produzido, além de um rastro de sangue, uma legião de viúvas, órfãos e pais chorosos com a morte brutal de seus filhos. Esta ´guerra´ tem um palco, Fortaleza e sua região metropolitana. Enquanto os Estados Unidos da América (EUA) e mais 45 países que formam a Força de Coalização contra o terror lamentam terem perdido 521 soldados no Afeganistão desde o começo deste ano, aqui já são 1.278 pessoas assassinadas em nove meses.

Na última quarta-feira, notícia que circulou no mundo inteiro, através de um balanço feito ONG iCasualties.org dava conta de que, em dois anos, a guerra contra os terroristas no Afeganistão já havia produzido o saldo trágico de 1.050 soldados mortos, contabilizando as baixas no Exército americano e nas demais tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Na Grande Fortaleza, essa contabilidade é mais que o dobro. Entre janeiro de 2009 e setembro de 2010, já são 2.694 homicídios, incluindo já os assassinatos registrados no fim de semana.

Execuções

Enquanto do outro lado do mundo o poderio bélico dos exércitos e das forças do terror disparam mísseis, bombas, tiros de fuzis e metralhadoras, além de uma imensurável quantidade de artefatos explosivos de toda ordem, aqui são as balas de simples revólveres e pistolas que produzem tantos assassinatos.

Somente este mês, entre os dias 1º e 26, 129 homicídios foram registrados na Grande Fortaleza. Somente no ´Território da Paz´, formado pelos bairros do Grande Bom Jardim, 118 pessoas foram assassinadas neste ano, conforme levantamento feito pela Reportagem. Um dos últimos episódios de violência naquele setor da Capital aconteceu na manhã de quinta-feira passada (23), quando um casal foi fuzilado dentro de uma residência que servia como ponto-de-venda de drogas.

Nem mesmo o incremento das operações policiais nos últimos meses nem a presença de viaturas do Ronda do Quarteirão têm sido suficientes para arrefecer os altos índices de criminalidade no ´Território da Paz´. Assim, os números de mortos nesta ´guerra silenciosa´ vão aumentando à cada dia.

Bairros

"Eu estaria mentindo se dissesse que (o tráfico de drogas) está diminuindo. Pelo contrário, está aumentando cada vez mais."

A recente declaração do atual secretário da Segurança Pública e Defesa Social, delegado federal Roberto Monteiro, expressa o sentimento da população da Grande Fortaleza e revela o que há por trás de tantos assassinatos. A principal causa das dezenas de execuções sumárias nas ruas, avenidas, becos e favelas da Grande Fortaleza tem como motivo os ´acertos de conta1´ entre traficantes e dependentes químicos que não quitam suas dívidas na compra de pedras de rack ou outras drogas menos utilizadas.

Desde o começo do ano, já são 124 adolescentes assassinados na Grande Fortaleza, contra 165 em 2009.

A maioria dos jovens eliminados tinha algum tipo de envolvimento com traficantes em seus respectivos bairros.

Foi o que aconteceu, por exemplo, na noite da quinta-feira (23), quando um garoto, identificado como Rubens Oliveira da Silva, de apenas 14 anos, foi morto às margens da rodovia CE-040, na Comunidade Pôr-do-Sol, em Messejana. Rubens, segundo a Polícia, era um ´avião´ do tráfico naquela favela. Todas as noites recebia drogas dos traficantes para vender na estrada.

Mas, na noite de quinta-feira sua vida foi ceifada brutalmente. Um carro parou ali próximo. O garoto correu na direção do automóvel certo de que faria mais uma venda de pedras de crack. Mas percebeu que o motorista apontava-lhe uma arma. Imediatamente, ele tratou de fugir, mas foi sumariamente eliminado pelas costas, sem chances de defesa. Segundo a perícia, a bala entrou na nuca do garoto.

Mais casos

Somente na noite da última sexta-feira (24), outros dois adolescentes tombaram sem vida na Grande Fortaleza. O primeiro fato ocorreu pouco depois das 18 horas, quando o garoto Adriano da Silva Domingos, 14, foi assassinado na porta de uma residência na Rua Thomaz Cavalcante, no bairro Autran Nunes (zona oeste da Capital). Três horas depois, Jefferson Ferreira de Sousa, de 15 anos, foi assassinado na porta de casa na Rua Elizeu Oriá, no Conjunto São Miguel, em Messejana.

EXECUÇÕES SUMÁRIAS

Monteiro admite fracasso no combate

A pouco mais de três meses de deixar o cargo, o atual secretário da Segurança Pública do Ceará, delegado federal aposentado Roberto Monteiro, admite que sua Pasta não conseguiu frear o ritmo galopante dos homicídios no Estado. Investimentos milionários com a compra de viaturas de luxo, reformas de delegacias e o incremento de mais homens na tropa da Polícia Militar através do programa de policiamento comunitário Ronda do Quarteirão não foram suficientes para conter o avanço da violência e da insegurança na Capital, zona metropolitana e nos municípios interioranos.

Em entrevistas concedidas ao longo dos dois últimos anos, Monteiro tem admitido que as execuções sumárias, que ele denomina de ´extra-judiciais´, tornaram-se uma verdadeira dor de cabeça para ele e para seus assessores responsáveis pelo planejamento das ações contra a criminalidade.

Vazias

O projeto de reinteriorização da Polícia Civil tem se resumido à inauguração de novos prédios, com fachadas modernas. Mas, dentro dos prédios, o vazio. Não há policiais civis (inspetores) suficientes para dar vazão à demanda de inquéritos, registros de Boletim de Ocorrência (B.O.), lavraturas de Termos Circunstanciado de Ocorrência (T.C.O.), reconhecimentos e, principalmente, para realizar investigações sobre crimes.

Na semana passada, o Diário do Nordeste foi às ruas com a manchete sobre o ´novo cangaço´, uma referência forma como cidades do Interior estão sendo atacadas pelo crime.

Quadrilhas fortemente armadas estão dominando o Interior em ataques violentos contra agências bancárias, postos dos Correios e lotéricas, fazendo reféns e feridos e desmoralizando os parcos destacamentos da Polícia Militar. Os PMs são os primeiros a ser dominados pelos delinquentes que se utilizam de carros roubados e armamento de grosso calibre, como fuzis, carabinas e metralhadoras.

Em entrevista à Reportagem, o próprio chefe do Comando do Policiamento do Interior (CPI), coronel PM, coronel Andrade, admitiu que as unidades policiais do Interior se ressentem de efetivo suficiente para dar real combate ao crime e promover a segurança da população.

No rastro da violência no Estado, 20 bancos foram assaltados, 109 mulheres assassinadas e 14 policiais mortos.

DESESPERANÇA

Mãe agradeceu após assassinato do filho

"Agradeço a quem fez isto com meu filho. Não quero vingança, mas não quero saber de mais nada. Só agradeço a quem fez isso com ele".

A declaração surpreendente partiu de uma mãe diante do corpo do filho assassinado, no meio da semana passada. O desabafo da mãe aflita reflete o sentimento de milhares de famílias que tiveram seus filhos arrastados pelas drogas. Somente este ano, 124 adolescentes, com idades entre 12 e 17 anos, morreram nas ruas da Grande Fortaleza, eliminados por tiros disparados por pistoleiros a serviço dos traficantes de drogas.

Aliviar

O desabafo da mãe que teve o filho executado - fato mostrado nos programas policiais da TV - revela ainda outro sentimento. A falta de confiança na Justiça e no trabalho da Polícia. Parentes das pessoas mortas muitas vezes sequer comparecem às delegacias para prestar depoimento e, desse modo, ajudar na identificação dos assassinos. O medo de virem a tornar-se as próximas vítimas, silencia os familiares das vítimas.

A recente inauguração da Divisão de Homicídios não deu freio à crescente onda de assassinatos na Grande Fortaleza, mas, ao menos, traz a expectativa de que os casos considerados misteriosos sejam esclarecidos.

"Os policiais estão indo aos locais, fazem os primeiros levantamentos em busca de descobrir a autoria dos crimes", sustenta o delegado Jairo Pequeno, diretor do Departamento de Polícia Especializada (DPE).

FERNANDO RIBEIRO
EDITOR DE POLÍCIA

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